Economia Comissão acredita no crescimento, mas diz que défice não desce em 2018

Comissão acredita no crescimento, mas diz que défice não desce em 2018

A Comissão Europeia valida previsões de crescimento do Governo e está até um pouco mais optimista quando à descida do desemprego. Já o défice não baixará, ao contrário do previsto no Orçamento do Estado: a consolidação pára em 2018, com a dívida a baixar mais dependente do crescimento.
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Rui Peres Jorge 09 de novembro de 2017 às 10:03
A Comissão Europeia valida as previsões de crescimento do Governo, e espera até um desempenho mais positivo que o Executivo no mercado de trabalho, mas tal não se traduzirá na descida do défice prevista pelo Governo no Orçamento do Estado. Bruxelas prevê uma estabilização do desequilíbrio das contas públicas e o fim do esforço de consolidação.

De acordo com as previsões de Outono divulgadas à quinta-feira, dia 9 de Novembro, Bruxelas vê a economia a crescer 2,6% este ano e 2,1% no próximo (compara com 2,6% e 2,2%, no caso do Governo), ao mesmo tempo que a taxa de desemprego recua para 9,2% da população activa em 2017 e 8,3% em 2018 (9,2% e 8,6% no caso do Executivo). Já o défice orçamental estabilizará em 1,4% do PIB nos dois anos, em vez de baixar para 1%, como antecipa o Governo.

"O PIB e emprego deverão crescer significativamente em 2017 puxados pelas exportações e pelo investimento. Apesar de algum abrandamento, o desempenho económico permanece forte em 2018 e 2018, com ganhos adicionais de exportações e desemprego mais baixo" sintetizam os serviços da Comissão, que notam que o défice orçamental deverá permanece abaixo de 1,5% do PIB no período de previsão, enquanto o saldo estrutural permanecerá igual", escrevem.

Governo deixa de consolidar

A principal discrepância entre as contas de Bruxelas e as do Governo português encontram-se na frente orçamental, com a Comissão Europeia a antecipar o fim da consolidação orçamental, e uma descida mais lenta do peso da dívida pública, apoiada mais no crescimento da economia. O cenário agora apresentado é ainda pior que o traçado na avaliação preliminar ao Orçamento do Estado conhecido há uma semana.

Nas estimativas de Bruxelas, que já têm em conta a proposta do Orçamento do Estado (OE), o défice orçamental estabilizará entre 2017 e 2018 em 1,4% (em vez de baixar de 1,4% para 1% do PIB como inscrito no OE), o défice ajustado de medidas extraordinárias cairá de 1,6% do PIB para 1,2% do PIB (metade do ajustamento antecipado pelo Governo, que estima uma redução de  0,8 pontos) e o saldo estrutural permanecerá estável, em vez de melhorar 0,5 pontos percentuais de PIB como antecipado no Orçamento – no que configura um desvio de quase mil milhões de euros entre as contas de Bruxelas e Lisboa, e representa um cenário ainda pior que o admitido na análise ao esboço orçamental

"O défice global deverá cair para 1,4% do PIB em 2017, principalmente devido à recuperação económica acelerada, a decrescentes despesas com juros e menos investimento que o projectado", lê-se na avaliação de Bruxelas sobre o exercício em cursos, explicando depois que "como a melhoria no saldo global (face aos 2% de 2016) é principalmente de natureza cíclica e não é acompanhada por medidas discricionárias de política, o saldo estrutural deverá melhorar apenas um pouco em 2017". Para o próximo ano, a trajectória é ainda menos ambiciosa, com a estabilização dos défices global e estrutural: "Como o impacto de medidas discricionárias e de poupanças com juros em 2018 deverá ser neutral, o saldo estrutural deverá permanecer estável", justificam.

Ou seja, para a Comissão Europeia, como de resto para as instituições nacionais que já analisaram o Orçamento, a proposta do Governo deixou de apostar numa redução estrutural do défice orçamental, baseando na ajuda da retoma e na descida da factura com juros para ir baixando o desequilíbrio das contas públicas. O saldo primário, isto é o que desconta o efeito dos juros e é excedentário, melhora de 2,2% do PIB em 2016 para 2,5% do PIB este ano, mas piora em 2018, regressando a 2,2% do PIB. 

Com este desempenho, o peso da dívida pública no PIB também deverá diminuir menos que o previsto no OE: 126,4% do PIB em 2017 para 124,1% em 2018 (contra a previsão de 126,2% e 123,5% do PIB inscrita no OE).

