Economia Cursos de Economia em Portugal: muita matemática e pouca reflexão

Cursos de Economia em Portugal: muita matemática e pouca reflexão

Mais de um terço dos créditos das licenciaturas de Economia em Portugal é dedicado à matemática e à gestão, enquanto apenas 1,6% vai para cadeiras de ética, pensamento crítico e de teoria e história do pensamento económico.
Cursos de Economia em Portugal: muita matemática e pouca reflexão
Bruno Simão
Nuno Aguiar 23 de março de 2016 às 16:01

Estes dados são retirados de um levantamento realizado pelo "Colectivo Economia sem Muros", que será apresentado este fim-de-semana em Paris, durante a segunda Assembleia Geral da Iniciativa Internacional de Estudantes para uma Economia Pluralista (ISIPE, na sigla original). Um projecto que reúne 82 colectivos em 30 países. Entre os mandatários do movimento está Thomas Piketty (na fotografia), James Galbraith e Jean-Paul Fitoussi.

 

O que mais salta à vista nos números é o peso muito elevado das áreas relacionadas com a matemática, assim como a gestão: 20,5% dos créditos das licenciaturas de Economia dedicam-se a estatísticas, matemática e outros métodos quantitativos. A segunda maior área é a gestão: contabilidade, empreendedorismo, direito, marketing e estratégia de gestão representam 16,2% dos créditos. Entre a matemática e a gestão está, assim, 36,7% do curso.

 

O reverso da medalha é o peso atribuído a cadeiras que exigem uma maior reflexão e espírito crítico em relação ao pensamento e histórica económica. Essas disciplinas representam, em média, apenas 1,6% dos cursos. A história económica e problematização dos acontecimentos têm um peso de 6,2%.

 

A diferença entre as cadeiras mais técnicas e aquelas que aproximam mais a economia de uma ciência social é uma das principais críticas feitas pelo colectivo "Economia sem Muros".

 

"A matemática é uma ferramenta muitíssimo útil. Permite-nos aprofundar conhecimentos, fundamentar opiniões, e assim tomar decisões e estabelecer posicionamentos de maneira mais informada", explica José Ricardo Sequeira, estudante de mestrado da Nova e professor assistente, assim como um dos membros do colectivo. No entanto, "o facto de o foco estar quase sempre no desenvolvimento matemática dos modelos económicos, faz com que a discussão teórica dos pressupostos destes mesmos modelos (que muitas vezes são questionáveis) muitas vezes não tenha lugar."

 

Portugal não é caso único. Aliás, o peso que é dado à matemática nas faculdades portuguesas colocam-no precisamente na média internacional dos países 12 analisados. Os outros são: França, Chile, Israel, Dinamarca, México, Espanha, Turquia, Argentina, Itália, Alemanha e Uruguai. Em média, 19,8% dos créditos nos cursos de economia desses países estão relacionados com matemática. Um mínimo de 16,1% na Turquia e máximo de 24,4% no Chile.

 

Já as cadeiras de maior reflexão têm peso médio de 2,3%, com um mínimo de 0,3% em Israel e um máximo de 7,3% no México. Em Portugal, tal como já foi referido, é de 1,6%.

 

Repensar o ensino de Economia

 

O Colectivo Economia sem Muros é composto por perto de uma dezena de alunos da Faculdade de Economia da Universidade de Lisboa. Este levantamento tem como objectivo chamar à atenção para aquilo que os vários colectivos destes países consideram ser a falta de pluralismo no ensino da Economia nas universidades, com uma prevalência muito grande da visão neoclássica. "A diversidade de pensamento económico que está presente nas faculdades portuguesas é praticamente inexistente", aponta Ricardo Sequeira. "Quando o que se aprende tem bastantes fundamentos ideológicos, pode ser perigoso apresentar apenas um ponto de vista e nem sequer o questionar."

 

Os organizadores consideram que a falta de pluralismo dos currículos contamina o debate público, apresentando um único caminho para problemas que podem ter várias propostas de solução. "Os media ficam reféns de uma certa forma de pensar as relações sociais, o que afunila o discurso. Em Portugal isso foi bastante clara com a adopção, por grande parte da comunicação social, do mesmo discurso fatalista e moralista sobre a austeridade em plena crise económica", sublinha Ricardo Sequeira, que nota que este "contacto enviesado com a economia" se faz depois sentir também no desenho de políticas públicas. Uma maior matematização da economia tem ainda outra consequência negativa: afastar a maior parte das pessoas do tema, dificultando também qualquer tipo de questionamento. "Há uma tentativa de tornar a economia demasiado hermética e incompreensível para ser uma coisa que a maior parte da população não percebe", acrescenta.

