Economia Incêndios: Lições de 2017 continuam por aprender

Incêndios: Lições de 2017 continuam por aprender

Os fogos catastróficos de 2017 em Portugal "trazem muitas lições" sobre o que fazer frente aos incêndios, mas "vê-se que não foram" suficientemente aprendidas, alerta Domingos Xavier Viegas, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra.
Incêndios: Lições de 2017 continuam por aprender
Negócios com Lusa 28 de julho de 2018 às 11:16

Investigadores ouvidos pela agência Lusa consideram que os incêndios florestais catastróficos de 2017 fizeram muitos portugueses perceber o risco real dos fogos, mas continuam por aprender muitas lições e onde devia haver autoprotecção, há desconhecimento e pânico.

 

Para Domingos Xavier Viegas, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, os fogos catastróficos de 2017 em Portugal "trazem muitas lições" sobre o que fazer frente aos incêndios, mas "vê-se que não foram" suficientemente aprendidas.

 

A fuga em contramão de dezenas de condutores na A12 por causa do pânico causado pelo fumo de um incêndio em Pinhal Novo, no sábado passado, é um dos "indícios de que há lições que deviam ter sido aprendidas".

 

O ex-presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses Duarte Caldeira, do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil (CEIPC), afirma que nesse caso, "o pânico gerou comportamentos de risco"

 

Duarte Caldeira reconhece que o programa "Aldeias Seguras, Pessoas Seguras", da Autoridade Nacional de Protecção Civil, significa que "30% ou 40%" da população que vive em zonas rurais sabe hoje mais sobre o que fazer em caso de incêndio, mas o alvo da informação devia mesmo ser "os dez milhões de portugueses".

 

"Não devemos entrar em autosatisfação nem glorificar medidas, para já, porque chegam tarde. Se ainda estamos à procura delas, é prova de que estamos atrasados", afirmou.

 

Domingos Xavier Viegas defende que a maneira mais eficaz de difundir mensagens de consciência de risco é ainda "a rádio e a televisão", afirmando que tem visto "muito pouco feito com pés e cabeça" no que toca a campanhas de grande difusão.

 

"Felizmente, temos tido um verão benigno, mas é uma falha grande não haver uma campanha de fundo. Já estamos a perder algum tempo", avisou.

 

A campanha das Aldeias Seguras pode chegar a "um público muito restrito", mas há muito a fazer, porque, sobretudo, para se evitarem mortes "em circunstâncias que podem acontecer a qualquer pessoa", mesmo que não seja habitante do espaço rural, mas aí esteja, como por exemplo os turistas que atravessam o país.

 

Para Duarte Caldeira, há um claro "défice de medidas de autoprotecção", mesmo em serviços públicos, como os tribunais que funcionam com elevadores inseguros.

 

Num inquérito que conduziu com 500 pessoas, "80% não sabiam manusear um extintor", ilustrou.

 

"Saber lidar com a diversidade dos riscos, qualquer que seja a sua natureza" deve ser a meta, defende, ilustrando que tem que haver "um processo de educação e participação da população, com adequação dos instrumentos ao meio e ao perfil cultural de cada comunidade", defende.

 

A falta de cultura de autoprotecção também afecta áreas como "a condução rodoviária, o risco de incêndio urbano" e vê-se na "ausência de uma cultura de socorro e de domínio do suporte básico de vida", considerou.

 

Na campanha das aldeias seguras, divulgada pela Autoridade Nacional de Protecção Civil em 12 anúncios de rádio, 13 anúncios televisivos, folhetos desdobráveis e cartazes, a informação tinha no mês passado chegado a 700 localidades dos 189 concelhos com freguesias rurais mais sujeitas ao risco de incêndio.

 

O primeiro conselho é ligar "de imediato para o 112", lê-se nas instruções da campanha (disponíveis em www.prociv.pt/pt-pt/paginas/avisos.aspx?detailId=71), que apela às pessoas que se vejam próximas de um incêndio para que não prejudiquem a acção dos bombeiros e, no caso de o fogo ameaçar a sua casa, que avisem os vizinhos, cortem o gás e molhar paredes e arbustos à volta da habitação.

 

Caso o fogo cerque a área em que se encontra, toda a gente deve procurar um "abrigo ou refúgio colectivo" e, na falta deles, "uma zona preferencialmente plana, com água ou com pouca vegetação".

 

Um lenço húmido para proteger a cara do calor e dos fumos são outros recursos de protecção, mas na campanha apela-se para se fazer trabalho de casa pensando antes do fogo chegar.

 

As casas devem estar preparadas para "uma saída rápida", com saídas desimpedidas, portas fáceis de abrir e caminhos de saída e pontos de encontro comuns combinados de antemão entre as famílias.




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