Merkel e Sarkozy reúnem-se esta tarde em Estrasburgo. O italiano Mário Monti juntar-se-á a um encontro pode marcar uma viragem radical na estratégia de combate a uma crise que já começou a chamuscar a própria Alemanha. O bombeiro de serviço – o BCE – pode ser chamado a usar "full power". E mesmo as eurobonds podem deixar de ser tabu.

A chanceler alemã e o presidente francês reúnem-se ao início desta tarde em Estrasburgo, num encontro em que
Nicolas Sarkozy voltará à carga com o velho argumento francês de que a crise da dívida só poderá ser travada se o
Banco Central Europeu (BCE) vier a terreiro garantir que, tal como está a fazer para os bancos, não deixará os Estados do euro “secarem” por falta de financiamento ou juros proibitivos.
Os argumentos franceses serão secundados por Mário Monti, o novo primeiro-ministro de
Itália, que recorrentemente tem defendido a necessidade de tornar mais robustos os mecanismos de defesa do euro contra os humores dos investidores financeiros.
A mini-cimeira, que reunirá os três grandes do euro, que representam quase 50% do PIB da união monetária, ocorre um dia depois de a Alemanha não ter conseguido colocar no mercado 35% da dívida que queria vender, na operação menos bem sucedida da era do euro.
O desaire na Alemanha é o último episódio de uma crise que, nas últimas duas semanas, atingiu em pleno o coração do euro. Depois de se ter espalhado a Espanha e Itália, que se viram forçadas a pagar aos investidores mais de 6% por nova dívida, países como Áustria e
Finlândia – com boas credenciais e histórico em matéria gestão das finanças públicas – estão já com diferenciais de taxas de juro (“spread”) face à Alemanha em valores históricos.
Alemanha mais isolada
“Se nenhuma medida funcionar, será necessário reflectir também sobre o papel do
BCE ou sobre um papel mais importante do FMI”, afirmou ontem a ministra finlandesa das Finanças, Jutta Urpilainen, que até agora seguia a linha dura da ortodoxia alemã.
“Há urgência (sobre uma intervenção o BCE). Vamos falar sobre isso em Estrasburgo. Penso e espero que a reflexão vai evoluir e que o BCE deve jogar um papel essencial para restabelecer a confiança”, confirmou já esta manhã, aos microfones da France Inter, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros , Alain Juppé.
Até agora a Alemanha tem oferecido total resistência à possibilidade de o BCE funcionar como credor de último recurso dos Governos. O argumento de fundo é que não faz sentido os aforradores alemães perderem dinheiro através da inflação que seria alimentada por uma política de impressão de moeda destinada a financiar Estados que, estão como estão, porque viveram acima das suas possibilidades.
Para
Berlim, o mandato do BCE é um e é intocável: controlar o crescimento dos preços. O segundo argumento, formal, é que os Tratados vedam expressamente a possibilidade de o BCE financiar Estados.

Mas a escalada vertiginosa da crise – que mais do que uma crise da dívida, parece ser uma crise de confiança na viabilidade do euro e do projecto político europeu – estará prestes a derrubar o “dogma” da Alemanha em torno da inflação – e não só.
Segundo escreve hoje o Financial Times, os advogados do BCE estão a analisar várias possibilidades e, no limite, poder-se-á argumentar que um compromisso público no sentido que de a autoridade monetária irá intervir nos mercados para limitar o “spread” – cada vez mais cavado - entre as taxas de juro cobradas à Alemanha e aos restantes países do euro “é inteiramente compatível com o mandato do BCE de combater a inflação”.
Ou seja, o BCE pode intervir no mercado, sem que isso tenha de ser precedido de negociações longas e arriscadas para alterar o seu mandato. É provável, no entanto, que
Angela Merkel exiga que qualquer "guinada" nesse sentido seja previamente escrutinada pelo seu
Tribunal Constitucional.
Mesmo a ideia de lançar obrigações europeias – ainda que seja um projecto de mais longo prazo –
poderá começar a fazer caminho.
“É claro que se a Zona Euro adoptar um plano para os eurobonds a situação nos mercados vai acalmar durante alguns meses”, reconheceu ontem o ministro alemão das Finanças, Wolgang Schäuble.
Antes disso, será no entanto fundamental garantir novas transferências de soberania e uma muito mais forte responsabilização dos Governos que ousem prevaricar. E essas mudanças, Berlim quer ver escritas na “pedra” – num novo Tratado.