Fundos comunitários Augusto Mateus: "Temos dinheiro a mais nos fundos estruturais"

Augusto Mateus: "Temos dinheiro a mais nos fundos estruturais"

O ex-ministro da Economia contesta a falta de capacidade para gastar bem as verbas disponíveis para investimento, elogiando a "massa crítica correcta" quando se juntam autarcas de diferentes cores partidárias.
Augusto Mateus: "Temos dinheiro a mais nos fundos estruturais"
Miguel Baltazar/Negócios
António Larguesa 16 de Novembro de 2016 às 13:46

Augusto Mateus considerou que Portugal tem "dinheiro a mais nos fundos estruturais para a capacidade que [tem] para os usar bem", frisando que "gasta-se muito dinheiro mal gasto" e que, apesar de se falar muito das dificuldades financeiras, o país tem "alguma dificuldade" em fazer "projectos bem elaborados e com a massa crítica correcta" com todos os recursos que tem à sua disposição.

 

Dando o exemplo dos "desafios importantes" que se colocam ao Estado na área da regeneração urbana, sustentou que os programas de financiamento têm "regras que são muitas vezes boas para o conjunto da Europa, mas que apresentam dificuldades para certos territórios", nomeadamente "na alavanca dos fundos estruturais".

 

"Por vezes passa-nos pela cabeça alguma criatividade, envolvendo por exemplo a conjugação com a área energética. (...) Mas as coisas têm de ser feitas para serem sustentáveis. Os autarcas apaixonam-se pelos investimentos, mas esquecem-se das despesas de manutenção. Se investir um milhão de euros vai precisar de cem mil euros para manter aquilo em que investiu", disse o economista.

 

Durante um seminário organizado pela EDP e pelo Negócios sobre a gestão eficiente de energia no sector público, em Aveiro, Augusto Mateus defendeu que "há uma opinião profundamente errada sobre o que é o poder local e os autarcas" e apontou que "muitos dos factores de segurança e tranquilidade que conseguimos ter [no país] foram através da sua actividade no exercício do poder público".

 

E se Portugal tem "dificuldades grandes no modelo de divisão administrativa e em governar de forma diferente o que é diferente" - com o mesmo modelo para um pequeno concelho de base rural e para uma grande cidade, como Lisboa ou Porto -, o ex-ministro da Economia fez o elogio das comunidades intermunicipais como uma "alavanca poderosa", ainda que algumas tenham sido construídas por razões conjunturais.

 

"O que aconteceu, e bem, é que ganhamos escala. Só tinha o [nível] muito grande (o país) ou o muito pequeno (o concelho). Agora há uma escala de colaboração entre os municípios que se revela mais fácil do que parece. Quando a comunidade intermunicipal está focada é muito fácil colaborarem municípios que são dominados por cores partidárias diferentes", resumiu. E acredita que esta experiência vai progredir em eficiência, alegando que se existissem há 20 anos não teria havido, por exemplo, uma lógica duplicativa nos equipamentos e excessivamente descentralizada até ao nível local.

 

Falando para uma plateia composta também por autarcas e gestores públicos, Augusto Mateus assinalou o muito que há a fazer ao nível das cidades mas também dos territórios inteligentes, acrescentando que "não há razão para serem só Lisboa e Porto os principais protagonistas", pois "há territórios espalhados pelo país onde se conseguiram criar soluções de qualidade de vida que não são imitativas".

 

"Quando o que tínhamos de fazer era desenvolver o que não tínhamos, era fácil. Agora temos de ter o protagonismo de decidir o que se faz e escolher modelos diferenciados e sustentáveis. Não temos nada a ganhar com imitações. O mundo tornou-se tão heterogéneo e diversificado que temos de ser identitários e ter formas próprias de resolver os problemas", reclamou o economista.

 

E ilustrou com o caso concreto da localização de empresas de base tecnológicas, que algumas autarquias continuam a instalar nos centros das cidades ou em edifício periféricos. "Haverá algum sítio melhor para fazer a criação destas empresas do que um campus universitário? É lá que as pessoas se encontraram para fazer e pensar a ciência para melhorar a vida das pessoas", concluiu.




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comentários mais recentes
Ciifrão Há 2 semanas

Óbvio que os fundos estruturais servem para nos endividarmos mais, se considerar-mos que muitas das obras são só para aproveitar o dinheiro que vem da Europa, sem o devido critério na utilidade do investimento, então temos uma perversão muito grande. Uma praga que tem varrido o país.

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