União Europeia Frente-a-frente de Merkel e Schulz: Turquia foi o tema inesperado de união

Frente-a-frente de Merkel e Schulz: Turquia foi o tema inesperado de união

No debate, que está a ser referido a nível internacional como vitorioso para Angela Merkel, a chanceler disse que afinal não quer a Turquia na União. Schultz ouviu com surpresa a declaração, depois de ter dito o mesmo.
Frente-a-frente de Merkel e Schulz: Turquia foi o tema inesperado de união
Alexandra Machado 03 de setembro de 2017 às 23:40
No único frente-a-frente televisivo que terão antes das eleições de 24 de Setembro, Angela Merkel e Martin Schulz tentavam eleitores para a CDU e SPD, respectivamente.

Martin Schulz, mais pressionado por estar atrás nas sondagens, tinha neste debate a sua oportunidade para ganhar momentum para o acto eleitoral. Mas, segundo uma sondagem após o debate, Merkel emergiu como vencedora.

Questionados pela Infratest Dimap para a televisão ARD, 49% dos inquiridos viu Merkel como a mais credível, enquanto 29% optaram por escolher Schulz. Segundo a Reuters, que cita esta mesma sondagem, o desempenho de Merkel no debate foi tido como mais convincente por 55%, o que compara com os 35% de Schulz. Os inquiridos viram Schulz como mais agressivo e próximo das pessoas, enquanto Merkel liderou, segundo as respostas, pela competência e credibilidade.

While viewers rated Schulz as more aggressive and "closer to the people," Merkel had the edge on competence and credibility.

O The Guardian fala mesmo em noite desapontante para Schulz. Continua o jornal dizendo que Merkel não brilhou, mas também não precisava. Merkel e o seu partido lideram as sondagens, incluindo em termos de popularidade. Uma economia forte, escreve a Bloomberg, está a limitar o apetite por mudanças e por discursos populistas que invadiram eleições em todo o mundo contra os referidos como candidatos do sistema em vigor, em eleições desde os Estados Unidos até França.

O debate foi marcado pela questão dos refugiados, mas acima de tudo pela eventual entrada da Turquia na União Europeia, que parece agora mais longe. A chanceler admitiu que tentará pôr fim às negociações com a Turquia para este país ser membro da União Europeia, o que a Reuters diz poder ser uma mudança de posição face ao que tinha anteriormente defendido.

"Está claro que a Turquia não deverá tornar-se membro da União Europeia", declarou Merkel no debate, acrescentando que irá falar com os colegas europeus "para ver se chegamos a uma posição conjunta sobre isto, por forma a que possamos terminar estas negociações preparatórias". 

Ainda não houve reacções da Turquia. O comentário de Merkel surgiu depois de Schulz ter tentado surpreendê-la ao dizer que iria tentar colocar um ponto final nas negociações, caso fosse vencedor nas eleições de 24 de Setembro.

"Se me tornar chanceler, se as pessoas deste país me derem um mandato, então proporei ao Conselho Europeu que terminemos as conversações para a Turquia ser membro", declarou o oponente, candidatos pelo SPD. "Lutarei por isso", sentenciou.

A esta declaração, Merkel começou por pôr panos na fervura, dizendo ser irresponsável terminar os laços com a Turquia no momento em que há prisioneiros alemães naquele país. "Não tenciono romper as relações diplomáticas com a Turquia só porque estamos em campanha eleitoral e queremos mostrar quem é o mais duro", declarou. 

Mas, como conta a Reuters, depois dos moderadores terem colocado uma questão sobre Trump, a chanceler voltou ao tema da Turquia, para falar da cessação das negociações.

O seu partido, acrescenta a Reuters, há muito que se opõe à entrada da Turquia na União. Mas a luz-verde para as negociações foi dada meses antes de Merkel se ter tornado chanceler da Alemanha, em 2005, tendo, depois, respeitado essa decisão.

Voltando a Trump, Schulz acusou-o, , de responsabilidade pelo facto do mundo estar à beira de uma crise, com os seus tweets, dizendo que a Alemanha devia trabalhar com os seus parceiros europeus, com o Canadá, México e com os opositores domésticos de Trump.

Merkel, que se candidata a um quarto mandato, puxou dos galões, dizendo ter falado com o presidente francês sobre a Coreia do Norte e que irá falar com Trump, bem como os líderes da Rússia, China, Japão e Coreia do Sul nos próximos dias. "Não penso que possamos resolver o conflito sem o Presidente americano", disse, acrescentando que, no entanto, "para nós só poderá haver uma solução diplomática em prol da paz". 

No mesmo debate, Merkel voltou a defender as suas políticas, nomeadamente nos resgates financeiros na zona Euro, mas também no que respeita à sua política de abertura de fronteiras para os refugiados. Refutou que as medidas que tomou, nestes dois casos, tenha sido o fósforo que acendeu o crescimento do portido anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD).

No que respeita aos migrantes, Merkel, ainda que admita erros, diz que teria tomado a mesma decisão outra vez. Diz não ter tido muitas alternativas, mas Schulz acusou-a de ter falhado o envolvimento dos parceiros europeus.

Outro momento que o Guardian apelida de tenso no debate foi o respeitante ao aumento das desigualdades na Alemanha, com Schulz a acusar Merkel de ignorar as preocupações com o aumento do custo de vida, nomeadamente o aumento das rendas e a diminuição dos salários, tendo ainda criticado a chanceler pelo continuado apoio à indústria automóvel, apesar do escândalo com as emissões nos carros a gasóleo. Aproveitou, ainda, para reiterar a oposição do SPD à intenção da CDU de duplicar o orçamento da defesa da Alemanha.

Mas como diz o Guardian, o principal desafio de Schulz foi distanciar o SPD da CDU, apesar dos dois partidos terem estado coligados duas vezes sob a administração de Merkel: primeiro entre 2005 e 2009, e outra foi precisamente nos últimos quatro anos.


"Apesar das tentativas de Schulz de apontar para as diferenças, as suas opiniões aparentaram, frequentemente, ser muito idênticas", escreve o Guardian

E este debate era, segundo as sondagens, importante para os indecisos, apontados como sendo metade do eleitorado. Um em cada cinco dos 60 milhões de eleitores disseram, antes deste debate de 90 minutos, que o confronto poderia ajudar a decidir o voto. Esperava-se que o debate fosse visto por 20 a 30 milhões de pessoas, tendo sido transmitido em quatro canais simultaneamente.

Merkel estava, antes de entrar para o frente-a-frente, 14 pontos à frente de Schulz. 




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