Economia A união desfaz a força

A união desfaz a força

Numa noite gloriosa Portugal renunciou à sua épica militância de eterno derrotado e construiu outra, mais doce: a de vencedor. A missão heróica de redimir, através do futebol, os portugueses de boa vontade, foi concluída quase sem percebermos como.
Fernando Sobral 11 de julho de 2016 às 22:07
A vitória sobre a França foi uma mensagem de paz, escutada nas sete partidas do mundo. Porque a vitória neste Euro, momento em que se afastou com um sopro, ou um golo de Éder, a fúria dos Adamastores que sucessivamente nos afastaram do destino, foi a de um país espalhado pelo mundo em busca do lugar onde  cada um pode ser um deus a criar o seu futuro. Foi uma vitória mesclada de culturas africanas e brasileiras, algo que torna hoje o nosso futebol como o som de um Fado impregnado de ritmo e alegria. E de optimismo. Passámos a ter saudades de um outro futuro.

A vitória do Euro, depois de sagas perdidas perto da praia pelas gerações de Eusébio ou de Figo, foi como um choque eléctrico numa Pátria refém da hibernação da austeridade e dissolvida pela necessidade de encontrar fora de portas a sobrevivência. O exílio, depois desta vitória, já não é em Portugal. A união desfez a força. Contra a França os portugueses não ficaram amedrontados pela queda de Cristiano. A sua vitória foi um relâmpago, um raio que atravessou a noite de Paris e que circulou por todo o mundo onde se fala português ou, como em França, onde os filhos dos emigrantes que já só falam francês reencontram a sua alma.

Esta vitória pode servir, se for aproveitada de forma inteligente, para criar a pátria global que um dia Fernando Pessoa sonhou. Unida pelo futebol e, também, pela língua. Contra França, Portugal não foi a pátria da saudade. Calçou as chuteiras da nostalgia. Os jogadores quiseram resgatar o seu herói caído. Resistiram de forma épica e esperaram a hora da verdade.

O futebol uniu o país como nunca antes e esta vitória será a memória de mais do que uma geração. É a resposta à Europa das sanções e da tecnocracia cinzenta. Foi um grito do Ipiranga face ao futebol que os franceses e alemães jogam como burocratas e que os portugueses vivem como se fosse a sua vida. Se os europeus são objectivos, os portugueses (e os guineenses, e os brasileiros, e os cabo-verdianos, e os angolanos, e os…) são subjectivos. É isso que nos torna diferentes da Europa e dos seus soldadinhos de chumbo, todos iguais. E foi isso que nos custou tantos anos a ganhar um título. Mas agora abandonámos essa humildade. A vitória gerou um optimismo vital. Portugal, através do futebol, libertou-se. E deixou de ter medo do passado.



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