Conjuntura FMI: O trabalho está a perder terreno para o capital e a culpa é da tecnologia

FMI: O trabalho está a perder terreno para o capital e a culpa é da tecnologia

Nas últimas décadas, os salários perderam peso nas economias mais desenvolvidas. O FMI diz que o principal culpado é o avanço tecnológico, mas também atribui responsabilidades à globalização. Portugal é um dos países onde o trabalho perdeu terreno.
FMI: O trabalho está a perder terreno para o capital e a culpa é da tecnologia
Paulo Duarte/Negócios
Nuno Aguiar 10 de abril de 2017 às 14:05

A tendência é clara: desde os anos 70 o trabalho está a perder terreno para o capital. Isto é, a percentagem do rendimento que vai para os salários está a cair, transferida para outro tipo de rendimentos. Isso é especialmente claro nos países mais desenvolvidos. Entre 1991 e 2014, o peso do trabalho caiu em 29 das 50 maiores economias do mundo (dois terços do PIB mundial). O Fundo Monetário Internacional (FMI) argumenta que o progresso tecnológico e a robotização são responsáveis por metade dessa degradação. 


Nas economias avançadas - onde está integrado Portugal - o peso dos salários começou a afundar na década de 80, atingindo antes da crise financeira de 2008 o seu valor mais baixo em 50 anos e, desde essa altura, ainda não recuperou. Num capítulo de análise do seu mais recente World Economic Outlook, o FMI procura descortinar os motivos para essa perda de relevância.


Os técnicos do Fundo concluem que nos últimos 20 anos, a perda de peso do trabalho tem origem dentro de cada indústria. Isto é, as causas não estão relacionadas com o crescimento de sectores onde o factor trabalho é menos relevante em detrimento daqueles onde ele pesa mais, como por vezes se argumenta. Na realidade, mais de 90% da transformação é gerada por movimentos intra-sectoriais (a China - com uma massiva transferência de trabalhadores da agricultura para a indústria - é uma excepção).

O rendimento do trabalho segue uma trajectória descendente há mais de 30 anos nas economias avançadas:

Portugal é um dos países onde o trabalho perdeu terreno entre 1991 e 2014, com uma quebra de cerca de dois pontos percentuais a cada dez anos, próximo da evolução observada em países como a Holanda, os EUA ou a Turquia. Indonésia, China e Cazaquistão são as economias onde as perdas dos salários são maiores, próximas dos quatro pontos percentuais (a cada década). Malásia, Filipinas, Brasil e Grécia registam os maiores aumentos, entre os três e os seis pontos.

Mas o que está a provocar essa transformação? É difícil separar os vários factores, mas o FMI fez as contas possíveis e concluiu que os avanços tecnológicos são responsáveis por metade da diminuição do peso do trabalho na economia. Identifica dois desenvolvimentos: a diminuição do preço dos bens de investimento e a exposição à automatização. Leia-se, a substituição de trabalho humano por máquinas.


Por exemplo, o aumento da capacidade de computação - cresceu 50% ao ano durante mais de três décadas - deu às empresas a capacidade e o incentivo para automatizar tarefas de rotina. Uma evolução decisiva para a perda de importância dos salários de trabalhadores com qualificações médias. Quantas mais pessoas tiver empregadas nessas tarefas, mais suscetível estará um país à perda de relevância dos salários em favor do capital.


"A análise empírica sugere que cerca de metade da queda do peso do trabalho deverá ter origem no impacto da tecnologia", pode ler-se no documento do FMI. "Para determinada alteração no preço relativo do investimento, economias com elevada exposição a tarefas mais rotineiras sentem quatro vezes mais a queda do rendimento do trabalho do que outras onde a exposição é menor."


O FMI, forte defensor do impacto da globalização, desvaloriza os seus efeitos negativos nas economias e nota que uma maior integração internacional "expandiu o acesso a capital e tecnologia", permtiu "a melhoria das condições de vida e tirou milhões de pessoas da pobreza". Argumenta que a integração em cadeias de valor globais e maior inclusão financeira teve um papel menos relevante na perda de peso dos salários, estimando-o em cerca de metade dos avanços tecnológicos. Políticas públicas e reformas do mercado laboral e de produto são os outros factores em jogo.


Embora seja difícil separar cada um deles, quando estes factores são somados as conclusões são mais robustas: 75% da degradação do peso dos salários na Alemanha e em Itália veio da tecnologia e da globalização. 50% no caso dos Estados Unidos.

