Conjuntura Blanchard sobre a Uber: "Se fosse taxista, lutaria até à morte"

Blanchard sobre a Uber: "Se fosse taxista, lutaria até à morte"

Dez anos após o marcante estudo sobre a economia portuguesa, Olivier Blanchard regressou e tirou o pulso ao país. Entre as ideias mais citadas da sua conferência está a de que Portugal não deve acelerar a consolidação orçamental e deve compensar perdedores das mudanças estruturais, como os taxistas.
Blanchard sobre a Uber: "Se fosse taxista, lutaria até à morte"
Bloomberg
Nuno Aguiar 19 de maio de 2017 às 18:26

"Do ponto de vista económico, é estúpido não o fazer." O antigo economista-chefe do FMI defende que o Estado português devia utilizar os seus recursos para limpar o balanço dos bancos, financiar investimento público produtivo e pagar algumas reformas estruturais, nomeadamente aquelas que compensem os perdedores da evolução tecnológica. Na sua opinião, é precisamente esse o caso dos táxis vs. Uber. À margem da conferência que deu esta manhã, 19 de Maio, o Negócios falou alguns minutos com Blanchard sobre os obstáculos a uma política orçamental menos restritiva e as diferenças entre Portugal de 2007 e de 2017.

Para conseguir concretizar algumas das suas propostas, seria necessário ultrapassar constrangimentos e regras europeias. Não foi claro, mas parece-me que a sua posição não seria de desafio a Bruxelas.

É sempre melhor tentar jogar dentro das regras, mas esquecendo os constrangimentos institucionais, o mais importante é garantir que a dívida está controlada. Estabilizá-la deve ser o objectivo. Já a diminuíram ligeiramente. Mas depois é preciso decidir se lutam contra a Comissão ou não. Eu estava a dar o meu aconselhamento macroeconómico. Se vão diminuir a dívida, vão fazê-lo tão lentamente que…

… Não vai fazer diferença?

Provavelmente não. Se a próxima crise chegar dentro de dez anos, terão 110% em vez de 130% do PIB de dívida pública. Será muito elevada na mesma. O importante neste momento é sustentar o crescimento. As pessoas estão mais optimistas, isso é fácil de ver. Há um ano seria totalmente diferente. Acho que deve deixar que isso continue, não fazer nada de louco na frente orçamental. Mas, novamente, a ideia de que podem recuperar o espaço orçamental dentro de pouco tempo… Isso não vai acontecer.

No seu paper menciona até possibilidades de expansão orçamental em algumas áreas, como…

… Há muitas coisas que têm impacto no crescimento e que, nesta altura, não são permitidas pelas regras. É um desperdício. É preciso gastar dinheiro para ganhar dinheiro. Alguns projectos implicam subir a dívida no curto prazo, mas claramente aumentariam o crescimento. Do ponto de vista económico, é estúpido não o fazer. Novamente, como é que o Governo o faz, é outro debate. É para os políticos. Mas a nível europeu, era bom admitir que alguns projectos fazem sentido.

É preciso gastar dinheiro para ganhar dinheiro. Alguns projectos implicam subir a dívida no curto prazo, mas claramente aumentariam o crescimento. Do ponto de vista económico, é estúpido não o fazer. Olivier Blanchard


Numa eventual expansão, a prioridade deveria ser resolver o problema do malparado ou financiar outras reformas estruturais?

 

Uma coisa não impede a outra. Para as reformas estruturais, eu dou sempre um exemplo: a Uber é melhor do que os táxis, mas os taxistas em França compraram licenças por centenas de milhares de euros. Se permitir a existência da Uber, eles irão para as ruas, trata-se da riqueza deles. Qual é o problema de lhes passar um cheque pelo preço que pagaram pela licença ou por dois terços disso? É um cheque que é preciso passar. Quando o fizer, já tem a Uber [a trabalhar] e os taxistas não estão nas ruas. É um exemplo simples de querer avançar para algo melhor, mas em que algumas pessoas perdem. Pode querer protegê-las ou comprá-las. Sinceramente, se fosse taxista e se tivesse usado toda a minha riqueza para comprar uma licença, eu lutaria até à morte.

A Uber é melhor do que os táxis, mas os taxistas em França compraram licenças por centenas de milhares de euros [...] Sinceramente, se fosse taxista e se tivesse usado toda a minha riqueza para comprar uma licença, eu lutaria até à morte. Olivier Blanchard


Mas essa é uma perspectiva sobre a actuação do Estado e a gestão das contas públicas que não é muito partilhada na União Europeia.

