Política Monetária Carlos Costa demite director que quis promover a administrador

Carlos Costa demite director que quis promover a administrador

Rui Carvalho foi demitido após ser conhecida uma investigação do Ministério Público a uma venda de acções do BES dois dias antes da resolução. A operação envolve um funcionário do departamento de mercados e terá apanhado Carlos Costa de surpresa.
Carlos Costa demite director que quis promover a administrador
Bruno Simão/Negócios
Rui Peres Jorge 16 de agosto de 2017 às 23:10

Quatro meses depois de ter proposto Rui Carvalho para a administração do Banco de Portugal – uma intenção entretanto recusada pelo Governo – Carlos Costa demitiu-o do cargo de director Departamento de Mercados e Gestão de Reservas (DMR) e passou-o a consultor. Na origem da despromoção está uma investigação do Ministério Público a um funcionário do departamento por indícios  de utilização de informação privilegiada em 2014 com venda de acções do BES, dois dias antes da resolução do banco, e que terá apanhado a administração do banco central de surpresa.

Durante o agitado processo de  nomeação dos novos administradores para o Banco de Portugal, Carlos Costa insistiu por diversas vezes no nome de Rui Carvalho, contando com ele para acompanhar a gestão financeira da instituição. Trata-se de um alto quadro, com experiência na gestão de operações de mercado e liquidez, uma área que ganhou importância com as políticas anticrise do BCE. Na negociação de nomes com o Governo, o governador acabou por desistir, e, em Abril manteve Rui Carvalho como director. E, neste caso, o braço de ferro acabaria por poupá-lo a desfechos mais embaraçosos.

É que passados quatro meses, no início de Julho, Carlos Costa foi confrontado com uma investigação em curso do Ministério Público a uma operação feita por um membro da equipa do DMR, que terá vendido acções do BES dois dias antes da resolução do banco, o que pode configurar um crime de abuso de informação privilegiada. Rui Carvalho, enquanto director da DMR, terá tido conhecimento da operação logo em 2014, assim como o responsável interno pela avaliação de conflitos de interesses na altura, mas nada terá sido reportado à administração, que acabou por ser surpreendida com a situação em Julho deste ano. A decisão imediata foi tirar Rui Carvalho da liderança do departamento e passa-lo a consultor.

Quando o Sr. Governador propôs o Dr. Rui de Carvalho para administrador, estes factos [a operação e a investigação do Ministério Público] não eram do conhecimento do Sr. Governador, nem do Conselho de Administração. Fonte oficial do banco de Portugal



A história foi confirmada ao Negócios pelo Banco de Portugal, depois de ter sido questionado sobre os contornos do caso. "No dia 4 de Julho de 2017, o Conselho de Administração tomou conhecimento de que estava a decorrer na Justiça uma investigação relacionada com a eventual utilização de informação privilegiada numa operação realizada na manhã de 1 de agosto de 2014 por um colaborador do Departamento de Mercados e Gestão de Reservas (DMR) de venda de acções do BES", lê-se na resposta que acrescenta que "tal situação poderia configurar uma eventual utilização de informação privilegiada, o que levou a que o Conselho de Administração espoletasse imediatamente um conjunto de averiguações sobre a informação que lhe tinha chegado".

Prossegue fonte oficial que, a 10 Julho "o Conselho de Administração ordenou a realização de um inquérito interno urgente para averiguação dos factos, para além da abertura de um processo de inquérito de natureza disciplinar sobre o empregado que terá realizado a operação", e que na sequência "dos factos apurados", no dia 18 de Julho decidiu transferir o trabalhador em causa para outro departamento, "até à conclusão dos inquéritos em curso, nomeadamente na Justiça e disciplinar interno" e atribuir a Rui Carvalho "funções de Consultor da Administração", uma decisão que justifica com "a prevenção de qualquer conflito de interesses nos processos de investigação em curso".

As decisões tiveram efeito a partir de 31 de Julho, data a partir da qual Rui Carvalho foi substituído por Helena Adegas, que deixa livre a liderança do Departamento de Gestão de Risco, e que segundo a sua página de Linkedin ocupa cargos de direcção no banco central desde 2002.

Este é mais um episódio na turbulência que tem marcado a escolha dos lugares de cúpula do banco central durante a governação de Carlos Costa, em particular após o colapso do BES em 2014. Mas aqui, será caso para dizer que há vetos que vêm por bem.