 

O debate sobre a necessidade de actualizar os currículos de economia não é novo, mas o colapso financeiro de 2007/2008, que mergulhou a economia mundial numa crise profunda, conferiu-lhe um renovado ímpeto. Nos últimos nove anos, os cursos de economia não mudaram substancialmente, apesar de muito do que achávamos saber sobre os mercados ter caído por terra.

 

"O que se passou nos últimos anos não foi apenas uma questão de uma massiva falha de mercado, é também uma massiva falha da análise económica. É o ruir do edifício intelectual que esteve no centro da crise e que ainda não fez a sua avaliação sobre o que é a boa e a má teoria. Habitamos destroços hoje", defendia há um ano ao Negócios Sandro Mendonça, responsável pelo curso de Economia no ISCTE.

 

Uma análise que tem obviamente detractores. No mesmo artigo do Negócios que reflectia sobre este tema, Ricardo Reis, professor da Universidade de Columbia, diz que os últimos anos "não levaram a um requestionar profundo da forma como ensinamos", uma vez que "a crise e as análises da crise não implicam uma rejeição da economia moderna: uma crise desta dimensão é imprevisível". Aquilo a que se chama economistas heterodoxos "são uma minoria e há uma boa razão para isso: na maioria das vezes, não têm razão", acusava.

 

Este fim-de-semana em Paris serão apresentadas as conclusões para os 12 países onde foram realizados estudos semelhantes sobre as licenciaturas de economia. O objectivo é trazer o tema para debate e, em última análise, alterar os planos curriculares, de forma a reflectirem o facto de a economia ser uma ciência social. "Tal como em sociologia e antropologia, existem correntes na economia. É absurdo e perigoso fingir que há unanimidade e certezas absolutas", defende Ricardo. 




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mais votado CarlosAP 23.03.2016

Oh manelze. Que pobreza de espirito.. e de cabeça também. Como se o pensamento e acção humana (a verdadeira essencia da economia) pudessem ser simplesmente modelados com uma função e depois explicados com uns gráficos bonitos. Os 5 anos de licenciatura pouco fizeram para lhe abrir a mente.

comentários mais recentes
glima93 26.03.2016

Curioso saber que, segundo o artigo, Matemática é diferente de reflectir, como se fossem capacidades mutuamente exclusivas; é claramente não perceber nem uma coisa nem outra.
Está certo que se questionem os pressupostos, tal como em qualquer argumento se deve questionar a verdade das premissas. Agora, dizer que se deve diminuir a importância de uma ferramenta fundamental do pensamento, como é a construção lógica de argumentos (através da linguagem matemática) para nos focarmos a discutir fundamentalmente os pressupostos dos modelos, normalmente resvala para a impossibilidade de explicar o que quer que seja.
O problema não está na matemática: está em conseguir ensinar melhor a matemática, para que pressupostos mais realistas sobre a forma de comportamento das pessoas possam ser incorporados em novos argumentos que possam ser validados como lógicos. Quer se queira quer não, a Matemática é uma forma de expressão que não se presta a retóricas, populismos, figuras de estilo, exageros, etc; coisas que dão muito jeito para fazer passar as ideias que se querem passar num contexto político.
Quanto ao facto de a Economia poder ser demasiado hermética, digo o mesmo da Física, da Medicina, da Engenharia... Não é suposto cada área do conhecimento ter os seus próprios conceitos?

Criador de Touros 25.03.2016

Devo acrescentar que fora do Novo Testamento não há ética, ou o que há resume-se à ética aristotélica, que sendo ante-cristã, não cava fundo, tornando-se obsoleta. O mesmo em relação à ética kantiana e todas as éticas saídas do Racionalismo/Iluminismo: mal as pessoas se descuidam já estão a passear no deserto e pelo deserto fora vão entrando com tais éticas e o resultado vê-se hoje com as éticas posmodernas do arco-íris, belos desertos onde não floresce nada.

Criador de Touros 25.03.2016

Sou a favor do ensino da Matemática nas faculdades de Economia. Quanto à ética, deveria ser obrigatório estudar a ética no Novo Testamento, que é a 2a parte da Bíblia. Deveria ser obrigatório ainda estudar o Organon de Aristóteles, sobre lógica deductiva. Quanto ao capital de Marx e economia socialista/comunista deveria ser dado num capítulo da cadeira de História do Pensamento Económico. O que disse é válido para Direito, sem Matemática.

ca 24.03.2016

Quer dizer que matemática não é reflexão e nem implica reflexão? Estes parvos a berrar contra 'austeridade' e contra a matemática são ridículos. O problema deles é que são ideologos obtusos, incapazes de reflectir logicamente (ou seja, matematicamente). Para eles, matemática não, bancarrota sim...

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