Economia Davos, a elite mundial está aqui e Portugal marca presença

Davos, a elite mundial está aqui e Portugal marca presença

Davos recebe pela 46º vez o encontro anual do Fórum Económico Mundial, e é aqui que nos próximos dias vai estar parte da elite mundial. São mais de 2500 participantes, entre eles Ban Ki-moon, Satya Nadella, Christine Lagarde, DiCaprio e Durão Barroso.
Davos, a elite mundial está aqui e Portugal marca presença
Simon Dawson/Bloomberg
Inês F. Alves 20 de janeiro de 2016 às 06:00

Arranca oficialmente esta quarta-feira a 46.ª edição do Fórum Económico Mundial de Davos. A comitiva portuguesa é composta por políticos, empresários, investigadores e empreendedores. Das grandes conferências, aos encontros bilaterais, sem esquecer as festas, o "dress code" peculiar, ou as teorias da conspiração. Começou mais um encontro incontornável na pequena cidade gelada da Suíça e o mundo, como sempre, está atento.

O Fórum de Davos "é um encontro importantíssimo", começa por dizer ao Negócios Leonardo Mathias, ex-secretário de Estado adjunto da Economia, que acompanhou Pires de Lima – então ministro da Economia, a este palco em 2014 e 2015. "O ponto crítico é planear bem a visita", uma vez que o programa é extenso – a título de curiosidade, a agenda oficial deste ano tem 119 páginas – e há ainda que considerar ainda os encontros bilaterais, que naturalmente não integram esta listagem.


Este ano, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, marcará presença na conferência, assim como os empresários Pedro Soares dos Santos e Henrique Soares dos Santos (da Jerónimo Martins) e Ângelo Paupério (da Sonae). Há ainda que referir a presença de Carlos Moedas, comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação; e de José Manuel Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro-ministro de Portugal.

António Simões, do HSBC, e Stephan Morais, do Caixa Capital, são "Young Global Leaders" do Fórum Económico Mundial e fazem-se acompanhar em Davos por oito "Global Shapers", entre os quais Afonso Reis, que participará oficialmente no fórum económico, onde vai apresentar o projecto "Inspira o teu professor".

Para Pedro Soares dos Santos, "as expectativas são, como sempre, elevadas", uma vez que Davos "já nos habituou a ser sinónimo de acesso a informação e pessoas interessantes", disse o empresário ao Negócios. O presidente e CEO da SGPS de distribuição do grupo Jerónimo Martins mostrou-se "especialmente motivado para as sessões relacionadas com a Agricultura e Segurança Alimentar, com as questões energéticas e sobre o futuro da Saúde, assim como a instabilidade da Europa enquanto união económica".

Para a empresa, explicou, a presença em Davos representa a "oportunidade privilegiada para antecipar tendências, reforçar ferramentas de leitura dos contextos e compreender o mundo".


A mesma ideia é partilhada por Leonardo Mathias, que considera que "Portugal tem muito a ganhar em estar presente". Além das conferências, este destaca os encontros bilaterais que ocorrem paralelamente à conferência e que são de grande relevância porque "colocam na montra" projectos, países e empresas. "Muitos dos contactos que fizemos mais tarde [no Ministério da Economia] vieram de Davos", contou Mathias, relembrando que a missão do Governo em Davos no ano passado passava por fazer Portugal "ganhar credibilidade perante os mercados internacionais".

Henrique Soares dos Santos, por sua vez, considera que Davos "é sempre um privilégio e uma oportunidade para parar e olhar o mundo de outra forma" e disse estar particularmente interessado em aprofundar o seu conhecimento sobre "a instabilidade crescente e a tensão nas relações internacionais, a queda continuada do preço do petróleo, o futuro da União Europeia e os impactos do abrandamento do crescimento da economia chinesa".

E, de facto, há um mundo cada vez mais complexo para compreender em Davos. Escreveu a Reuters esta terça-feira que a elite mundial se reúne para discutir o futuro numa altura em que cresce a desigualdade no mundo e se aprofundam as clivagens políticas e sociais. Em 2015, a riqueza acumulada por 1% da população mundial, entre os mais ricos, superou a dos 99% restantes, um ano mais cedo do que se previa. No Médio Oriente, Arábia Saudita e Irão lutam por domínio, numa região já pressionada pela guerra e pela emergência do extremismo.


"A par dos desafios com que nos deparamos actualmente, importa também olhar para o futuro próximo e perceber as implicações que a chamada quarta revolução industrial terá na economia mundial", acrescentou Henrique Soares dos Santos, sinalizando aquele que é o grande tema do Fórum Económico Mundial deste ano.

Se o leque de oportunidades é cada vez maior graças a esta revolução, protagonizada pelos avanços na área da robótica e da inteligência artificial, colocam-se igualmente novos desafios económicos e sociais. A automatização da economia pode custar milhões de postos de trabalho, o que por sua vez pode deteriorar a classe média, considerada "o pilar das nossas democracias" por Klaus Schwab, presidente executivo do Fórum Económico Mundial.

Além dos desafios impostos por esta revolução, há ainda em cima da mesa outros temas-chave, nomeadamente, o terrorismo, a turbulência dos mercados – desde a queda do preço do petróleo ao abrandamento económico da China, as alterações climáticas, o futuro da Europa face à ameaça da saída do Reino Unido e à crise dos refugiados, a desigualdade na distribuição de riqueza, os avanços da medicina na luta contra o cancro e o cibercrime versus as liberdades civis.


