Economia Fernando Lima: José Sócrates construiu uma "poderosa e invisível máquina"

Fernando Lima: José Sócrates construiu uma "poderosa e invisível máquina"

Ao longo das 430 páginas de um livro que "não gostaria de ter escrito", o ex-assessor de Cavaco Silva retoma o polémico episódio das escutas, ataca a "poderosa e invisível máquina" de Sócrates e lamenta a figura receosa e sem carisma em que Cavaco se transformou.
Fernando Lima: José Sócrates construiu uma "poderosa e invisível máquina"
Negócios 07 de setembro de 2016 às 10:48

Durante o seu mandato, José Sócrates combinou um "autoritarismo oculto que exercia o seu controlo sobre o Estado, a finança, o sector judiciário e as informações" com uma poderosa e invisível máquina de intimidação que denegria todos quantos se atravessavam no seu caminho. Entre as vítimas, estiveram o então Presidente da República, Cavaco Silva, que não se conseguiria recompor das guerras intestinas e acabou por terminar o seu segundo mandato sem rasgo nem carisma, quase irreconhecível.

 

Esta é uma das teses desenvolvidas por Fernando Lima, ex-jornalista, ex-assessor de comunicação de Cavaco Silva, no livro que vai ser lançado esta quinta-feira em Lisboa, e onde o autor discorre sobre os seus dez anos em Belém, onde passou de homem de confiança a figura ignorada pelo então Presidente da República – e onde não poupa o seu antigo amigo e patrão.

 

Dividido em 19 capítulos, o livro de Fernando Lima dedica quatro ao "caso das escutas", desencadeado em Agosto de 2009 com uma notícia do Público, segundo a qual a Presidência suspeitava estar a ser vigiada.

 

Recordando que na sua desconfiança sobre "uma possível vigilância a Belém" não era uma "voz isolada", citando denúncias de deputados, advogados, juízes e magistrados de "processos incómodos para Sócrates", Fernando Lima detalha situações que lhe permitiram confirmar que se encontrava "sob a mira do poder socialista".

 

"Tive o pressentimento de que o ataque marcava o início de algo mais vasto e perigoso que me estaria destinado. Não me enganei", lê-se logo na introdução do livro, que a Lusa sintetiza. Um mês depois da primeira notícia do Público, o DN revelou que a fonte do Público tinha sido Fernando Lima, publicando um e-mail de um jornalista do Público.

 

"O e-mail chegou ao DN porque houve um intermediário político, ligado ao poder socrático que o transportou", lê-se no livro, onde Fernando Lima também explica que decidiu permanecer em Belém depois de deixar a assessoria de imprensa porque sair era assumir uma culpa que não sentia.

 

No período que antecede este caso, Fernando Lima fala ainda da acção da "central de intoxicação socrática" em outras situações, sublinhando que aos socialistas não interessava "um poder forte em Belém e, muito menos, um Presidente que quisesse passar por impoluto".

 

Cavaco informado das escutas ao genro

Reconhecendo que Sócrates "soube cercar o Presidente", o antigo assessor lembra como as notícias sobre as mais-valias no âmbito do BPN marcaram Cavaco Silva e a sua família.

 

Nas técnicas de desgaste de imagem alegadamente montadas por Sócrates, a excepção era o genro, Luís Montez, em relação ao qual Fernando Lima diz que "não podia deixar de ter a confiança do poder socialista", uma vez que no negócio PT/TVI estava previsto ser-lhe atribuída uma rádio da Media Capital.

 

O envolvimento de Luís Montez no negócio acabou por ditar o seu envolvimento nas escutas do processo Face Oculta, divulgadas em Fevereiro em 2010, mas o caso não apanharia Cavaco de surpresa. Segundo o Diário de Notícias, o então Presidente da República foi previamente informado do sucedido por "um magistrado".

 

Cavaco sem glória nem carisma

No livro, onde Fernando Lima conta as suas memórias de dez anos em Belém e em que faz a sua defesa no chamado "caso das escutas", em 2009, o ex-assessor relata ainda a forma como a sua relação com Cavaco Silva "foi definhando com o tempo".

 

Naqueles que descreve como os "seis anos de sombra" que se seguiram ao seu afastamento, Fernando viu Cavaco transformar-se num "político diferente, quase irreconhecível", quando seria de esperar que, depois de Sócrates ter deixado o Governo em 2011, ganhasse uma "nova energia, livre que ficara de quem lhe movia uma guerra de usura que inegavelmente o fragilizara".

 

"Aos poucos foi desaparecendo a figura do líder forte que conquistara a admiração e o respeito por uma larga maioria dos portugueses, e que se traduziu nas vitórias eleitorais que alcançou, para dar lugar a uma figura receosa, recuada, imperceptível, cujo carisma se evaporou, resume a Lusa.

 

"Não fui o único em Belém que assistiu, com grande frustração, à desconstrução da figura de Cavaco Silva, sem que aparentemente nada fosse feito no círculo para travar a degradação da sua imagem", revela, insistindo na descrição de um chefe de Estado "cada vez mais fechado no seu reduto", num Palácio de Belém onde existia "a paranóia com o segredo".

 




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