O declínio da fatia salarial da riqueza é bastante abrangente, tendo afectado sete dos dez grandes sectores da economia, com especial destaque para as áreas transaccionáveis, como a indústria, os transportes e as comunicações. É dedicada maior atenção à tecnologia de informação e comunicação, que tem contribuído de forma decisiva para a automatização de tarefas mais rotineiras, o que leva à substituição de trabalho por capital.


No passado, a adaptação demorou uma geração

Uma diminuição do peso dos salários não teria necessariamente de ser má para os trabalhadores. A tecnologia podia estar a fazer a produtividade (PIB por hora trabalhada) acelerar mais rápido do que os salários, mas estes também poderiam estar a crescer. O problema é que a produtividade tem crescido a um ritmo lento  e os salários nem sequer conseguem acompanhar essa velocidade de caracol.


Ou seja, o pouco crescimento que existe vai para o capital. Uma vez que o capital está bastante concentrado nas famílias mais ricas, isso resulta ao mesmo tempo num agravamento das desigualdades. "A desigualdade pode fomentar tensões sociais e a investigação recente sugere que pode também penalizar o crescimento económico", referem os técnicos. "À medida que a economia continua a enfrentar um crescimento desapontante, o reconhecimento de que os ganhos do crescimento não têm sido partilhados de forma abrangente tem fortalecido uma reacção contra a integração económica e um maior apoio a políticas de orientação interna."


O FMI explica que aquilo a que estamos a assistir não é propriamente uma novidade histórica. Durante episódios anteriores de industrialização - a primeira e segunda revoluções industriais - observaram-se quebras do peso do trabalho em alguns períodos e entre alguns grupos de trabalhadores. Nessa altura, a desigualdade também aumentou. "Apesar de os efeitos da tecnologia nestas alterações seja difícil de quantificar, o pico histórico da desigualdade (entre o final do século XIX e início do século XX nos países desenvolvidos) eram consideravelmente mais elevado do que é hoje", nota o Fundo, acrescentando que o ajustamento normalmente dura "uma geração".



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mais votado Anónimo 10.04.2017

Numa altura em que a maioria do tipo de empregos prevalecentes na economia portuguesa estão prestes a ser amplamente automatizados por via das inovadoras soluções, extremamente económicas e eficientes, já disponíveis no mercado global, é forçoso saber alertar para mais este erro de estratégia e planeamento que é querer garantir a fantasia verdadeiramente lunática das carreiras e empregos intocáveis e para toda vida, e ao mesmo tempo decretar múltiplos aumentos salariais. É que se elevassem um pouco os salários por via legislativa e regulatória, mas deixassem despedir excedentários num mercado laboral flexível no sector público e privado, tudo bem. A automação levada a cabo num racional e oportuno processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital, dar-se-ia, elevando assim todos os mais cruciais padrões e indicadores económicos da economia portuguesa. Mas impedir o despedimento é condenar mais uma vez a economia portuguesa ao empobrecimento e fracasso.

comentários mais recentes
Anónimo 11.04.2017

Essa da flexibilidade laboral é a maior falácia de todos os tempos. O que os patrões gostavam era contratar à segunda e despedir à sexta. E pagar com uma tijela de arroz.
Quando toda a indústria for automatizada e dispensar os trabalhadores, quem é que lhes compra os produtos? Os marcianos?

Anónimo 10.04.2017

Talvez Portugal esteja a precisar de ainda mais rigidez no mercado de trabalho e nas regras laborais. Assim deixamos a terceira revolução industrial dar-se em todo o mundo, e depois, mais uma vez, importamos, a crédito, tarde e a más horas, o que dela sobrar e nos der o menor valor acrescentado possível e exigir o menor esforço possível. Talvez hotéis e restaurantes automatizados e distribuição de vinho feita por drones...

Anónimo 10.04.2017

Cada vez inventamos mais maquinetas para fazerem o nosso trabalho, mas não queremos que nos roubem o emprego. Ora se as máquinas fazem aquilo para que estão programadas, não refilam, não faltam nem fazem greve, e o capital não é burro...Que se espera? Mas como não comem por nós, dá que pensar...

Anónimo 10.04.2017

É um facto nas economias e sociedades mais evoluídas. Mas em Portugal, o sector público está de mal maneira blindado por preceitos constitucionais e da lei laboral de tal modo anacrónicos, que o trabalho é para toda a vida e sempre a subir, mesmo que já não se justifique e seja suportado pela extorsão e pilhagem continuada aos outros cidadãos e às gerações vindouras.

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