Economia Dívidas e investimento "congelam" Portugal no ranking da competitividade

Dívidas e investimento "congelam" Portugal no ranking da competitividade

O estudo de 2017 da IMD conserva a economia portuguesa na segunda metade da tabela. Fracos indicadores de desempenho económico anulam escalada de oito posições na eficiência pública, puxada pela redução do défice.
reuters / Edgar Su Andrew Harrer JOCK FISTICK Aidan Crawley Linus Hook Casper Hedberg Mário Proença
António Larguesa 31 de maio de 2017 às 19:00

Portugal manteve em 2017 o 39.º lugar no ranking mundial de competitividade elaborado pela escola de negócios IMD (International Institute for Management Development), divulgado esta quarta-feira, 31 de Março, na Suíça. Esta lista, composta por um total de 63 economias, continua a ser liderada por Hong Kong e regista a Venezuela na última posição (veja o Top10 na fotogaleria em cima).

 

A pontuação portuguesa confirma que o país "não está na linha da frente dos países desenvolvidos", resume Daniel Bessa, professor da Porto Business School, a entidade nacional parceira neste estudo. A evolução nos últimos cinco anos mostra "o mau bocado" que o país atravessou em 2013 e 2014, "os mais agudos da intervenção da troika, com subidas de impostos, reduções da despesa pública e dificuldades de financiamento" – ficou em 46.º e 43.º, respectivamente –, a recuperação até ao 36.º posto em 2015 e uma nova descida para 39.º no ano passado.

 

Face ao estudo anterior, Portugal desceu três lugares no critério da performance económica. Indo ao detalhe, os factores que mais pesam negativamente neste desempenho do país são o endividamento das empresas (é o segundo maior de todos) e também a dívida do Estado e o investimento – em ambos, só três países apresentam um registo pior. "Com a economia, as coisas não correm tão bem como às vezes queremos fazer crer", assinala ao Negócios o ex-ministro da Economia.

 

Dos quatro grandes grupos de indicadores em análise, este do desempenho económico é também aquele em que Portugal compara pior com os restantes países (51.º), impedindo uma progressão no ranking global. Na eficiência dos negócios não houve mexidas (46.º) e o melhor continua a ser o das infra-estruturas, em que este ano subiu uma posição, para 27.º. No entanto, a melhoria mais acentuada em 2017, com uma escalada de oito lugares, para 40.º, foi ao nível da eficiência governamental, sobretudo devido à redução do défice público.

 

Daniel Bessa, que colaborou neste estudo da IMD, alerta que, na área económica, em Portugal “as coisas não correm tão bem como às vezes queremos fazer crer”.
Daniel Bessa, que colaborou neste estudo da IMD, alerta que, na área económica, em Portugal “as coisas não correm tão bem como às vezes queremos fazer crer”.
Miguel Baltazar

 

Realizado desde 1989 pelo IMD, este é um dos rankings de competitividade mais influentes a nível global, a par do estudo produzido pelo Fórum Económico Mundial, que na última edição, publicada em Setembro de 2016, colocou Portugal a descer oito posições. Para as mais de seis dezenas de economias em análise, a instituição de ensino com sede em Lausanne recolheu informação relativa a 280 variáveis, sendo dois terços provenientes de dados estatísticos e a restante decorrente de inquéritos de opinião.

 

Numa dessas auscultações foi pedida a escolha dos cinco principais favores de atractividade do país, de uma lista composta por 15 indicadores. No caso português, os custos competitivos, a mão-de-obra qualificada e as infra-estruturas surgem no pódio, enquanto a competência das autoridades políticas e a governação das empresas foram os elementos-chave considerados menos atractivos.

 

 

O capítulo do estudo relativo a Portugal elenca ainda os critérios de competitividade que mais melhoraram e pioraram de 2016 para 2017, independentemente do comparativo face aos outros países. Na lista das melhorias portuguesas surgem as finanças públicas, o défice orçamental ou o risco de instabilidade política, enquanto "a vermelho" são apontados a balança de transacções correntes, a inflação, a evasão fiscal e vários aspectos ligados ao empreendedorismo.