 

O nosso trabalho como economistas e desenhadores de políticas é pressionar. Se eu não o disser, se o Governo não pressionar, nada acontece. Acho que levei Bruxelas a mudar de opinião na questão dos efeitos da consolidação orçamental - os multiplicadores eram muito mais elevados. Acho que isso os levou a mudar. Não aceito o mundo como ele é. Se achar que algo é o mais correcto do ponto de vista económico, vou argumentar, argumentar, argumentar e esperar que mudem de opinião.

Passaram dez anos desde o seu paper sobre as fragilidades da economia portuguesa. Portugal mudou muito entre 2007 e 2017 ou continuamos a ter os mesmos problemas estruturais?

Nenhum país é perfeito. Há sempre algo que poderia melhorar. Eu podia perder dois quilos. Você está bem. Mas podia fazer a barba. Há sempre uma lista. Mas existe uma mudança de percepção. Talvez as pessoas que falam de crescimento das exportações estejam demasiado optimistas, mas houve algo que aconteceu aí. Tenho a sensação que houve o reconhecimento de que algumas reformas são necessárias, houve uma melhoria nas universidades. Acho que o país mudou. Vejo um país que sabe que tem problemas e que tem de lidar com eles. Tem um Governo de coligação que faz o melhor que pode. Pode sempre sonhar com mais. Mas não é mau. E não é mau comparado com a Venezuela. Ou o Brasil.

Pode sempre sonhar com mais. Mas não é mau. E não é mau comparado com a Venezuela. Ou o Brasil. Olivier Blanchard

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mais votado Anónimo Há 1 semana

Quem investiu muito dinheiro em empresas de mineração de carvão, ou de fotografia analógica, ou de outro sector qualquer que deixou abruptamente de ter procura de mercado, foi ou será ressarcido individualmente pelas perdas que tecnologia disruptiva e inovação fulgurante com enorme tracção no mercado lhe causaram? O Blanchard é daquelas pessoas que chegou a um ponto de reputação intelectual tal, a que os media, a boa imprensa, não são alheios, que acha que lhe basta abrir a boca e dizer umas baboseiras com a palavra estúpido lá pelo meio para fazer toda a gente passar por estúpida. Julgava que Portugal era top nessa mentalidade mas afinal enganei-me, o francês está muito à frente.

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Anónimo Há 5 dias

O PS arranjará seguramente uma ou duas formas de ir escondendo o lixo acumulado para debaixo do tapete dos outros e de ir chutando a bola de neve dos problemas lá mais para a frente. O que é preciso é que uma pequena maioria do povo ande embebecida e vá a votos. O resto não interessa e siga a festa. Saiam uma rodadas de meretrizes e vinho verde para conta do Orçamento do Estado. Os multiplicadores keynesianos até se inebriam todos.

Este não conhece o "Táxismo" português... Há 5 dias

Os taxistas (alguns, muitos, é verdade...mas não todos) já nos roubaram e prestaram serviço miserável durante muitos anos...e como em tudo na vida, quando a qualidade não é boa, aparece sempre concorrência disposta a comatar essa lacuna...agora lutem de igual para igual, mostrem o que (não) valem...

Anónimo Há 1 semana

Mas ó amigo, quando o trabalhador nem pode ser despedido por o posto de trabalho já não se justificar nem substituído por uma máquina, nem ver o seu salário, já inflacionado ao longo de toda uma carreira de progressões automáticas constantes, reduzido para valor mais próximo do preço de mercado uma vez que há uma fila de candidatos àquele emprego, mais dinâmicos, motivados e preparados, que trabalhariam de bom grado por metade da remuneração, a população que investiu na organização ou tem trabalho para oferecer perde rendimentos. A população que consome produtos da organização perde rendimentos. A população que paga impostos para a organização, no caso daquela ser do sector público, fornecedora do sector público ou subsidiada pelo Estado, perde rendimentos. A população que inventou e desenvolveu a máquina perde rendimentos. A população que poderia inovar, investir e lançar no mercado máquinas ainda melhores, perde rendimentos.

Anónimo Há 1 semana

Quem investiu muito dinheiro em empresas de mineração de carvão, ou de fotografia analógica, ou de outro sector qualquer que deixou abruptamente de ter procura de mercado, foi ou será ressarcido individualmente pelas perdas que tecnologia disruptiva e inovação fulgurante com enorme tracção no mercado lhe causaram? O Blanchard é daquelas pessoas que chegou a um ponto de reputação intelectual tal, a que os media, a boa imprensa, não são alheios, que acha que lhe basta abrir a boca e dizer umas baboseiras com a palavra estúpido lá pelo meio para fazer toda a gente passar por estúpida. Julgava que Portugal era top nessa mentalidade mas afinal enganei-me, o francês está muito à frente.

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