Cultura A improvável história da melhor chef do mundo

A improvável história da melhor chef do mundo

Ana Roš é a mais improvável chef. Ela não sonhava em ser chef e nunca estudou culinária. Então, como ganhou o prémio da categoria feminina de Melhor Chef do Mundo este ano? A história é incrível.
A improvável história da melhor chef do mundo
Bloomberg
Bloomberg 09 de setembro de 2017 às 14:00

"Venho de uma sociedade que não tem tradição de gastronomia, onde cozinhar não é um trabalho de prestígio", disse, numa entrevista no seu isolado restaurante, Hiša Franko, num vale no oeste da Eslovénia. Hoje em dia, os clientes chegam de locais tão distantes como a Austrália e precisam de fazer reservas com meses de antecedência. Roš nunca imaginou que isso aconteceria.

 

Enquanto adolescente, Roš era uma desportista talentosa: uma esquiadora habilidosa a nível nacional. "Mas eu não era uma vencedora", disse. "Não estava na minha natureza. Eu ficava sempre em segundo, então desisti quando tinha 17 anos." Passou a estudar Ciência Internacional e Diplomacia em Trieste, embora o seu italiano não fosse muito bom: "Os meus pais mandaram-me estudar em Puglia, mas, em vez disso, passei o Verão com os meus amigos".

 

Ainda assim, recebeu uma proposta de emprego da Comissão Europeia em Bruxelas, e foi só então que tomou a decisão de abandonar o sonho de uma carreira diplomática e tentar o negócio dos restaurantes.

 

Ela tinha-se apaixonado, e os pais do marido — proprietários do Hiša Franko —decidiram reformar-se. Isto em 2000. Roš e o marido Valter, um escanção, decidiram assumir o empreendimento. Roš nunca esteve particularmente interessada em comida quando criança e só ia a restaurantes nos aniversários e noutras ocasiões especiais. Mas Valter era um amante da culinária e, juntos, começaram a viajar pela Europa e a jantar em alguns dos melhores restaurantes do continente.

 

Havia apenas um problema: quando voltaram ao Hiša Franko, eles não gostaram da culinária eslovena à moda antiga.

 

"Um dia, eu e o meu marido sentámo-nos para conversar e decidimos que era preciso que alguém assumisse a cozinha", disse Roš, agora com 44 anos. "Ele disse que não tinha tempo, então eu resolvi fazê-lo. Não pensei duas vezes. Os primeiros cinco anos foram um processo de aprendizagem. Eu estava a lutar: a ler livros, a ir a conferências, a experimentar coisas. Foi como ser lançada na água sem saber nadar."

 

Grande parte do sucesso internacional recente deve-se à Netflix, que lhe dedicou um capítulo de "Chef’s Table" em 2016. Roš não vê televisão e nunca tinha ouvido falar do programa. Já tinha aparecido na TV anteriormente e não esperava que o telefone começasse a tocar.

 

"Quando o programa da Netflix saiu, no dia 27 de Maio do ano passado, o dia começou normalmente. Mas não percebemos que a diferença horária significava que ainda era de manhã nos EUA. À noite, o nosso sistema de reservas tinha colapsado e as visitas ao nosso site passaram de 200 a 10.000 por dia."

 

O título de Melhor Chef na categoria feminina chegou pouco depois. O prémio é polémico, porque há quem diga que é ridículo ter uma categoria separada para as mulheres. O que é que Roš acha disso?

 

"Alguns de meus amigos chefs disseram-me que eu devia subir ao palco e dizer que não aceitaria o prémio", conta, rindo. "Eu perguntei se eles já tinham recusado algum prémio. A minha explicação é a seguinte: é muito claro que, para uma mulher num mundo masculino, vai ser sempre difícil. Uma mulher tem tantos papéis — mãe, esposa, amante, dona de casa — e depois tenta encaixar 14 ou 16 horas de trabalho.

 

"Os melhores chefs do mundo — pessoas como Massimo Bottura, René Redzepi — têm esposas incríveis. Eles estão 100% no trabalho porque têm alguém que toma conta dos seus filhos, que cuida de tudo na sua vida privada. Quando chegam em casa, provavelmente já alguém cozinhou e tem tempo para conversar com eles."

 

"Acha que isto acontece com uma mulher? Nunca se pode comparar estes dois mundos diferentes."

(Título original: The Unlikely Story of the World’s Best Female Chef)




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comentários mais recentes
CHAMEMOS AS COISAS PELOS N-O-S-S-O-S NOMES Há 1 semana

Por vezes, apetece ser primário nos nossos desabafos.
É o caso.
Vão cagaar com o " chef " para aqui, " chef " para ali.
Qual " chef ", qual meerda !

1 - Em bom Português ( e não em galicismo bacoco e provinciano ) se for um homem, é COZINHEIRO.
2 - Se for mulher, é COZINHEIRA.

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