João Salgueiro: "Acordo da troika tem falhas que estão à vista"
14 Agosto 2012, 10:15 por Jornal de Negócios Online | negocios@negocios.pt
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João Salgueiro, economista, diz que Portugal não devia adiar o acordo com a troika, mas admite que o devia negociar. Mas para o ex-ministro das Finanças há que pensar no crescimento e ainda deixa a sua opinião sobre o Tribunal Constitucional: "Igualdade entre o sector público e o sector privado? Não faz sentido".
João Salgueiro já foi presidente do PSD e já foi presidente da Caixa Geral de Depósitos e ministro das Finanças. Diz que viu com pesar o pedido de ajuda externa de Portugal. Mas para João Salgueiro, que liderou, ainda, a Associação Portuguesa de Bancos (APB), "a culpa é antes de mais da classe dirigente e indirectamente de quem apoia soluções e programas de facilidade".

O acordo com a troika, para este responsável, que dá esta terça-feira uma entrevista ao "Público", "tem aspectos positivos, mas tem falhas que estão à vista. A Irlanda ainda negociou e conseguiu manter regimes fiscais que encorajam o investimento produtivo. Se Portugal começar a crescer a 3% ou 4% não haverá qualquer problema".

No entanto, Portugal enfrenta vários desafios. "É claro que é mais necessário reduzir despesa do que recorrer a nova receita. Mas como? É credível reduzir as despesas da Saúde? É credível reduzir as despesas com a Educação? Pagar pior aos reformados, já tão mal pagos? Despedir funcionários? Pergunto: onde é que se vai reduzir a despesa do Estado?".

Uma pergunta sem resposta, acreditando João Salgueiro que há condições para cumprir as metas impostas pela troika, mas "com maiores custos para o país. Será que há medidas menos onerosas?".

Para este economista, "não é possível reduzir a despesa sem reduzir salários e pensões, ou então, despedindo pessoas". O Tribunal Constitucional, diz João Salgueiro, não percebeu isso. "E o facto de órgãos de soberania não perceberem os desafios que temos pela frente é preocupante. Igualdade entre o sector público e o sector privado? Não faz sentido. No privado há enorme desigualdade entre empresas. Há uma desigualdade imensa entre quem tem emprego garantido, quem está com contrato a termo e quem é pago à hora. O Tribunal Constitucional nunca considerou um problema".

Quanto a Passos Coelho, diz ser "corajoso", "um bom comunicador" e "fez bem em levar a sério o acordo com a troika, pois de outro modo estaríamos a aproximar-nos da Grécia". Não tinha, no seu entender, outra hipótese.

Mas João Salgueiro garante que não pederia mais tempo para cumprir o acordo. "Mas tentaria usar argumentos para baixar os juros e para conseguir da troika eliminar medidas e restrições absurdas. Há dinheiro que sobrou do apoio à banca que devia ser aplicado".

Ainda assim, diz que o Governo está muito focado na consolidação orçamental, faltando conhecer o projecto de crescimento. "[Vítor Gaspar] é um excelente ministro das Finanças, mas não explica a estratégia financeira para a economia".
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