Política Monetária Está aí alguém? Daqui é o seu banqueiro central e gostaria de falar consigo

Está aí alguém? Daqui é o seu banqueiro central e gostaria de falar consigo

Quando se viram em aperto na crise e já sem munições convencionais, os banqueiros centrais recorreram às palavras como nunca e acabaram surpreendidos pela seu poder. Draghi, Jellen, Carney e Kuroda partilharam lições.
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Rui Peres Jorge 14 de novembro de 2017 às 22:20
Palavra de banqueiro central nunca valeu tanto, e na terça-feira os quatro mais poderosos do mundo juntaram-se para debater esta revolução na política monetária internacional. O esgotamento dos outros instrumentos, seja porque os juros não podem ser negativos (ou raramente podem), seja porque as crises têm uma grande dimensão de confiança, trouxe as palavras e a comunicação dos banqueiros para a linha da frente da política internacional. Exemplos não faltam.

Há umas semanas o Negócios garantiu que os portugueses podem esperar juros baixos até 2019, porque o BCE continua a usar "forward guidance", um instrumento de política introduzido em 2013 que procura influenciar a economia não pelas taxas de juro, mas pelas palavras sobre a orientação futura da política monetária. Em 2012, Mario Draghi poderá bem ter evitado o colapso da Zona Euro com uma simples frase: "faremos o que for preciso" para proteger o euro, disse. E do lado de lá do Atlântico, Ben Bernanke foi desagradavelmente surpreendido em 2013 pelas ondas de choque negativas que enviou a todo o mundo com um discurso sobre a provável redução do ritmo de compras de activos nos EUA.

Ontem, Mario Draghi subiu ao palco em Frankfurt ao lado de Janet Yellen (Reserva Federal dos EUA), Mark Carney (Reino Unido) e Haruhiko Kuroda (Banco do Japão) para debater a importância da comunicação, incluindo directamente com as famílias e as empresas.

"A orientação futura da política monetária tornou-se num instrumento completo da política monetária (...)  em particular quando as taxas de juro estão em zero", afirmou Mario Draghi, que mais à frente no debate partilhou uma das lições que tira da sua famosa frase em 2012: "A transparência melhora dramaticamente a transmissão da política monetária" que não funcionava na altura, disse, defendendo que os banqueiros centrais – por serem "poderosos, independentes e não eleitos" – têm especiais obrigações de comunicação, até para sua própria defesa: "Temos de tornar claro que funcionamos dentro do nosso mandato , e que este que nos foi dado por políticos eleitos". No esforço de comunicação, todos os canais são importantes, e o BCE está "a usá-los todos", garantiu, referindo o milhão de acessos por mês ao seu site, e os 400 mil seguidores no Twitter.

Os parceiros de painel alinharam pela relevância crescente da comunicação com base nas suas experiências. No Japão, que há 20 anos luta contra o risco de deflação, "a melhor política de comunicação é explicar de forma clara e directa os instrumentos e os objectivos da política monetária, de forma a que possa ser entendida por especialistas, mas também pelo público em geral", defendeu Haruhiko Kuroda, que deixou uma avaliação sobre o "forward guidance" que poderá ser vista por alguns como um aviso para a Zona Euro, onde a inflação teima em não subir: "Funciona, mas no Japão as expectativas de inflação são principalmente retrospectivas", afirmou, relativizando o poder das palavras face aos dos resultados efectivos do banco central.

Janet Yellen revisitou as palavras de Bernanke em 2013 sobre o programa de compra de activos da Fed que fez disparar os juros nos EUA e desestabilizou várias economias emergentes, reconhecendo foram "muito surpreendidos" pelos efeitos. Da experiência tira duas lições: a importância de preparar muito bem alterações de política; e de  definir claramente em cada momento o que o banco central espera para cada um dos seus instrumentos (compras de activos,  mas taxas de juro, e outros).

Tal como Draghi e Kuroda, a presidente da Reserva Federal reconheceu a importância de comunicar com a população. "Tentamos explicar não apenas a nossa visão sobre a economia, mas também os objectivos que tentamos atingir. Para o público em geral o mais importante acaba por ser o que tentamos atingir", reflectiu.

Mark Carney foi entre os quatro o que mais importância deu aos novos canais de comunicação com o público. "Sem querer minimizar o Financial Times, o FT tem 300 mil leitores, e o Facebook tem 30 milhões de utilizadores no Reino Unido", afirmou, destacando a relevância do Twitter, do blogue da instituição ou das visitas a escolas. "No fim, comunicamos [por todos os canais] para chegar a quem servimos em primeiro lugar": as famílias e as empresas.



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