Zona Euro Abrir mais os cordões à bolsa? "Não", responde Schäuble

Abrir mais os cordões à bolsa? "Não", responde Schäuble

"Penso que as recomendações da Comissão Europeia foram dirigidas ao país errado", afirmou o ministro alemão das Finanças.
Abrir mais os cordões à bolsa? "Não", responde Schäuble
Eva Gaspar 22 de novembro de 2016 às 14:15

O pedido de mais estímulos orçamentais, feito pela Comissão Europeia na semana passada com o propósito de sustentar o crescimento e o emprego na Zona Euro, não deve ser dirigido à Alemanha, porque a maior economia europeia tem ao longo da última década aumentado a despesas de investimento cinco vezes acima da média dos seus pares. A recusa e a argumentação são do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble.

 

"Penso que as recomendações da Comissão Europeia foram dirigidas ao país errado", disse nesta terça-feira, 22 de Novembro, o ministro perante a câmara baixa do Bundestag num debate sobre o Orçamento para 2017. Citado pela Reuters, Schäuble frisou que o investimento na Alemanha cresceu 3,9% entre 2005 e 2015, quando na média da Zona Euro subiu em média 0,7%.

 

A Comissão Europeia lançou na semana passado um apelo à Alemanha para que gaste mais do que está a prever nos Orçamentos dos próximos anos, de modo a ampliar os esforços de recuperação da economia do euro, excessivamente assentes nas políticas de baixos juros e de compra  de dívida do BCE. Esse pedido está implicitamente contido na recomendação para a política orçamental agregada da Zona Euro que foi pela primeira vez emitida por Bruxelas, dando seguimento a uma velha reivindicação do Sul e do FMI que, nos anos mais severos da crise, criticaram a deriva austeritária assumida pela generalidade dos países do euro, incluindo a Alemanha que nunca sentiu dificuldades de financiamento.

A Comissão pede uma orientação "moderadamente expansionista" para o conjunto da Zona Euro, propondo um estímulo orçamental equivalente a 0,5% do PIB, o que é praticamente o avesso do resultado das directrizes definidas em Julho pelo Eurogrupo para os orçamentos nacionais que resultam, em termos agregados, numa orientação orçamental "moderadamente restritiva para o conjunto da área do euro em 2017 e 2018". Na opinião da Comissão Europeia, isso "não parece apropriado", devido à necessidade de apoiar a retoma económica, os esforços do BCE,  mas também de combater "a incerteza crescente que se verifica neste momento" (numa possível alusão à vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas). 


Mudar a orientação da política da Zona Euro como um todo significa que quem tem margem orçamental – como é o caso, desde logo, da Alemanha, que há dois anos apresenta excedentes – deve gastar mais nos próximos anos do que está a prever. Já os países que  ainda estão aquém dos objectivos orçamentais, como é o caso de Portugal, "têm, acima de tudo, de se concentrar" nas suas metas, acrescentou então o comissário dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici.


Em vésperas de ano eleitoral – em Setembro de 2017 os alemães voltam às urnas - Schäuble argumentou que o governo foi capaz de aumentar os gastos graças aos baixos custos dos empréstimos e ao aumento das receitas fiscais. 
Contudo, acrescentou, é provável que as receitas diminuam nos próximos anos (as previsões oficiais apontam para uma desaceleração da actividade económica, de 1,8% para 1,4%) e as taxas de juros, já perto de zero, não ficarão mais baixas, dando à Alemanha menos margem de manobra orçamental, que planeia aumentar os gastos com a defesa e na tentativa de combater as causas da migração em África.

 

Membro veterano do partido conservador (CDU) de Angela Merkel, Schäuble instou todos os partidos políticos a serem "tão honestos e realistas quanto possível" sobre as possibilidades orçamentais da Alemanha na próxima campanha eleitoral. "Quanto melhor o conseguirmos, menos espaço deixaremos para aqueles que querem enfraquecer a democracia com chavões demagógicos e populistas". "A honestidade realista é a melhor pré-condição para proteger a liberdade, o Estado de Direito e a democracia", argumentou.

 

Escreve a Reuters que vários deputados da oposição atacaram a orientação política do governo de manter o orçamento equilibrado, acusando a coligação CDU/SPD de negligenciar os salários baixos e, de nessa medida, contribuir para a ascensão do AfD – partido de extrema-direita que quer retirar a Alemanha do euro e da União Europeia e fazer marcha atrás na política de acolhimento de refugiados, e que pode, pela primeira, conquistar assentos no parlamento alemão.

"O AfD é filho das políticas da grande coligação", disse Gesine Loetzsch, do Die Linke, partido radical de esquerda. "É hora de você perceber que a política de austeridade levou a Europa a uma profunda crise", acrescentou.
 
Sven-Christian Kindler, dos Verdes, considerou, por seu turno, ser errado manter "obstinadamente" uma política de rigor orçamental em tempos de baixas taxas de juros e de alto desemprego juvenil em muitos países da Zona Euro, mas também na Alemanha. "Precisamos de medidas contra a desigualdade social neste país, é disso que precisamos agora", disse.
 
Eckhardt Rehberg, especialista em orçamento da CDU, rejeitou as acusações e defendeu a política de equilíbrio, ou de "défice zero", de Schäuble. "Ter 'défice zero' significa ser justo com as gerações futuras", argumentou, acrescentando que a Alemanha tem aumentado os gastos públicos em infra-estruturas, em segurança e com os imigrantes.




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Anónimo 22.11.2016

Todas as vezes que este Sr. aparece em cena e sempre para dar licoes,e um PRIMOR ouvi-lo.Quer queirarmos quer nao eles sao sem sombra de duvida a Espinha da EU.Sem ela eramos como uma cobra,nao so pelo rastejar,mas tambem pelo veneno que deitamos quando ferramos em nos proprios.CLASSE APARTE,E ISSO.

Anónimo 22.11.2016

Pois sim basta conhecer um pouco a cultura Alemã para perceber q isso nunca irá acontecer. Os governos sao os espelhos do seu povo e a Alemanha n é diferente. Os Alemães n gostam de gastar dinheiro, n vivem pra os telemoveis de topo e carros de topo. Se for preciso produzem-nos para vender a outros

luis 22.11.2016

Não sei nada de economia, pelo que poderei estar a dizer uma enorme estupidez, mas exigir a um país que gaste mais não é como exigir que gaste menos, ou é? Como se obriga a gastar mais? É planos como na ex-URSS, para 5 anos? Os Estados deviam ser mais independentes da banca e deveriam cunhar moeda.

Desanimado 22.11.2016

É isto que irrita solenemente na EU. À Alemanha fazem-se recomendações aos outros fazem-se imposições. A comissão não tem de fazer recomendações nenhumas tem pura e simplesmente de aplicar as regras europeias que sancionam os países como a Alemanha, que há dois anos apresenta excedentes orçamentais. Estão à espera de quê??

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