 

Pela primeira vez, este estudo inclui um relatório específico sobre a competitividade digital nos diferentes países, em que mede a capacidade de incorporarem e explorarem tecnologias digitais. Nesta lista particular, encabeçada por Singapura, Suécia e Estados Unidos, Portugal surge na 33.ª posição. Acima daquela que ocupa no ranking geral e superando países como Itália ou Polónia, mas recuando duas posições face às medições que já tinham sido feitas no ano anterior.

 

Na área digital, o aspecto em que Portugal pontua pior (57º em 63 países) é na escassa utilização e análise de grandes bases de dados para a gestão das empresas. "Andamos aqui muito contentes e apresentamos como grandes realizações o Web Summit, as start-ups e essas coisas todas, mas esquecemo-nos que os outros países também progridem. E nesta área do digital, muito rapidamente", alertou Daniel Bessa.

Cinco desafios para 2017

O estudo publicado pela IMD elenca vários desafios estratégicos para a competitividade da economia portuguesa, que serão o tema de um debate agendado para 9 de Março nas instalações da Porto Business School, em Matosinhos.

- Reduzir estruturalmente o défice público, de forma a alcançar excedentes permanentes e permitir a redução da dívida pública;

- Dar estabilidade e sustentabilidade ao sistema bancário; e com novas opções nos mercados de "equity" públicos e privados;

- Fomentar a inovação e o empreendedorismo, e atrair e reter investimento sobretudo no sector dos bens transaccionáveis para facilitar as exportações;

- Implementar reformas no mercado de trabalho (por exemplo, ao nível da flexibilidade funcional e da mobilidade geográfica) dentro de um ambiente construtivo de diálogo social, melhorando a atractividade para a mão-de-obra jovem e qualificada; 

- Desmantelar a burocracia nos serviços públicos e melhorar a eficiência do sistema judicial, em particular na área do contencioso fiscal.




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mais votado Anónimo 31.05.2017

O problema de economias como a portuguesa é terem, por um lado, empregados a mais a ocupar postos de trabalho que não se justificam, com todos os elevados custos de oportunidade que isso representa para a sustentabilidade do Estado, a competitividade da economia e o nível de equidade na sociedade. Estes agentes económicos pertencem à esfera da extracção de valor. Por outro lado, terem relativa e proporcionalmente poucos empregados a ocupar postos de trabalho justificáveis e que criem valor excepcional. Estes agentes económicos pertencem à esfera da criação de valor. Há efectivamente um desequilíbrio muito pronunciado entre criação de valor e extracção de valor na economia portuguesa. O IMD explica-nos isso muito bem. http://www.imd.org/news/is-value-extraction-viable.cfm

comentários mais recentes
Anónimo 01.06.2017

Em Portugal julgam que competitividade é criar bónus para que os funcionários públicos não façam mal aquilo que já se faziam pagar, em muitos casos bem acima do preço de mercado, para fazerem bem.

Anónimo 01.06.2017

A competitividade é desenvolver a economia através da criação de condições para que o mercado laboral seja o mais flexível possível e o mercado de capitais seja o mais forte e dinâmico que se conseguir, promovendo assim todas as condições para gerar, atrair e fixar o melhor e mais adequado talento e capital disponíveis nos mercados globais de factores a cada momento.

pertinaz 01.06.2017

DIGAM ISSO À ESCUMALHA QUE DESGOVERNA PORTUGAL...!!!

Anónimo 31.05.2017

As reformas pararam e o despesismo com salários injustificáveis e futuras pensões disparou, iniciando a contagem decrescente para o próximo resgate à República. O engano ou ilusão que se viveu entre 2005 e 2010 está a ser minuciosamente replicado pelo novo governo socialista. Não tenhamos dúvidas disto. Portugal julga-se imune à quarta revolução industrial e mais uma vez opta por não participar nela ou não se adaptar a ela julgando ser possível viver como economia de elevado rendimento usando o paradigma do funcionalismo público excedentário alavancado pelo crédito bancário e tendo uma fé inabalável no turismo.

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