Economia desacelera em 2019
Na avaliação sobre o andamento da economia, a Comissão Europeia espera que 2017 seja um ano particularmente positivo, com crescimentos recordes na década, e Portugal a bater a Zona Euro (2,6% contra 2,2%). A partir daí, o desempenho português deverá desacelerar visivelmente, alinhando com o crescimento da Zona Euro em 2018 (nos 2,1%) e crescendo até menos que a Europa em 2019 (1,8% contra 1,9%).

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A explicar o dinamismo nacional em 2017 estiveram uma forte recuperação do investimento (crescimento homólogo de 10% no primeiro semestre), tanto em equipamentos como na construção, a que se junta um bom desempenho das exportações, em particular do turismo e da indústria automóvel.

O investimento continuará com um bom desempenho, embora a menor ritmo em 2018 e 2019. O mesmo acontecerá com as exportações, com o país a deixar de ganhar quotas de mercado em 2019: "a expansão em curso na indústria automóvel e o ciclo continuamente positivo no turismo deverão manter as exportações a crescer bem acima da procura dos principais parceiros comercial em 2017 e 2018. Em 2019, o crescimento das exportações deverá ficar mais em linha com a procura externa", à medida que o turismo e produção automóvel abrandar, estimam os técnicos da Comissão Europeia.
 
Com as importações a crescerem em linha com as exportações a Comissão aponta para uma manutenção de um ligeiro excedente externo, até 2019.

No mercado de trabalho, as previsões de Bruxelas sublinham o bom desempenho do mercado de trabalho, com muito emprego criado no turismo e na construção mas, tal como para o resto da Europa, com poucas pressões sobre os salários em termos agregados "uma vez que a maioria dos empregos foram em sectores de mão de obra pouco qualificada e com salários abaixo da média". A taxa de desemprego deverá baixar para menos de 8% em 2019.

(Nota: por lapso, numa versão inicial do texto escreveu-se que a Comissão Europeia prevê uma redução do défice ajustado de medidas extraordinárias de 1,6% do PIB em 2017 para 1,4% em 2018, quando o correcto é uma redução para 1,2% do PIB, como agora se lê. Desculpas aos leitores e aos visados.)  






 





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comentários mais recentes
pertinaz Há 1 semana

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Cuidado com o cão: não o perturbem. Os guardas que fazem a segurança à casa do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, foram deslocados para o exterior da casa do governante, perto de Santarém, porque o animal não parava de ladrar com a presença de estranhos.

Anónimo Há 1 semana

A Holanda já emite dívida a 10 anos com taxas abaixo de zero % ( http://www.reuters.com/article/eurozone-bonds-netherlands/dutch-10-year-bond-yields-turns-negative-for-first-time-idUSL8N19X16F ). O governo Holandês de Mark Rutte, eleito em 2010, reduziu em 12% o número de colaboradores do sector público holandês num mercado laboral já de si tão flexível. Não o fez por maldade ou mania. O processo está ainda em marcha, como o estará em França e tantos outros lugares no mundo mais evoluído ( http://uk.reuters.com/article/uk-dutch-government-jobs-idUKBRE94M0N520130523 ).

Anónimo Há 1 semana

Finlândia, esse lugar tão pobre, injusto e atrasado, com taxas de juro negativas a 10 anos ( http://www.afr.com/markets/debt-markets/finlands-10year-bond-yield-turns-negative-20160927-grpzqz ). E isto não tem nada a ver com este tipo de actuação: "The number of University staff will reduce by approximately 980 by the end of 2017." ( https://www.helsinki.fi/en/news/the-university-of-helsinki-terminates-570-employees-overall-staff-cuts-total-980 ); "Aalto University announced on Friday that it will shed a total of 316 positions by the end of 2018." ( www.helsinkitimes.fi/finland/finland-news/domestic/13754-aalto-university-to-lay-off-188.html ); "Digitalization has already reduced overall delivery volumes to the level of the 1960s. Therefore, we must adapt and reform our operations in order to ensure that Posti will still maintain its financial capability to build new business in order to compensate for mail delivery." https://www.apex-insight.com/posti-sees-job-cuts-in-the-offing/

ricardo Há 1 semana

o Mr. Tuga o meu amigo está danado á espera da ressaca! Não lhe diz nada estarem mais duzentas mil pessoas a trabalhar e a contribuir para o sistema em vez de estarem a receber subsidio de desemprego. Acredite que é uma diferença brutal e que faz mesmo a diferença. Um bom dia pra si

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