Cultura Afonso Cruz: "A crise não deve, jamais, ser exaltada"

Afonso Cruz: "A crise não deve, jamais, ser exaltada"

"Reconheço que todas as destruições carregam no ventre um recomeço, mas nunca aplaudiria a destruição por motivo nenhum", diz o escritor Afonso Cruz.
Afonso Cruz: "A crise não deve, jamais, ser exaltada"
Bruno Simão/Negócios
Bruno Simões 28 de março de 2013 às 12:00

Acho que existem muitas coisas irrecuperáveis numa crise. A crise não pode ser plataforma para nada quando alguém morre por falta de medicação. Não pode ser plataforma para nada se se apoia em famílias desfeitas. Isso não se recupera com criatividade ou com uma nova hipótese de negócio.

 

Em Job, no Antigo Testamento, Deus tem uma pequena disputa com o Diabo. Tudo o que Job possui, qualquer propriedade, lhe é retirado, até os filhos. A história acaba "bem" pois ele recupera a fortuna e Deus dá-lhe filhos novos. E isto é que é aberrante: filhos novos. Nestas crises, bíblicas ou não, há as tais coisas que não se recuperam e que são insubstituíveis. O dinheiro recupera-se, mas muito do que compõe a nossa humanidade não.

Há ainda outra coisa que me parece distorcida: posso, no meio de uma crise, encontrar uma maneira de vingar, de sobreviver. Mas isso exclui a liberdade. Se eu fosse livre, escolheria fazer, não o que me desse sustento imediato e urgente, mas aquilo que me apaixona, aquilo que gostaria de fazer por mim e pelos outros. Quando temos condições, podemos escolher. Quando não sabemos se vamos ter comida para jantar nesse dia, então fazemos qualquer coisa. Pode ser muito inspirada e uma grande ideia de negócio, mas nasce dos piores motivos. Nasce da compulsão e não de um exercício de liberdade.

 

Reconheço que todas as destruições carregam no ventre um recomeço, mas nunca aplaudiria a destruição por motivo nenhum. Se é preciso criar algo novo, e isso é fundamental, não precisa de ser à custa de inúmeras vidas. De resto, para muita gente, a necessidade de colher restos nas ruas não lhes deixa tempo para serem artistas ou empresários, nem inspirados nem sem inspiração. Ou seja, para mim, a crise inibe. Acorda o nosso instinto de sobrevivência, mas não cria um futuro verdadeiro, planeado e sustentado. É uma reacção e não uma estratégia. A minha opinião é que não deve, jamais, ser exaltada.




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comentários mais recentes
Luís Mateus 01.04.2013

Não há criatividade na sobrevivência. Não há paixão na precariedade e na ausência de esperança. A mudança tem planeamento, estratégia e visão de um futuro comum. A crise surge na ausência dessa estratégia e no salva-se quem puder. Um novo Portugal só nascerá pela força das comunidades e do potencial do cidadão comum. Chegámos à crise focados no nosso umbigo, só sairemos dela de mãos dadas e com orgulho no futuro que podemos construir.

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