Política Monetária Draghi admite dificuldades do BCE em lidar com novas realidades

Draghi admite dificuldades do BCE em lidar com novas realidades

O mundo mudou depois da crise financeira de 2008 e o presidente do Banco Central Europeu admite não ter todas as respostas. Anteriores modelos e explicações parecem estar a perder força.
Draghi admite dificuldades do BCE em lidar com novas realidades
Bruno Simão
Nuno Aguiar 23 de agosto de 2017 às 12:24

Mario Draghi defendeu esta manhã que, mesmo depois de colocarem os juros perto de zero, os bancos centrais continuam a ter armas para manter a estabilidade de preços, desde que estejam dispostos a utilizar medidas não convencionais para o fazer. Num discurso do qual todos tentaram retirar pistas acerca de futuras decisões de política monetária, o presidente do BCE sublinhou o papel central que a investigação económica deve ter nas decisões de política e as dificuldades em actuar num mundo em mudança.

 

Numa intervenção em Lindau (Alemanha) perante 17 prémios nobel e 350 jovens economistas, Draghi disse tirar cinco lições desta crise. Uma delas é a necessidade de os responsáveis políticos se ajustarem às novas realidades pós-crise financeira de 2008. "Quando o mundo muda - como mudou há dez anos - as políticas, principalmente a política monetária, precisa de se ajustar", afirmou. "Esse ajustamento nunca é fácil e exige uma avaliação honesta de novas realidades, com olhos abertos, sem o peso de antigos paradigmas que perderam o seu poder de explicação."

 

Durante o discurso, o banqueiro defendeu o papel da investigação e a existência de uma ligação estreita entre as conclusões da academia e a actuação política. Em específico referiu o quantitative easing (programa de compra de activos), que teorias anteriores assumiam ser ineficaz, mas que investigação mais recente concluiu ter impacto. "Compras de activos em larga escala podem aliviar os constrangimentos e aumentar o perfil de risco dos investidores, levando a um reequilíbrio do portefólio na direcção de activos mais arriscados e um fortalecimento da actividade de crédito dos bancos", apontou. "Em resumo, a investigação confirmou que os bancos não estão impotentes no limite mínimo [de taxas de juro]. Desde que que estejam dispostos a explorar possibilidades de política não-convencionais, podem continuar a cumprir o seu mandato de estabilidade de preços, mesmo nas condições mais adversas."

 

Se as dúvidas sobre fazer ou não QE estão hoje mais dissipadas, os últimos anos levantaram novas questões para as quais ainda faltam respostas claras. O BCE, por exemplo, não está a conseguir colocar a inflação perto do seu objectivo (próximo de 2%) mesmo com um crescimento económico relativamente robusto. Estes desenvolvimentos têm colocado em causa relações antigas entre a evolução dos preços e a actividade económica e o emprego. Nos Estados Unidos, esse dilema tem surgido de forma ainda mais explícita: apesar de a economia estar numa situação de quase pleno emprego, a inflação não está a acelerar.

 

"Temos de estar cientes dos 'buracos' que ainda existem no nosso conhecimento", avisou Draghi. "Keynes é normalmente citado como tendo dito 'quando os factos mudam, eu mudo de opinião. E o que faz o senhor?' Para os decisores políticos não é assim tão simples e a investigação ajuda-nos a decidir se uma mudança nos factos merece uma resposta política ou se devemos olhar para além dela."

 

Este discurso é uma espécie de aperitivo para a intervenção do presidente do BCE esta sexta-feira em Jackson Hole, durante a conferência anual da Reserva Federal dos EUA. Esperam-se mais indicações sobre o futuro do programa de compra de activos, que expira no final deste ano. Nos próximos meses, o BCE deverá indicar se o pretende estender ou começar a recuar.




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mais votado Anónimo Há 12 horas

A manutenção de juros baixos, que é uma medida perfeitamente aceitável no contexto inerentemente deflacionista (aumentavam-se juros no passado, por vezes tremendamente, para combater a inflação em economias "sobreaquecidas") das economias avançadas do mundo desenvolvido motivado pelo progresso da tecnologia e o preço decrescente das matérias-primas, tem de ser encarado como resultado do corrente processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital. Dito isto, estes juros baixos servem como incentivo a este processo de substituição. Economias que usam este incentivo e esta conjuntura para se sobreendividarem por via do excedentarismo, da remuneração excessiva e injustificável de factor trabalho muito acima do preço de mercado e portanto encetando um caminho oposto ao processo de substituição descrito anteriormente estão a criar e a adensar futuros problemas de equidade e sustentabilidade para as suas populações. E não há dúvida que a portuguesa é uma delas.

comentários mais recentes
Anónimo Há 12 horas

O trabalho por si só, em particular o assalariado, já não é uma boa medida para aferir a saúde de uma economia nem a sua evolução à escala temporal, mas antes o trabalho e o capital sejam medidas mais correctas, porque para além dos salários pagos a quem oferece factor trabalho no mercado de trabalho, os agentes económicos, especialmente quanto mais desenvolvida for a economia onde residem, obtêm cada vez mais rendimentos e criam cada vez mais valor através dos lucros, rendas, mais-valias, dividendos, propriedade intelectual e juros (que podem ser negativos), que constituem cada um deles o objecto do seu respectivo mercado.

Anónimo Há 12 horas

O maior processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital da história da humanidade está-se a dar no mundo desenvolvido. Certos países podem, artificialmente, de modo fantasioso e inconsequente, atrasá-lo temporariamente a nível interno decretando aumentos salariais muito acima do preço de mercado e instituindo arranjos laborais intocáveis para toda a vida. A consequência disso será o aumento insuportável do endividamento excessivo e da carga tributária, que incidirão negativamente sobre o nível e qualidade de vida de toda ou uma grande parte da população adulta actual e futura, elevando o atraso e os níveis de iniquidade e insustentabilidade nesses países para patamares indecorosos dignos dos Estados falhados do chamado Terceiro Mundo.

Anónimo Há 12 horas

Portugal é uma das raras excepções pela negativa, tal como todos os países mal geridos e em maiores dificuldades do mundo desenvolvido, no tocante ao processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital. Não será estranho portanto ser um país sob constante ameaça de falência.

Anónimo Há 12 horas

A manutenção de juros baixos, que é uma medida perfeitamente aceitável no contexto inerentemente deflacionista (aumentavam-se juros no passado, por vezes tremendamente, para combater a inflação em economias "sobreaquecidas") das economias avançadas do mundo desenvolvido motivado pelo progresso da tecnologia e o preço decrescente das matérias-primas, tem de ser encarado como resultado do corrente processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital. Dito isto, estes juros baixos servem como incentivo a este processo de substituição. Economias que usam este incentivo e esta conjuntura para se sobreendividarem por via do excedentarismo, da remuneração excessiva e injustificável de factor trabalho muito acima do preço de mercado e portanto encetando um caminho oposto ao processo de substituição descrito anteriormente estão a criar e a adensar futuros problemas de equidade e sustentabilidade para as suas populações. E não há dúvida que a portuguesa é uma delas.

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