Mundo Guterres, pessimista com a globalização, pede resposta para os refugiados

Guterres, pessimista com a globalização, pede resposta para os refugiados

O secretário-geral eleito das Nações Unidas lamenta a adopção de políticas de fechamento na Europa e avisa que sem uma resposta para o problema dos refugiados "pagaremos um enorme preço" ao nível securitário.
Guterres, pessimista com a globalização, pede resposta para os refugiados
Reuters
David Santiago 22 de Novembro de 2016 às 10:57
A pouco mais de um mês de tomar posse como secretário-geral das Nações Unidas e pouco menos de um ano depois de ter deixado de ser o Alto Comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres voltou a abordar aquele que é "provavelmente o mais dramático desafio que enfrentamos no mundo de hoje": os refugiados.

No âmbito de uma conferência organizada pela Vision Europe Summit e dedicada às crises migratória e dos refugiados na Europa, que decorre esta terça-feira, 22 de Novembro, na Gulbenkian, o secretário-geral eleito das Nações Unidas começou por lembrar que "a migração existe desde o início da história" para depois sustentar que "a migração é parte da solução dos problemas actuais".
 
Na opinião de Guterres, esses problemas decorrem, entre outros factores, do facto de a globalização ser "assimétrica". O antigo primeiro-ministro português mostra-se pessimista quanto à evolução do globalismo, considerando que "a globalização não foi um sucesso como esperávamos" e "muita gente ficou zangada com isso".
 
"Quando entrei no Governo em 1995 havia grande optimismo. O mundo mudou para melhor em muitas coisas, mas muitas pessoas foram deixadas para trás", acrescentou Guterres. No entender do português é isso que explica não só a tendência para o encerramento de fronteiras na Europa, mas também o recrudescimento de fenómenos populistas e extremistas em muitos países do Velho Continente.
 
António Guterres lamenta que o optimismo dos anos 1990 esteja agora a ser substituído por uma "agenda de soberania nacional que está a ganhar terreno". "Em 2016 testemunhamos uma grande deterioração" dos valores até há pouco considerados adquiridos como são exemplo o crescente número de "fronteiras a serem fechadas e de pessoas a serem rejeitadas": "é mesmo negado o direito às pessoas de serem refugiados", critica.
 
Para Guterres verifica-se uma "muito séria deterioração das opiniões públicas em relação à necessidade de proteger os refugiados", sendo que a principal "vítima desta evolução das opiniões públicas são os próprios refugiados". 
 
Possivelmente com os Estados Unidos como pano de fundo, Guterres lembra que "este exemplo começou no mundo desenvolvido, especialmente na Europa e agora está a expandir-se ao resto do mundo".
 
Como tal o ex-líder do Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR) define como "crucial restabelecer a integridade do regime de protecção internacional" e revalorizar os valores. Guterres deixa um conselho aos políticos: "mais cedo ou mais tarde os políticos perdem uma eleição" por isso "o mais importante é defendermos e preservarmos os valores".

Para o fazer o português diz ser "absolutamente essencial criar mecanismos" de realojamento, instalação e gestão de refugiados e "restabelecer a integridade do sistema de protecção legal dos refugiados".

 
"Não gosto de usar a expressão crise europeia dos refugiados"
 
Apesar de o mote para esta conferência se prender com a procura de respostas para enfrentar as crises migratória e dos refugiados na Europa, António Guterres fez questão de sublinhar que "não gosto de usar a expressão crise europeia dos refugiados".
 
Para o futuro líder da ONU este é um problema global que carece de uma resposta também ela global e interdependente. Uma vez que "se não enfrentarmos seriamente este problema pagaremos um enorme preço" ao nível securitário e também humanitário.
 
Nesse sentido Guterres defendeu que "sem migração a sociedade europeia não seria sustentável" pelo que "seria bom reconhecer que [a migração] está cá e veio para ficar". O antigo líder do ACNUR apela, portanto, a um "forte compromisso em integrar os refugiados nas sociedades em que são recebidos".
 
"Assim como a migração é inevitável, é inevitável que a sociedade mundial seja multi-étnica, multicultural e multireligiosa", resume. 
 
Sem esquecer o conflito na Síria, que contribui para que se verifique o número "recorde de deslocados desde a Segunda Guerra", António Guterres sustentou que "a comunidade internacional falhou perante os refugiados sírios". A atitude adoptada por muitos líderes europeus estava claramente na mira do português.



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mais votado JCG Há 2 semanas

Este problema não pode continuar a ser encarado de forma demagógica.
Não se deve confundir apoio a refugiados com recepção de emigrantes.
E é isso que está a acontecer com os fluxos de indivíduos a chegar à Europa.
Refugiados apoiam-se e protegem-se. Temporariamente. Não se integram.
Portugal tem o dever, por solidariedade, de apoiar refugiados.
Mas acolher e integrar emigrantes é assunto do foro exclusivo dos portugueses. Sem demagogia. São os portugueses que têm ou devem ter o poder exclusivo de decisão sobre os imigrantes e sobre as condições e requisitos de acesso e instalação em Portugal.
Não tornar isto claro é semear - irresponsavelmente - problemas para o futuro.

comentários mais recentes
Gonçalo Há 2 semanas

"Assim como a migração é inevitável, é inevitável que a sociedade mundial seja multi-étnica, multicultural e multireligiosa", resume.
Inevitável... Curioso como a retórica liberal, alegadamente tão aberta à pluralidade de opiniões, apresenta a sua opinião como a ÚNICA possível...

escravo branco a sustentar ciganos, xulos e moinan Há 2 semanas

OS REFUGIADOS QUEREM É ANDAR A PASSEAR E RECEBER SUBSIDIOS A CUSTA DOS CONTRIBUINTES
QTOS REFUGIADOS ESTÃO A TRABALHAR EM PORTUGAL E NA EUROPA?
EU ESTOU FARTO DE SUSTENTAR CIGANOS QUE ESPANHA MANDOU PARA CÁ
OS DEFENSORES DA MALANDRAGEM QUE OS LEVEM PARA CASA DELES

f publico condenado a 48 anos trabalho e c/ 43 de Há 2 semanas

qtos refugiados levou o sr. eng. Guterres para casa dele?
que obrigação tenho eu de sustentar refugiados que passam dias e noites a fazer filhos e brincar com telemovel?
por que razão os refugiados não vao a contas com o chefe deles? presidentes e afins?
em portugal ja ha muitos ciganos à pala

JCG Há 2 semanas

Há dias li uma extensa reportagem no jornal Diário do Alentejo sobre 3 jovens sírios de 18 a 23 anos que estavam a viver SE&O no Alvito e retive algumas coisas: 1ª a quantidade de gente preocupada e envolvida no apoio a esses indivíduos e dizendo que os queria integrar; 2ª a preocupação que os 3 diziam ter com as suas famílias que tinham ficado nas suas terras; 3º a sua intenção declarada de ficar em Portugal e de arranjar forma de trazer as suas famílias. Um desses indivíduos, o mais novo, parece ter problemas de saúde e em relação a esse tudo bem. Mas esta reportagem suscitou-me várias linhas de reflexão. A 1º é que eu no lugar deles e numa situação idêntica não teria dado o fora e abandonado a minha família, supostamente indivíduos mais indefesos. A não ser como retirada estratégica para me organizar e preparar para combater os maus do filme. Esses tipos não só revelam cobardia e egoismo como falta de apego à sua terra, esperando que outros sem nada a ver resolvam o seu problema.

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