Economia Bernanke avisa para riscos de reformas estruturais na Europa

Bernanke avisa para riscos de reformas estruturais na Europa

Num discurso que avisou ser “muito marcado” pelos desenvolvimentos políticos nos EUA, o ex-presidente da Fed disse que o crescimento pode não evitar o populismo e avisa a Europa para ter cuidado com reformas estruturais que prejudiquem partes da população.
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Rui Peres Jorge 26 de junho de 2017 às 21:30
O crescimento económico em termos agregados não evita o populismo e é por isso essencial pensar nas várias dimensões desse crescimento, nomeadamente nos que ficam para trás no contexto de uma economia em forte transformação.

O aviso é de Ben Bernanke, ex-presidente da Reserva Federal norte-americana, que falou em Sintra na abertura do 4.º Fórum do BCE, num discurso que avisou ser muito marcado pela eleição de Donald Trump, um homem com uma "visão distópica" da economia, e no qual deixou avisos à Europa: a recuperação é ainda demasiado frágil, pelo que é preciso ter cuidado com efeitos negativos de curto prazo de reformas estruturais.

"A recuperação cíclica dos EUA está suficientemente avançada  pelo que assuntos de crescimento de longo prazo e reforma podem ser debatidos independentemente de considerações de curto prazo. Na Europa, o mercado de trabalho ainda está frágil, as taxas de juro estão em zero, e o ajustamento macroeconómico está incompleto, o que significa que as reformas não podem ignorar as condições macroeconómicas", afirmou, lembrando que por vezes os efeitos de curto prazo de reformas podem ser negativos, mesmo que positivos no longo prazo.

O aviso surge no contexto de uma intervenção que explorou os riscos do populismo, mesmo com crescimento económico o que, para Bernanke, pode resultar de deixar para trás parte da população menos qualificada por exemplo.

"Não sou o primeiro a observar que a eleição de Trump envia uma mensagem importante, que sumarizei esta noite: por vezes, o crescimento não é suficiente. Por vezes, os números agregados disfarçam tendências subjacentes pouco saudáveis", afirmou.

Um especialista em situações de crise

Ben Bernanke liderou a Reserva Federal norte-americana entre 2006 a 2014. Já antes da grande recessão do século XXI, Bernanke era considerado um dos maiores especialistas mundiais em situações de crise, em particular no estudo da Grande Depressão dos anos 1930 e na crise financeira japonesa do final do século passado.

O economista, que agora trabalha no "think tank" Brookings em Washington, fez o discurso inaugural do 4.º Fórum do BCE em Sintra, sob o título "E quando o crescimento não é suficiente", dando o mote para a reunião de banqueiros centrais e académicos que, nos próximos dois dias, debatem em Sintra os desafios de crescimento que se colocam às economias avançadas no pós-crise.
Na Europa, […] as reformas não podem ignorar as condições macroeconómicas.  Ben Bernanke
Ex-presidente da FED
À medida que o crescimento e o emprego regressam lentamente, e a inflação se aproxima do objectivo de 2% aceite pela maioria dos bancos centrais, as autoridades monetárias estão a tentar reposicionar-se: a Reserva Federal subiu juros no final de 2016, o Banco de Inglaterra poderá fazê-lo este ano, e provavelmente já o teria feito não fosse o Brexit, e o BCE prepara-se para esclarecer a sua estratégia de normalização da política monetária depois do Verão. Apenas o Japão, ainda a lutar com inflação próxima de zero, prevê manter o seu programa de compra de activos a todo gás.

É neste contexto que o BCE lança em Sintra a discussão sobre como crescer no pós-crise, num contexto de tendência internacional de abrandamento do crescimento e da produtividade nas economias avançadas que sente no século XXI, e que pode ter sido agravado pela crise dos últimos anos.

Hoje, os trabalhos têm início com um discurso de Mario Draghi, seguindo-se uma manhã de trabalho em torno dos temas inovação, investimento e produtividade. Primeiro, David Autor, professor no MIT, apresenta o seu artigo "O crescimento da produtividade ameaça o desemprego"; segue-se o debate em torno do artigo "Há um gap de investimento nas economias avançadas? E se sim, porquê?", assinado, entre outros, por Thomas Phillipon, da Universidade de Nova Iorque.

Os trabalhos chegam ao fim pela hora de almoço com painel de debate que conta com vários especialistas em inovação: Mariana Mazzucato (University College London), Joel Mokyr (Northwestern University) Hal Varian (Economista-chefe da Google) e Reinhilde Veugelers (KU Leuven), moderados por Peter Praet, economista-chefe do BCE. 
  
Na quarta-feira, último dia, os participantes debatem os ciclos económicos e a importância da política macroeconómica e, como já é habitual, os trabalhos terminam com um painel de banqueiros centrais: Mark Carney (Inglaterra), Mario Draghi (BCE), Haruhiko Kuroda (Japão) e Stephen Poloz (Canadá) serão moderados por Karnit Flug, a governadora do Banco de Israel.

Por vezes, os números agregados disfarçam tendências subjacentes pouco saudáveis. Ben Bernanke
Ex-presidente da FED



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mais votado Anónimo 26.06.2017

A inércia ou inactividade em relação a muito urgentes e aguardadas reformas estruturais na óptica de partes da população, prejudica a sustentabilidade do Estado, a competitividade da economia e o grau de equidade da sociedade.

comentários mais recentes
Anónimo 27.06.2017

Ninguém está à espera que os excedentários se demitam. Terá sempre que ser alguém a activar esse processo. Portugal precisa desse alguém. As economias e sociedades mais avançadas já o têm há muito.

Anónimo 27.06.2017

O problema subjacente à crise de equidade e sustentabilidade é o facto de se andar a dar dinheiro a mais a muita gente que não só não cria valor algum, como por acréscimo não fazem diligentemente outra coisa para além de extrair valor do Estado, da economia e da sociedade. Podem mudar as regras e conceder as ajudas todas que quiserem junto à banca de retalho e ao sector público, mas enquanto não entenderem isto a crise persistirá e terá sempre tendência a se agravar.

Anónimo 26.06.2017

A inércia ou inactividade em relação a muito urgentes e aguardadas reformas estruturais na óptica de partes da população, prejudica a sustentabilidade do Estado, a competitividade da economia e o grau de equidade da sociedade.

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