Obrigações Greenspan reconhece semelhanças entre alertas para bolhas nas "dotcom" e nas obrigações

Greenspan reconhece semelhanças entre alertas para bolhas nas "dotcom" e nas obrigações

O antigo líder da Fed revisitou a expressão que usou há 21 anos para alertar a iminência de uma possível bolha nos activos tecnológicos - "exuberância irracional" - para classificar os seus mais recentes avisos sobre o mercado de dívida.
Greenspan reconhece semelhanças entre alertas para bolhas nas "dotcom" e nas obrigações
Bloomberg
Paulo Zacarias Gomes 04 de agosto de 2017 às 15:40

O antigo presidente da Reserva Federal norte-americana, Allan Greenspan, reconheceu semelhanças entre o alerta que deixou em 1996 sobre a emergência de uma bolha nas tecnológicas cotadas em Wall Street e a cautela a que aconselhou, no início da semana, para lidar com a situação no mercado de dívida.

Questionado por uma jornalista da CNBC sobre se aqui se pode aplicar a mesma expressão "exuberância irracional", que o ex-líder da Fed usou em 1996 no discurso perante o American Enterprise Institute, Greenspan reconheceu que as questões que está a procurar colocar agora têm semelhanças com as deixadas há 21 anos.

"O que eu estava a tentar dizer nesse discurso em 1996 é que não se sabe quando é que emerge a exuberância irracional. Isso era parte de um discurso mais longo, em que analisava os mercados. Não estava a concentrar-me no curto prazo, mas a imprensa adorou o termo. Questiono-me se foi inteligente colocá-la [a expressão] no discurso," afirmou.

Na terça-feira passada, em declarações à Bloomberg, Alan Greenspan disse que os investidores deveriam estar mais preocupados com o surgimento de bolhas – activos sobrevalorizados – no mercado obrigacionista do que no accionista, já que o actual ambiente de taxas de juro persistentemente baixas, que tem impulsionado o mercado, pode mudar muito rapidamente com a inversão dos estímulos às economias por parte dos bancos centrais.

"Quanto sobem, provavelmente sobem de forma rápida. Estamos a assistir a uma bolha, não no preço das acções, mas sim no preço das obrigações. E isso não está descontado nos mercados," preveniu.

"O real problema é que quando a bolha no mercado de obrigações colapsa, as taxas de juro de longo prazo sobem. (…) Estamos a entrar numa diferente fase da economia – para uma estagflação que não se assiste desde os anos 70. Isso não é bom para os preços dos activos, acrescentou".

Agora, à CNBC, sublinhando que este é um processo que pode ocorrer mas que nunca se sabe quanto é que os mercados vão reagir, Greenspan reconheceu que é "perfeitamente justo" admitir que há uma "exuberância irracional" no mercado obrigacionista. Mas recusou ter indicado qualquer cenário temporal para uma eventual explosão da bolha.

"É um processo perturbador, porque temos de ser muito cuidadosos com as palavras. Se eu ficaria surpreendido se o mercado tivesse caído na altura [das declarações de 1996]? Não, não ficaria. Mas ficaria surpreendido se o mercado tivesse demorado a cair? Não, também não ficaria," responde.

A partir de Março de 2010, quando o índice tecnológico Nasdaq atingiu um pico acima dos 5.000 pontos, a venda massiva de acções por parte das grandes tecnológicas e maus resultados criaram um comportamento de aversão dos investidores, levando no espaço de poucos meses à perda de biliões de euros de valor de mercado das cotadas tecnológicas e ao fim de muitas delas.

De facto, o índice começou a ceder e a bolha tecnológica (conhecida como a bolha das dot.com, por analogia ao apogeu da era da Internet) estoirou, tendo o Nasdaq iniciado um movimento de queda que o fez afundar 78% nos dois anos que se seguiram, passando de 5.046,86 para 1.114,11 pontos.

Só 15 anos depois, em Março de 2010, voltou à fasquia dos 5.000 pontos, tendo em Junho estabelecido um novo máximo histórico. Este ano, tem marcado sucessivos máximos de sempre, o último dos quais a 27 de Julho nos  6.460,84 pontos.

Greenspan esteve 19 anos à frente da Fed, desde 1987 até 2007.




A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
pub