A conferência acontece de 20 a 23 de Janeiro
A conferência acontece de 20 a 23 de Janeiro
Simon Dawson/Bloomberg

"O mundo é demasiado complexo para ser decidido em Davos"

A relevância de Davos é consensual, mas o encontro está longe de se tornar o lugar onde se decide o futuro da humanidade, garantem aqueles que têm ou tiveram o privilégio de integrar o leque de aproximadamente 2500 pessoas convidadas a participar – sendo que a Davos só se vai com convite, um pormenor que contribui para a construção do mito em torno da conferência anual.

"Um encontro de 2500 pessoas não é muito secreto, e o mundo é muito complexo para ser decidido em Davos, ou por um grupo específico", diz Stephan Morais, que está neste evento pela quarta vez. Este considera que há "algum cinismo" quando se transmite a ideia conspirativa de que é em Davos, com um conjunto limitado de pessoas, que se decide o futuro do mundo.

"Há uma ideia de que Davos é um ambiente conspirativo, e eu não vi nada disso. Vi pessoas brilhantes com intervenções corajosas", reforça Leonardo Mathias.

"As pessoas vêm aqui em trabalho para construir um mundo melhor", acrescentou Stephan Morais, destacando o sentido de responsabilidade daqueles que participam no evento.

Stephan é, tal como António Simões, um dos "Young Global Leaders" (Jovens Líderes Globais) do Fórum Económico Mundial. É-o desde 2010 e esteve em Davos pela primeira vez em 2012.

Este grupo de jovens é composto por pessoas com menos de 40 anos que se destacam pelo seu percurso profissional. Stephan Morais é também responsável pela criação do polo de "Young Shapers" de Portugal, do qual fazem parte 20 pessoas, oito das quais estão em Davos neste momento.

 

Davos fica nos Alpes Suiços, a mais de 1500 metros de altitude
Davos fica nos Alpes Suiços, a mais de 1500 metros de altitude
Bloomberg

O frio, o almoço português e as botas para a neve

Não há só trabalho em Davos. Além do programa oficial há jantares oferecidos por empresas e festas que se prolongam madrugada dentro, conta Leonardo Mathias.

"O ambiente é de grande entusiasmo", diz Stephan Morais, explicando que é uma oportunidade única, especialmente para os mais jovens, de estar cara-a-cara "com os seus pares de diferentes partes o mundo. Pessoas conscientes e preocupadas".

Sobre os jantares ou festas não se alonga, dizendo somente que se criam oportunidades de conhecer as pessoas num ambiente mais informal, onde "estão mais à vontade do que quando estão a ser gravadas" e onde "não se vêem egos".

Questionado sobre se já se havia cruzado com alguém que o tenha surpreendido, recordou o encontro com David Cameron, que disse ser "um homem muito impressionante" e com Charlize Theron, que é "muito simpática".

Leonardo Mathias, porém, revela alguns detalhes, e conta ao Negócios que todos os anos em Davos há um almoço com todos os portugueses presentes e que ao sábado, no último dia da conferência, há um churrasco nas montanhas.

Sobre o ambiente em Davos, Morais respondeu com bom humor e à letra dizendo "é muito frio". Há hora em que conversou com o Negócios, por volta das 17:00 de Lisboa desta terça-feira, estavam -8ºC na cidade suíça. "Nestes anos já apanhei temperaturas desde os dois graus até aos -15 graus", confidenciou.

"A possibilidade de ficar doente é grande", diz, explicando que são dias muito agitados, em que se dorme pouco, e em que os participantes se deslocam várias vezes ao dia a diferentes locais de Davos para participar nos vários eventos em agenda.

É o frio e a difícil logística provocada pela neve que acaba por ditar outro dos pormenores curiosos deste evento: "Vêem-se os senhores vestidos de fato e depois com botas [para andar na neve]. É típico de Davos, para o frio e para não escorregar", lembra Leonardo Mathias.

"Como cidadão, se pudesse, estava em Davos desde ontem [segunda-feira]", disse ao Negócios, reforçando a excepcionalidade deste evento onde, entre outras coisas, é possível "ter pessoas como Bono [vocalista dos U2, empresário e activista] sentado ao seu lado".

Os números de Davos

São 4 dias de conferência, a abertura oficial é esta quarta-feira e prolonga-se até 23 de Janeiro;

Participam mais de 2500 pessoas, de mais de 100 países;

Das quais cerca de 1500 empresários, de mais de 25 sectores;

Quase 300 figuras públicas, entre as quais Bono, Kevin Spacey, Leonardo DiCaprio e Sebastian Vettel;

Mais de 100 "Young Global Leaders", 50 "Global Shapers" e 25 empreendedores sociais;

250 representantes dos media e cerca de 40 líderes culturais;

Vão ter lugar neste evento mais de 250 conferências e "workshops" ao longo dos quatro dias, sendo que mais de 25 destas podem ser acompanhadas em directo através da internet;

O bilhete para um empresário custa cerca de 27 mil dólares (cerca de 25 mil euros), apurou a BBC;

A maioria dos participantes é do sexo masculino, sendo que as mulheres representam somente 18% dos convidados.




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Anónimo Há 4 semanas

É, no mínimo, cómico o uso do termo "Elite", quando se fala de puros parasitas, egoístas e sociopatas que usam todos os meios ao seu alcance, incluindo deploráveis seres humanos que se vendem, para tornarem o dia-a-dia dos demais um horrivel pesadelo, para lhes negarem tudo aquilo a que têm direito.

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