Política Brexit: Falta de acordo poderá forçar britânicos a pedir Visto Gold para viver em Portugal

Brexit: Falta de acordo poderá forçar britânicos a pedir Visto Gold para viver em Portugal

Um quinto dos beneficiários do regime de residentes fiscais não-habituais em Portugal são britânicos, mas um Brexit sem acordo poderá tornar o Visto Gold a opção mais adequada, afirmou esta quinta-feira um advogado português.
Lusa 01 de fevereiro de 2018 às 23:33

Afonso Barroso, sócio da sociedade de advogados Abreu & Marques, lembrou, num evento em Londres, que, no caso as negociações com Bruxelas não garantirem os direitos dos cidadãos britânicos, o Visto Gold pode ser uma solução para garantir residência em Portugal. 

 

Actualmente, cerca de 19% dos beneficiários do regime fiscal de Residente Não-Habitual (RNH) em Portugal são britânicos, sobretudo aposentados, mas também alguns profissionais liberais, como arquitectos.

 

Este programa, destinado a aposentados ou pessoas qualificadas em actividades de elevado valor acrescentado, atribui vantagens ou isenções fiscais durante 10 anos a quem se mude de outro país e se instale em Portugal.

 

Actualmente é sobretudo usufruído por europeus, nomeadamente franceses, suecos e dinamarqueses, além dos britânicos, cujo número de residentes em Portugal se estima que ronde os 40 mil.

 

Já o sistema o Visto Gold depende da aquisição de uma propriedade imobiliária avaliada entre 350 mil a 500 mil euros, um depósito de um milhão de euros numa instituição bancária nacional, a criação de mais de 10 empregos ou o investimento de 250 mil euros numa produção artística ou património histórico.

 

Esta opção permite a entrada em Portugal sem visto de residência e a livre circulação na zona Schengen, bem como o direito à reunião de família e o acesso a cidadania após cinco anos e tem sido aproveitado sobretudo por nacionais extra-europeus, como chineses e brasileiros.

 

Perante os diferentes modelos para a saída britânica da UE, "estes programas poderão servir para navegar os desafios da mudança", sugeriu Afonso Barroso no seminário "Brexit e a aliança anglo-portuguesa".

 

Organizado esta noite pela Câmara de Comércio Portuguesa no Reino Unido, o evento quis projectar Portugal como plataforma de acesso à União Europeia após a saída do Reino Unido.

 

Além dos diferentes regimes de residência fiscal para pessoas, Portugal dispõe também opções para o estabelecimento de empresas britânicas no espaço europeu.

 

Michael Gates, representante Empresa de Desenvolvimento da Madeira (SDM), defendeu que a Zona Franca da Madeira (ZFM) "pode oferecer uma plataforma para empresas britânicas que procurem um caminho diferente para empresas que procurem um ambiente amigável e favorável para trabalhar com a União Europeia".

 

Sendo improvável que o Reino Unido continue no sistema de IVA ou sujeito às directivas fiscais europeias, pode também agir como uma base de acesso a outros países com quem Portugal tem acordos bilaterais e de dupla tributação. 

 

A ZFM permite o licenciamento e instalação de empresas com a condição que criem empregos ou façam um investimento mínimo, oferecendo uma taxa reduzida de IRC de 5% e isenção de retenção na fonte no pagamento de dividendos, entre outros benefícios fiscais, ao fim de 2027.

 

Segundo Gates, a ZFM garante "credibilidade e estabilidade" na integração com os sistemas fiscais português e europeu.

 

O presidente da Câmara de Comércio Portuguesa no Reino Unido, João de Abreu, argumentou que Portugal, enquanto o aliado mais antigo do mundo, pode "contribuir para reduzir qualquer mal que possa acontecer ao Reino Unido como consequência do Brexit".

 

Realçando a importância geoestratégica do país ao longo da história, o advogado garantiu que a relação bilateral está assegurada pelos diferentes tratados feitos ao longo de quase nove séculos entre os dois países. "Estiveram sempre em vigor. Estudámos esta questão com cuidado e a conclusão é que vão continuar até serem revogados", esclareceu.

 

A saída do Reino Unido da UE está prevista para 29 de Março de 2019, mas os termos do "divórcio" estão ainda em discussão, sendo conhecido que o Governo já descartou a permanência no mercado interno.

 

Londres e Bruxelas estão também a discutir um período de transição que poderá prolongar-se até ao final de 2020, após o qual o Reino Unido quer iniciar uma "nova relação" comercial e institucional com os 27. 




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