Nomeações

Turbulência nas escolhas para o topo do banco central

O episódio em torno de Rui Carvalho é mais um numa sucessão de escolhas para a cúpula do banco central que têm gerado polémica nos últimos anos, em particular desde a resolução do BES no Verão de 2014.  

Director-adjunto que virou ministro
No final de 2013, e após a abertura de um concurso público para o cargo de director do departamento de Estudos do banco, Carlos Costa cancelou o concurso e travou a subida ao cargo  do então director-adjunto que se tinha apresentado a concurso, e estaria em boa posição relativa. O concorrente era Mário Centeno, que passou a consultor da instituição, e entretanto passou a ministro das Finanças.

O vice que perde a supervisão
Desde 2014, em particular após a resolução do BES, seguiram-se várias decisões polémicas. Uma delas foi a retirada do pelouro da supervisão prudencial ao vice-governador Pedro Duarte Neves em Setembro de 2014. A decisão foi vista por alguns como o sacrifício de um dos membros do Conselho de Administração para preservar a imagem do banco central no caso BES, que tinha rebentado no Verão. Carlos Costa recusou sempre essa interpretação e justificou a decisão  com a necessidade de, no âmbito da nova supervisão da união bancária, atribuir a prudencial  a um administrador cujo mandato se prolongasse para lá de Setembro de 2016 – data prevista para o final do mandato de Duarte Neves.

A ascenção e queda do predilecto da ministra
A supervisão prudencial acabou por ser entregue para António Varela, que tinha sido nomeado para a administração ainda em 2014 por Maria Luís Albuquerque, mas que teve uma breve passagem pela instituição. Demitiu-se em Março de 2016, ainda antes do fim do mandato de Duarte Neves, criticando a gestão de Carlos Costa nos casos do Novo Banco e de Banif. Varela foi o representante do Estado no Banif desde Março de 2013 até Setembro de 2014. O Banif acabou por ser resolvido no final de 2015. Varela viu-se envolvido numa polémica em torno da grande e diversificada de cadeira de investimentos que detinha quando aceitou o cargo.

Entra e sai na direcção da prudencial...
No final de 2014 nova polémica. Luis Costa Ferreira, então director do Departamento de Supervisão Prudencial, trocou o banco por um cargo da PricewaterhouseCoopers (PwC), a consultora que estava a fazer uma auditoria ao Novo Banco a pedido do Banco de Portugal. A decisão gerou controvérsia também por implicar que uma das pessoas com mais informação sensível sobre os bancos fosse prestar consultoria à banca. A polémica não evitou, no entanto, que Costa Ferreira regressasse ao banco central, com o apoio de Elisa Ferreira entretanto nomeada vice-governadora com o pelouro supervisão prudencial, substituindo Carlos Albuquerque.

Entra e sai nos serviços jurídicos
Pedro Machado que em 2014 era número dois de Costa Ferreira no banco e o acompanhou para a PwC também está de volta, agora para liderar o Departamento de Serviços Jurídicos (sob a tutela do vice-governador Luís Máximo dos Santos) substituindo José Brito Antunes, homem da confiança de Carlos Costa, que tinha entrado entre 2015 e 2016.




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mais votado 00SEVEN 17.08.2017

Rui Carvalho pode dar-se como extremamente feliz por viver neste país de brandos costumes!
Se fosse nos EUA ia para atrás das grades tal como foi Martha Stewart por uma situação idêntica quando vendeu as acções que tinha da farmacêutica ImClone um dia antes de um novo fármaco ter sido reprovado pelo FDA americano!

comentários mais recentes
Tentando Perceber 22.08.2017

A Porcaria ao seu mais Elevado Nível de Portugal, Assim começa pelo Topo, vem descendo degrau a dregau até à Base, ao rés do chão, ao lugar onde são Presos, despedidos, etc, até aí, dançam de cadeira para cadeira, e neste caso já lá vão 3 ou 4 anos, em lugares destes é melhor nem imaginar para o que

A Tentar Perceber 17.08.2017

Mas por o que percebi, este homem continua no Banco de Portugal ? Como pode ?

Anónimo 17.08.2017

E os outros? A CMVM ainda investiga? Ate quando?

Vergonha de cão ? ou será um dos 17.08.2017

cumpridores exímio de politica engendrada pela direita e amigos. O cargo é autónomo e tem proteção do banco Europeu. Tem sido essa diretiva que o protege de não ser demitido. São casos como estes que deviam ser revistos a bem da soberania nacional e do abuso de poderes.

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