Economia 1% da população mundial mais rica ganha o dobro dos 50% mais pobres

1% da população mundial mais rica ganha o dobro dos 50% mais pobres

Um relatório do Laboratório da Desigualdade Global, coordenado, entre outros, pelo francês Thomas Piketty conclui que, desde 1980 a desigualdade de rendimentos a nível mundial tem vindo a acentuar-se e a classe média está a contrair-se, aumentando o fosso que separa os mais ricos do mais pobres.
1% da população mundial mais rica ganha o dobro dos 50% mais pobres
SeongJoon Cho/Bloomberg
Filomena Lança 14 de dezembro de 2017 às 11:45

O fosso entre os mais ricos e os mais pobres à escala mundial continua a acentuar-se e hoje em dia 1% da população com maiores níveis de rendimentos ganha o dobro dos 50% mais pobre, um grupo que tem tido elevadas taxas de crescimento. Ao mesmo tempo, a classe média, definida como o grupo de pessoas nos decis seis a nove da distribuição de rendimentos e que inclui 90% da população da União europeia e dos Estados Unidos, tem vindo a registar uma contracção.

 

A conclusão é de um estudo do Laboratório para a Desigualdade global, realizado por um conjunto de economistas de diferentes países e coordenado, entre outros, pelo francês Thomas Piketty. E, se é certo que a desigualdade económica é, "até certo ponto, inevitável", se o seu crescimento não for devidamente "monitorizado e enfrentado pode conduzir a todo o tipo de catástrofes económicas e sociais", sublinham os autores do trabalho.

 

O estudo analisa os dados desde 1986 e concluem que a desigualdade de rendimentos apresenta variações muito grandes entres as diversas regiões do planeta. É relativamente mais baixa na Europa e alcança os níveis mais elevados nos países do Médio Oriente, a região mais desigual do mundo.

 

Em 2016, a participação na riqueza nacional de apenas 10% de pessoas com maiores rendimentos (no decil superior) era de 37% na Europa, de 41% na China, 46% na Rússia e 47% nos Estados Unidos e Canadá. Na África Subsariana, Brasil e Índia, essa percentagem era de 55% e no Médio Oriente os indivíduos no decil superior detinham 61% da riqueza nacional.

 

Outra das conclusões do trabalho é que nas décadas mais recentes a desigualdade de rendimentos se acentuou em praticamente todos os países do mundo, mas a diferentes velocidades. Isso, referem os autores, permite constatar que as instituições nacionais e as políticas seguidas pelos diferentes Estados são determinantes em matéria de desigualdade.

 

Um exemplo apresentado é o dos países comunistas ou com grandes níveis de regulação por parte do Estado, como a China, Índia ou Rússia. O aumento da desigualdade desde 1980 foi particularmente significativo na Rússia, moderado na China e relativamente gradual na Índia, "reflectindo diferentes tipos de políticas de desregulação e abertura por parte destes países nas últimas décadas", lê-se no relatório.  

 

De notar que a divergência tem sido particularmente alta entre a Europa Ocidental e os Estados Unidos, que contavam com níveis de desigualdade semelhantes em 1980, mas que estão hoje é situações bastante diferente: se na altura os 1% mais ricos detinham cerca de 10% da riqueza, actualmente essa percentagem é de 12% na Europa Ocidental, mas disparou para os 20% nos Estados Unidos. Também neste país, ao mesmo tempo, e durante o mesmo período, verificou-se que a participação dos 50% mais pobres na riqueza nacional era de 20% em 1980 e baixou para os 13% em 2016.

 

Com as economias a registarem crescimentos, como se explicam estas desigualdades? As desigualdades, respondem os autores do estudo, estão determinadas, em grande medida, pelos distribuição de riqueza, que pode ser pública ou privada. Ora, desde 1980 que de observa em todos os países – sejam os mais ricos, sejam os emergentes – uma transformação grande no que respeita à propriedade da riqueza, que tem vindo a passar do domínio público para o privado. Por isso, ainda que a riqueza até tenha crescido de forma notável, a riqueza nacional (pública), essa tem vindo a reduzir-se, ficando mesmo negativa (a dívida é superior aos activos). Isso limita a capacidade dos governos para reduzirem a desigualdade e tem implicações importantes para a desigualdade de riqueza entre os indivíduos.




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mais votado Anónimo Há 5 dias

Mas os mais pobres estão melhores hoje do que em 1980 ou não? Isso é que interessa saber. Vou dar um exemplo, na Venezuela, esse paraiso na terra, os mais pobres estão muuuuuiiiiiiiiito pior hoje do que estavam em 1980. Será que o Piketty reparou?

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Anónimo Há 5 dias

Mas os mais pobres estão melhores hoje do que em 1980 ou não? Isso é que interessa saber. Vou dar um exemplo, na Venezuela, esse paraiso na terra, os mais pobres estão muuuuuiiiiiiiiito pior hoje do que estavam em 1980. Será que o Piketty reparou?

Anónimo Há 5 dias

Interessante ouvir isto das pesquisas, de que 1% da população mundial e mais rica ganha o do dobro dos 50% dos mais pobres. Eu acredito que o pesquisador esqueceu-se de fazer também as pesquisas para saber se o 1% da população mais rica irá viver 50% a mais que a população mais pobre.

Ruben Há 5 dias

Então e o mais importante: os mais pobres, nos últimos 20 anos estão pior ou melhor?
Eu sei a resposta mas esse comuna do Piketty disso não quer saber

Anónimo Há 5 dias

Vamos levar a que o governo angolano devolva aquilo que é de 100.000 portugueses! 30 segundos (literalmente) do vosso tempo bastam:
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT87641

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