Angola Angolanos em Portugal entre a expectativa de mudança e a apreensão

Angolanos em Portugal entre a expectativa de mudança e a apreensão

Apoiantes ou críticos do actual poder em Angola, todos reconhecem a importância da paz alcançada depois de um quarto de século de uma guerra civil devastadora, que deixou marcas profundas no país.
Angolanos em Portugal entre a expectativa de mudança e a apreensão
Reuters
Lusa 20 de agosto de 2017 às 09:23
As eleições em Angola estão aí e os angolanos em Portugal dividem-se entre a expectativa de mudança e a apreensão quanto à capacidade da futura liderança manter o rumo de crescimento do país e concluir a reconciliação nacional.

"As transições de qualquer liderança muito forte, como foi a do Presidente José Eduardo dos Santos, são sempre muito difíceis para os sucessores", diz Zeferino Boal, 54 anos, presidente da Casa de Angola em Lisboa.

"Acho que o presente de Angola está um bocado parado em várias áreas. A minha perspectiva é que, nesse sentido, que as coisas melhorem em todos os sentidos", diz pelo seu lado, Márcia Dias, 46 anos, artista plástica a residir em Portugal há cerca de 20 anos.

Márcia e Zeferino partilham o mesmo escritório no terceiro andar do edifício em que está instalada a Casa de Angola, junto ao Jardim das Amoreiras. Partilham também a esperança de que o próximo chefe de Estado angolano que resultar das eleições de 23 de agosto mantenha o país num rumo de paz e prosperidade.

Diz Zeferino que, nas instituições como nos países, "é muito difícil, a seguir a um grande líder, vir um outro grande líder. Mas os angolanos têm que acreditar que na eleição que vem a seguir seja possível essa exceção", e que o sucessor de José Eduardo dos Santos seja "um grande presidente, um grande líder".

"Porque, se assim não acontecer, é o povo que paga", conclui Zeferino.

"A perspectiva que tenho é de um futuro melhor e tudo está a caminhar para um futuro melhor, porque esta [futura] nova presidência tem tudo para que isso aconteça", diz mais confiante Márcia Dias.

Vitorino Leonardo, 46 anos, secretário-geral da Comissão de Apoio aos Doentes Angolanos em Portugal, quer uma "mudança radical" em Angola. Se as eleições resultarem na "continuidade" – o que, para este funcionário da Câmara de Cascais, decorrerá da vitória do partido no poder, MPLA, e da eleição de João Lourenço como Presidente de Angola - a mudança será "muito pequena, insignificante".

"Há 42 anos da mesma governação, não acredito que em pouco tempo as coisas mudem, porque a gente sabe o que se passa em Angola e não vai ser fácil mudar com a continuidade", diz Leonardo, que reside há 24 anos em Lisboa, interrompidos por quatro anos em Luanda numa experiência profissional que não vingou.

Vitorino Leonardo reconhece que José Eduardo dos Santos fez "coisas boas", mas "as partes negativas" de 38 anos de poder, sobretudo "a incidência da corrupção", justificam uma liderança proveniente de um quadrante diferente da atual.

"Infelizmente, não se pode fugir desse tema. A corrupção é um grande cancro no nosso país. E não acho que, com a continuidade, essa corrupção se estanque com facilidade, porque aquilo é um núcleo, estão entre eles", afirma.

Leonardo diz que o "novo presidente vai encontrar a casa muito desorganizada", que "aquilo é uma teia de compromissos, e dentro desses compromissos eles estão presos. Para desmanchar essa teia, vai ser muito complicado", mas, se o futuro Presidente "for uma novidade, é mais fácil".

"Porque ele não tem compromissos com as outras pessoas, com as outras entidades e também compromissos no exterior, como a dívida externa. Por exemplo, o caso da China. Até agora não se sabe quanto é que entrou, quanto saiu, como se paga, quem está a pagar, ninguém diz nada de concreto", acusa Vitorino Leonardo.

Logo a seguir, Vitorino Leonardo lembra-se do "caso do Fundo Monetário Internacional": O "FMI saiu de Angola e não fez um relatório conclusivo. A gente não percebe bem como ficou o caso do FMI. As televisões em Angola não são muito esclarecedoras e fica um bocadinho um vazio".

Paulo Soares gere o restaurante instalado no rés-do-chão da Casa de Angola e está em Portugal há 34 anos, mas vai com frequência a Luanda em férias. Espera que "as coisas mudem para melhor" e diz que "tem todos os motivos" para pensar assim porque, com a crise, os angolanos ficaram "com os pés mais assentes no chão".

"As pessoas estão a ter uma realidade diferente. [Uma consciência] de que nada dura para sempre. Acho que a crise foi uma coisa má para Angola, mas também trouxe uma coisa positiva: Fez com que as pessoas sentissem uma realidade diferente, tivessem os pés assentes no chão para tomar medidas para que o futuro seja melhor", afirma.

Apoiantes ou críticos do actual poder em Angola, todos reconhecem a importância da paz alcançada depois de um quarto de século de uma guerra civil devastadora, que deixou marcas profundas no país. Todos os reconhecem também o caminho ainda por percorrer no processo de reconciliação nacional.

Essa devia ser a principal marca do futuro presidente, seja ele quem for, sublinham, até porque, se Angola vive em paz há relativamente pouco tempo, beneficia de "um sentido de unidade que sempre houve", como aponta Zeferino Boal.

"Independentemente da guerra civil, houve sempre um sentido de pátria de todos os movimentos, de todas as sensibilidades. Muitos países no mundo que entraram em guerra civil dividiram-se. Angola sobreviveu", sublinha Boal.

"A reconciliação primeiro. Depois partiremos para outras situações", diz Vitorino Leonardo. "Diz-se que há reconciliação, mas quem vive em Angola, nós que somos de Angola, vamos e vimos, vemos que não existe. Se as pessoas aceitarem bem o que aconteceu em Angola e cada um respeitar o seu espaço e houver imparcialidade para com todos, isso seria um grande fenómeno", acrescenta.

Paulo Soares também reconhece que resta ainda muito "caminho" por percorrer no processo de reconciliação. "Tem que ser [feito] um trabalho muito intenso", que "passa pela partilha", diz.

"Acho que passa pela partilha. Acho que num país como Angola devíamos dividir mais entre nós os nossos problemas, as nossas vitórias, a nossa riqueza e a nossa pobreza. Acho que devíamos partilhar mais", acrescenta.



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