Economia Economia turca recua pela primeira vez em sete anos

Economia turca recua pela primeira vez em sete anos

O golpe falhado de Julho esmagou o consumo interno, as exportações e as receitas do turismo no terceiro trimestre. A performance económica pode atrapalhar os planos de reforço do poder do presidente Erdogan.
Economia turca recua pela primeira vez em sete anos
Murad Sezer/Reuters
António Larguesa 12 de dezembro de 2016 às 14:50

A economia da Turquia encolheu 1,8% no terceiro trimestre, face ao período homólogo, registando assim a primeira contracção desde 2009. Os dados divulgados esta segunda-feira, 12 de Dezembro, mostram que esta quebra foi provocada sobretudo pelo recuo de 3,2% no consumo doméstico privado e também de 7% nas exportações.

 

As estatísticas oficiais superam assim as previsões da generalidade dos analistas, como os dez consultados pelo The Wall Street Journal que tinham estimado uma diminuição de 0,4% no PIB. E confirmam a deterioração económica num país em que a cotação da moeda está em queda livre, a inflação permanece alta e os consumidores fecharam a carteira.

 

Depois de arrancar o ano com um crescimento acumulado de 4,5% no primeiro semestre, o golpe falhado contra o presidente Recep Tayyip Erdogan, a 15 de Julho, levou os turcos a reduzir as compras, conduziu à perda de milhares de postos de trabalho e afectou indústrias-chave no país. As exportações caíram 7% e o turismo perdeu receitas também devido aos repetidos ataques bombistas no território e ao prolongado conflito diplomático com a Rússia.

 

O vice-primeiro-ministro, Mehmet Simsek, garantiu esta segunda-feira que as autoridades de Ancara "tomaram as medidas necessárias para [travar] esta contracção temporária da economia", tentando assim acalmar os investidores com o argumento da solidez das finanças públicas e do sector financeiro, capaz de aliviar os choques económicos.

 

No entanto, na sequência da publicação destes dados, a lira turca voltou a cair 1,8% para 3,5485 face ao dólar – um nível próximo do valor mais baixo de sempre –, sendo que este ano já perdeu perto de um quinto do valor em relação à divisa americana. O Financial Times assinala que, a par do peso mexicano, é uma das moedas com piores performances em 2016.

 

A 24 de Novembro, o banco central turco subiu os juros pela primeira vez desde 2014, uma medida vista então como uma tentativa de travar as sucessivas quedas do valor da lira e transmitir confiança ao mercado sobre a capacidade de actuação da autoridade monetária. Mas nesse mesmo dia, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução para congelar as conversações com vista à adesão turca ao projecto europeu, depois de 11 anos de negociações.

 

Com a divulgação dos dados do terceiro trimestre, os juros das obrigações dispararam para máximo histórico e a bolsa recuou mais de 1%. Em Setembro, a agência Moody’s tinha cortado o rating para o nível de "lixo", evidenciando "preocupações sobre a previsibilidade e a eficácia das políticas governamentais".

 

Numa altura em que o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), apoiado pelos nacionalistas, prepara um referendo constitucional para abolir o cargo de primeiro-ministro e concentrar os poderes executivos no presidente – além de garantir que, caso vença as eleições daqui a dois anos, Erdogan possa manter-se no poder até 2024 –, o arrefecimento da economia pode retirar apoio popular a este plano.


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