Europa Acções do Monte dei Paschi disparam com notícia de intervenção pública

Acções do Monte dei Paschi disparam com notícia de intervenção pública

O ministério das Finanças italiano e o Mecanismo Europeu de Estabilidade negaram resgate avançado pelo La Stampa. Reuters garante intervenção de outra natureza, que coloca o Estado com 40% do capital, potencialmente limitando perdas de credores e accionistas.
Acções do Monte dei Paschi disparam com notícia de intervenção pública
Bloomberg
Rui Peres Jorge 07 de dezembro de 2016 às 10:03
As acções do Monte dei Paschi, o banco italiano que esta semana tem estado no centro das atenções por arriscar uma intervenção pública de recapitalização, dispararam 10% na manhã de quarta-feira na sequência de notícias que dão como certa uma intervenção pública que, segundo a Reuters, poderá exigir dois mil milhões de euros aos contribuintes, ficando com o controlo de 40% do banco.

O jornal italiano La Stampa deu como certo que o Governo italiano iria pedir um resgate tipo espanhol para o seu sistema financeiro, com um empréstimo de 15 mil milhões de euros do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). A notícia foi negada tanto pelo Governo, como pelo ESM, mas uma intervenção pública, ainda que noutros moldes, poderá estar a caminho. Isso é, pelo menos, o que garante a Reuters.

A agência noticiosa avança que o plano do governo passa por comprar dois mil milhões de euros dívida subordinada do Monte dei Paschi vendida no retalho, transformando depois essas obrigações em acções, o que elevaria a participação do Estado na estrutura accionista do terceiro maior banco italiano de 4% para perto de 40%, explica a Reuters.

Com a injecção de dois mil milhões de euros de capitais públicos por esta via, as autoridades esperam convencer investidores privados a entrarem com mais dois mil milhões de euros na recapitalização da instituição. Os restantes mil milhões de euros necessários para satisfazer as necessidades de capital serão garantidos por uma troca de obrigações subordinadas por acções negociada com investidores institucionais.

Uma solução deste tipo poderia implicar perdas tanto para os detentores de dívida subordinada comprada no retalho (que provavelmente as venderiam a desconto) como para os actuais accionistas (que veriam a sua participação no banco diluída), mas ainda assim seriam provavelmente menores do que as implícitas num resgate tradicional, como o noticiado pelo La Stampa.

No plano noticiado pelo jornal italiano, que incluiria um empréstimo de 15 mil milhões de euros do MEE para vários bancos, a natureza sistémica da intervenção poderia reduzir os riscos da Direcção-geral da Concorrência da Comissão Europeia considerar como ajuda de Estado a intervenção pública no Monte dei Paschi.

As acções do Monte dei Paschi que chegaram a valorizar 10%, estavam a ganhar 7% a meio da manhã. Os juros da dívida pública italiana a dez anos cairam ligeiramente (0.045 pontos) para 1.891%.

O banco está no centro do turbilhão político e financeiro gerado no rescaldo do referendo italiano por várias razões. Por um lado, necessita do encaixe de capital até ao final do ano para cumprir as regras do BCE; por outro, foi a instituição pior classificada entre 51 bancos europeus testados no Verão pela Autoridade Bancária Europeia, com o crédito de má qualidade a ascender 35% da carteira, o que explica a desvalorização em bolsa de 81% no último ano. Finalmente, a estrutura do passivo do banco é uma dor de cabeça adicional pelas potenciais consequências negativas no tabuleiro político transalpino: é que dos cerca de cinco mil milhões de euros de dívida subordinada que pode ser afectada em caso de resgate público, mais de metade estará colocada junto de clientes de retalho que poderiam perder as suas poupanças. É sobre estes investidores que a operação de compra avança pela Reuters se deverá concentrar.

Os problemas no sistema financeiro italiano de quatro biliões de euros (cerca de 11 vezes o PIB português) não se esgotam no Monte dei Paschi (cujo balanço ascende a quase 170 mil milhões de euros, um pouco menos que o PIB português) e na sua necessidade de encontrar cinco mil milhões de euros em capital. O Unicredit, com balanço de 900 mil milhões de euros, está a tentar recapitalizar-se em 13 mil milhões de euros.

As dificuldades para Itália são adensadas pelos problemas de muitos pequenos bancos do país – alguns dos quais já foram intervencionados este ano pelo Atlante, um fundo de resgate privado apoiado pelo Estado, limitando a capacidade de intervenção deste instrumento criado este ano para contornar as regras europeias de "bail-in" que forçam perdas a accionistas e detentores de dívida antes a entrada de capitais públicos.

Além disso, também a eficácia do "banco mau" suportado pelo conjunto dos bancos italianos para absorver o crédito malparado continua a suscitar reservas, em parte pela dimensão do problema a resolver: Itália tem 360 mil milhões de euros de crédito em risco, ou seja, duas vezes o PIB português, ou 4,6 vezes o empréstimo da troika a Portugal.

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comentários mais recentes
NaoSei 07.12.2016

o problema não é dos bancos, mas sim das empresas que pedem empréstimos e não pagam e quem leva com as insolvências são os bancos com os créditos não pagos que nada tem a ver com elas.....

Gustavo Amaral 07.12.2016

E continua-se a salvar bancos. Que maravilhoso negocio.

Jose 07.12.2016

Ou os bancos são tratados como pastelarias ou talhos, e se não são viáveis, fecham. Ou se não é possível, deve-se nacionalizar o sector de vez.

tobias 07.12.2016

Portugal foi o unico a resgatar um grande banco do sistema. Todos os bancos resgatados em outros países eram marginais... só em Portugal se avançou com esse processo. Parece-me que o modelo de resgate de bancos europeus está morto... na pratica só deve ser aplicado a bancos pequenos.....

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