Saúde Sustentável Farmácia da Cumieira: para grandes males, “arrumados” remédios

Farmácia da Cumieira: para grandes males, “arrumados” remédios

A farmácia de Fafe desenvolveu um sistema personalizado de dispensa de medicamentos para resolver o problema da falta de adesão terapêutica, que ajudou também a manter o negócio e os empregos no período da troika.
Farmácia da Cumieira: para grandes males, “arrumados” remédios
Pedro Trindade
António Larguesa 18 de setembro de 2017 às 11:00

Esquecimento, falta de dinheiro, descrença na eficácia, receio dos efeitos secundários, confusão entre marcas e genéricos, duplicação da adesão terapêutica. Os motivos podem ser vários, mas a problemática está bem identificada – e espera-se que razoavelmente calculada – pela Organização Mundial de Saúde: cerca de 50% dos utentes não tomam os medicamentos correctamente.

Para ajudar a responder a esta "questão de saúde pública", que Olga Baptista alerta que deve envolver todos os profissionais de saúde, a indústria farmacêutica e os decisores políticos, a directora técnica e uma das proprietárias da Farmácia da Cumieira, em Fafe, impulsionou um serviço farmacêutico para auxiliar a correcta administração dos medicamentos, melhorar a adesão à terapêutica e diminuir os problemas relacionados com a medicação.

Os alvos preferenciais da designada Preparação Individualizada da Terapêutica (PIT) são os idosos polimedicados, que tomam cinco ou mais medicamentos por dia, e as pessoas com doenças crónicas, já que "não tem aquela percepção da melhoria e acabam por facilitar". O programa começa na avaliação do perfil fármaco-terapêutico do utente, prossegue com a elaboração de um mapa terapêutico e materializa-se com a preparação do blister semanal que contém a medicação para toda a semana, distribuída pelos vários momentos do dia. E como esse dispositivo organizador é devolvido à farmácia, "é fácil visualizar se houve falhas e consegue-se controlar a adesão à terapêutica", explica a farmacêutica Magda Gonçalves.
  

CASO DE INOVAÇÃO

SOFTWARE MEDS

Quatro anos após o serviço estar no terreno, a equipa da farmácia percebeu que precisava de sistematizar todo o processo, que até ali era feito manualmente – desde os mapas terapêuticos aos pedidos de receituário. Até que, em 2015, surgiu a plataforma digital MEDS (Medication Made Easy), que Olga Baptista ajudou a desenvolver como consultora. 

Criada pela Striknowledge, uma start-up bracarense liderada por Nuno Cardoso, esta inovação veio facilitar a comunicação entre todos os intervenientes, ajudar na preparação dos blisters e também na gestão de stocks. O docente da Universidade do Minho referiu que está a negociar o alargamento deste software com o Ministério da Saúde, Associação Nacional de Farmácias e União das Misericórdias.


Embora hoje esteja a ser replicado em vários locais, o projecto era inovador quando arrancou, em Janeiro de 2011, na unidade de cuidados continuados de Nespereira, em Guimarães. Seguiram-se outras instituições, como lares de idosos, e a farmácia chegou a ter 250 utilizadores deste sistema. O número actual ronda centena e meia, incluindo os chamados utentes de balcão, a quem o serviço foi alargado há dois anos. Por achar que está aí "a grande falha" e porque o grande volume dos institucionalizados (ganhos ou perdidos) complica a gestão interna da farmácia, o foco está agora nesses clientes, que até são mais fáceis de fidelizar.

"O farmacêutico tem um papel importantíssimo na gestão da terapêutica, até pela grande facilidade no contacto com a população. É importante que esteja presente e faça parte do circuito do medicamento", sintetiza Olga Baptista.

Medida anti-crise

O preço do sistema personalizado de dispensa de medicamentos é de 15 euros mensais. "Não paga os custos", mas mesmo assim "não é fácil [de pagar] para alguns utentes idosos". A gestora, 41 anos, defende a comparticipação do Estado na adesão a este serviço, que deveria ser prescrito pelo médico se entender que pode haver um problema na adesão terapêutica e na continuidade na medicação.

Do ponto de vista do negócio da Cumieira, situada na rua com o mesmo nome que liga o centro de Fafe e a zona industrial, a PIT foi também uma resposta à crise que começou a sentir ainda antes da chegada da troika. Essa "porta de entrada" em vários clientes institucionais ajudou a equilibrar as vendas e contribuiu para que "não [tivessem] de despedir nenhum funcionário". A equipa, hoje com sete pessoas, somou depois outras fontes de receita, como consultas de nutrição ou o "Farma Drive", que circunda a vivenda minhota.

Manuela Mendes foi uma das clientes regulares conquistadas a partir deste serviço, que há dois anos prepara toda a medicação para o seu pai. Depois de sofrer um AVC, toma mais de uma dezena de medicamentos por dia. Para esta funcionária de um laboratório de análises clinicas e para os três irmãos que também ajudam a mãe nos cuidados com Manuel Mendes, "isto é um descanso".

a figura

Magda Gonçalves. Farmacêutica

Nascida há 30 anos em Angra do Heroísmo, nos Açores, Magda Gonçalves conheceu a Farmácia da Cumieira nos estágios de Verão que fez durante o curso na Universidade do Porto. Já com o diploma na mão, integrou a equipa em Janeiro de 2011 e, passados três meses, arrancava em Fafe este serviço de preparação dos medicamentos. Ficou "desde logo envolvida no projecto", até por ser numa área (de cuidados farmacêuticos) que sempre lhe interessou e em que acabou por fazer a pós-graduação. A jovem, que acompanhou tudo neste projecto, incluindo a logística, frisa que "só o farmacêutico tem o conhecimento do medicamento, mais nenhum profissional de Saúde o tem".




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