Ambiente Bióloga Helena Freitas considera que combate a fogos "bateu no fundo"

Bióloga Helena Freitas considera que combate a fogos "bateu no fundo"

"O problema só se pode resolver com uma alteração profunda da floresta", que inverta o "quadro de abandono e desordenamento grave e profundo" do interior, afirmou a especialista, que espera que surja "um compromisso político sério" para essa mudança.
Bióloga Helena Freitas considera que combate a fogos "bateu no fundo"
Cofina Media
Lusa 30 de julho de 2017 às 11:03
A académica Helena Freitas considera que Portugal "bateu no fundo" ao falhar no combate aos grandes incêndios deste verão, apontando o "descrédito, desencanto e insegurança" dos cidadãos em relação ao território, que só se inverterá com "uma alteração profunda da floresta".

Mais de um mês após o incêndio de Pedrógão Grande, que fez 64 mortos e "marcará para sempre o país", a bióloga regista que o fogo continua "avassalador" em casos como o incêndio que na semana passada começou na Sertã e se alastrou a Proença-a-Nova e Mação, "onde havia uma situação exemplar de prevenção".

"O problema só se pode resolver com uma alteração profunda da floresta", que inverta o "quadro de abandono e desordenamento grave e profundo" do interior, afirmou a especialista, que espera que surja "um compromisso político sério" para essa mudança.

Helena Freitas indicou que sinais como o diploma do cadastro florestal, integrado no pacote da reforma das florestas, "vêm ajudar", mas o reforço do combate e prevenção anunciado desde Pedrógão Grande "não foi eficaz".

"É dramático, não há dia em que não se veja nas notícias um incêndio de grandes dimensões", lamentou, afirmando que há "uma sensação de total descrédito, desencanto e insegurança dos portugueses em relação ao seu território".

Circunstâncias como a situação de seca e o clima são determinantes, mas o abandono que marca o interior do país, a "incapacidade de resolver o desordenamento do território" e a insistência em contar só com o combate aos fogos são sinais de que em Portugal se têm feito "as piores escolhas", considerou.

O preço dessas decisões é haver fogos de grandes dimensões como os que têm assolado o centro do país, indicou, acrescentando que é ao Estado que se devem exigir medidas para solucionar essa "situação insuportável".

"Continuamos a ver pessoas obrigadas a fugir de suas casas, casas queimadas", disse, argumentando que não é a populações cada vez mais reduzidas e envelhecidas que se pode pedir a vigilância e a manutenção das florestas.

Helena Freitas defende que é preciso regressar "às pessoas que façam a vigilância na floresta", os guardas e sapadores florestais.

"Outros países com clima mediterrânico", como França, Itália e Espanha, conseguiram ser mais eficazes no combate aos incêndios e reordenar o seu território.

Reportando-se aos anos de 2003 e 2005, em que "ardeu 10% da floresta" em Portugal, a docente da Universidade de Coimbra considerou que "este ano ainda pode ser pior".

Para alterar a composição da floresta, é preciso deixar de "dizer que a única fonte de rendimento para a pequena propriedade é o eucaliptal", defende.

"Eu não acredito nisso", declarou, sugerindo que é a indústria da madeira e do papel que tem que fazer render o eucalipto e que há espaço para investir em espécies de árvores autóctones.



A sua opinião3
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Anónimo 30.07.2017

Parece que o Costa e o Capoulas querem roubar terras ao povo para formarem montes(coutadas de caça) e entregarem aos amigos como fizeram no Alentejo.

Anónimo 30.07.2017

Portugal e incapaz de fazer reformas profundas e essenciais.... Assim como no combate às chamas e planeamento do território está uma amálgama também está a defesa nacional e o exército...só não vê quem não quer ver....

Anónimo 30.07.2017

Temos muito que aprender com as práticas actualizadas dos velhos cantoneiros e guarda florestais. E como há muita gente possuída pela atracção do fogo, metam-na num acampamento lúdico na altura da maior crise e verão como é fácil, mais barato e poupam-se tragédias como as que temos vivido, etc...