Obrigações Como as decisões de Draghi foram vistas pelos analistas

Como as decisões de Draghi foram vistas pelos analistas

Mario Draghi foi interpretado de forma ambígua pelos analistas. Mas, afinal, as medidas anunciadas esta quinta-feira pelo BCE são positivas ou negativas?
Como as decisões de Draghi foram vistas pelos analistas
Reuters
Rui Barroso 09 de dezembro de 2016 às 13:14

O BCE trocou as voltas aos analistas. Se por um lado prolongou o prazo do programa de compras de activos de Março para Dezembro de 2017, por outro tirou o pé do acelerador no que diz respeito às compras mensais, reduzindo o ritmo de 80 mil milhões para 60 mil milhões de euros por mês a partir de Abril. Mario Draghi garantiu que esta redução não se trata de um "tapering", ou seja, da retirada gradual das compras.

Mas as gestoras de activos e bancos de investimento interpretam de forma diferente os sinais dados pelo BCE e sublinham a ambiguidade da mensagem deixada pelo banco central. E houve mesmo quem pegasse num dicionário para analisar a definição de "tapering", que é "a diminuição ou redução da intensidade até um fim". Essa parece ser a expressão que Draghi que tirar da mente dos investidores já que no passado, no caso dos EUA, os receios sobre a retirada gradual dos estímulos causaram problemas nos mercados.

BlackRock: Apesar da negação de Draghi, as medidas correspondem a um "tapering"

"Na nossa perspectiva [as medidas anunciadas pelo BCE] correspondem a um ‘tapering’, apesar de na conferência de imprensa o presidente Draghi ter negado isso de forma veemente. O anúncio do BCE é uma continuação da tendência de outros grandes bancos centrais de se distanciarem das políticas monetárias mais expansionistas de sempre. Estamos posicionados para uma curva de rendimentos mais acentuada nas obrigações alemãs, com posições para a descida de obrigações governamentais francesas e com posições relativamente pequenas em obrigações soberanas periféricas."

Société Générale: "Países mais pequenos terão pior desempenho"

"O BCE será mais acomodatício em 2017 do que o que prevíamos. O ritmo das compras continuará a ser substancial mas concentrado em obrigações de prazos mais curtos e em que os limites por emissão de 25% e 33% não tenham sido atingidos. Há implicações ao nível de países. Os mais pequenos com limitações por emissão mais apertados terão pior desempenho relativamente aos maiores e com mais liquidez no mercado."

RBC Capital Markets: "O BCE está pronto a responder aos riscos políticos"

"A linguagem que acompanhou as alterações destacou a vontade do Conselho de Governadores aumentar o tamanho do programa se as perspectivas para o crescimento ou a inflação piorarem. Draghi fez questão de enfatizar e de mostrar que o ‘tapering’ não estava à vista e que o BCE ‘iria estar nos mercados e exercer pressão nos preços de mercado’. Apesar de não ter sido explicitamente mencionado por Draghi isso foi um sinal claro de que o BCE está pronto a responder caso os riscos políticos se materializem e alterem de forma significativa as perspectivas."

Deutsche Bank: "Uma forma inteligente de recuar"

"Foi uma forma inteligente de recuar, especialmente porque tornaram bastante claro que poderiam aumentar [as compras] em qualquer altura para responder a eventos. No entanto, no que diz respeito ao tom de Draghi na conferência de imprensa foi de que estava a tentar em demasia que os mercados vissem isto como algo ‘dovish’ [expressão para políticas monetárias mais expansionistas]. Mas a sua interpretação do vocabulário e da aritmética é certamente alvo de um forte escrutínio. Draghi tornou claro por mais do que uma ocasião que certamente isto não era ‘taper’. No entanto, uma rápida consulta no dicionário sugere que ‘taper’ significa ‘diminuir ou reduzir a intensidade de algo até um fim’. Draghi também disse que as projecções económicas do ‘staff’ do BCE para a Zona Euro de uma inflação de 1,7% em 2019 não estavam perto do seu mandato de abaixo mas perto de 2%. Claramente, um homem difícil de agradar".

Pimco: "1% são os novos 2%"

"A decisão do BCE de baixar o ritmo das compras de activos é um reconhecimento de que a meta de inflação de 2% é ambiciosa de atingir, pelo menos com a ferramenta gasta das compras de obrigações. Isto reforça a nossa cautela de longo prazo sobre o investimento em países da Zona Euro com elevados fardos de dívida e baixo potencial de crescimento económico. As baixas taxas de crescimento nominal tornam mais difícil estabilizar a dívida. E com o BCE a abrandar, o ónus passa para os governos implementarem reformas estruturais para acelerar o crescimento."

Natixis: "Draghi inventa o ‘tapering’ suave"

"Haverá ‘tapering’ a partir de Abril mas para Mario Draghi isso não é um ‘tapering’ no sentido estrito do termo, já que não é a intenção do banco central recuar nas compras até zero. É um ‘tapering dovish’ já que no que foi indicado poderá haver uma subida no tamanho e na duração do programa (não houve menções a descidas) se as expectativas de inflação não recuperarem. Além disso, a liquidez que será injectada (540 mil milhões de euros), será maior do que a que teria sido se houvesse uma extensão por seis meses sem alteração do valor mensal (480 mil milhões de euros)."

Pictet: "O BCE pode ser forçado a flexibilizar novamente os parâmetros do programa"

"O maior risco, na nossa perspectiva, é que o BCE seja forçado a comprar por muito mais tempo. Acreditamos que o BCE irá cavar por estender o programa para 2018, reduzindo apenas o ritmo das compras mensais para menos de 60 mil milhões de euros quando a inflação ‘core’ subir acima de 1,2% a 1,3% numa base sustentada. As nossas estimativas sugerem que é improvável que isso aconteça antes do início de 2018. Estamos desapontados já que esperávamos um aumento nos limites por emitente e por emissão, o que foi rejeitado devido a constrangimentos legais, e desvios suaves das chaves de capital, o que não foi discutido nesta altura. Ainda assim, se as nossas estimativas estiverem correctas, o BCE pode ser forçado a flexibilizar os parâmetros do programa de compras novamente antes de estender as compras para 2018."

Commerzbank. "Periféricos estão expostos e Portugal é o primeiro da linha"

"Ao reconhecer que os ‘constrangimentos legais e institucionais’ tornam mais difícil alterar outros parâmetros (como o limite por emitente), sentimos que as opções do BCE para o programa de compras são bem mais reduzidas do que o que o mercado acredita. É bastante óbvio que o programa irá atingir os seus limites em 2018. E isso são más notícias para Portugal, em que o limite do emitente está já perto de ser atingido e levanta também dúvidas sobre a capacidade do BCE apoiar Itália no próximo ano."




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comentários mais recentes
surpreso 09.12.2016

Continua o escândalo de destruir valor,para suportar politicos irresponsáveis.Agora,os italianos

carlitos335 09.12.2016

O Draghi deixa de comprar dívida portuguesa, e António Costa tem um excelente bode expiatório, para levar com as culpas de um novo resgate.

Anónimo 09.12.2016

O Draghi anda a tentar fugir à lei da gravidade não olhando a meios para manter artificialmente a unidade do euro.Mas a lei da gravidade é tramada!

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