Conjuntura Mercado de trabalho ainda é o maior travão ao bem-estar dos portugueses

Mercado de trabalho ainda é o maior travão ao bem-estar dos portugueses

O bem-estar dos portugueses teve em 2016 o maior aumento dos últimos 12 anos, mas as melhorias na saúde, educação e segurança não estão a ser acompanhadas pelas condições materiais das famílias, que estão ainda abaixo dos níveis de 2004.
Mercado de trabalho ainda é o maior travão ao bem-estar dos portugueses
Miguel Baltazar/Negócios
Nuno Aguiar 04 de novembro de 2017 às 15:00

Os portugueses vivem melhor do que há uma década. O bem-estar da população tem aumentado quase todos os anos, com melhorias na saúde, educação e segurança. Contudo, quando olhamos para as condições materiais, verificamos que elas são hoje piores do que em 2004. O principal responsável é o mercado de trabalho, que ainda está longe de recuperar das perdas dos últimos anos.

 

O indicador de bem-estar calculado pelo INE reflecte duas dimensões: a qualidade vida (ensino, educação, ambiente, participação cívica); e as condições materiais (salário, segurança no emprego, desigualdade). No primeiro vértice, os desenvolvimentos têm corrido relativamente bem, sem quebras desde 2004 e com aumentos sólidos desde 2012. Na vertente material, a história é muito diferente: houve uma degradação profunda entre 2004 e 2013 e a recuperação dos últimos três anos só tapou metade do fosso aberto nesse período. Esse resultado é justificado com o comportamento do mercado de trabalho que, apesar das melhorias recentes, continua a comparar mal com o início da década passada.

 

As condições materiais estão divididas em três campos: trabalho e remuneração; vulnerabilidade económica; e bem-estar económico. "O domínio ‘trabalho e remuneração’ é a componente do bem-estar com evolução mais desfavorável, devido essencialmente ao aumento do desemprego e de outras variáveis com ele relacionadas, que se acentuou a partir de 2009", pode ler-se na publicação do INE.

A quebra é transversal a quase todos os indicadores relacionados com o trabalho. Desde os mais falados, como o desemprego (a taxa estava abaixo de 7%), até aos menos discutidos, como a explosão do subemprego (mais que triplicou), o maior receio em perder o emprego (duplicou a percentagem dos que acham provável) e a desigualdade salarial entre homens e mulheres (também duplicou). Apenas os salários estão hoje melhor do que em 2004.

 

Os portugueses estão também mais vulneráveis economicamente. Neste subgrupo, o indicador com evolução mais preocupante é o número famílias onde nenhuma das pessoas em idade de trabalhar tem emprego (é o dobro do que em 2004). Outro indicador que se agravou de forma significativa foi a "sobrecarga das despesas de habitação".

Por outro lado, o endividamento das famílias já está melhor do que em 2004, assim como o nível de privação material. "O domínio ‘vulnerabilidade económica’ é um dos que apresenta a evolução mais desfavorável ao longo do período em estudo, reflectindo a progressiva vulnerabilidade das famílias induzida pelo afastamento das mesmas do mercado de trabalho, pelos elevados níveis de endividamento e pela intensificação da dificuldade em pagar os compromissos assumidos com a habitação", sublinha o INE.

 

Por último, aquilo a que o INE chama "bem-estar económico" foi o único subgrupo das condições materiais a melhorar face a 2004. Integrados neste índice estão indicadores de consumo, riqueza, património e equidade social. Em praticamente todos se observa uma recuperação.
De onde vem a melhoria de bem-estar?

 

Se as condições materiais estão ainda num nível abaixo de 2004, como é que o bem-estar dos portugueses melhora? A resposta está nos indicadores de qualidade de vida. Aquele que merece mais destaque é a "educação, conhecimento e competências", que melhorou 114% face a 2004. O índice de participação cívica e governação aumentou 48%. Embora a participação eleitoral tenha caído, os indicadores de participação em actividades públicas melhorou consideravelmente. Ao mesmo tempo, no que diz respeito à relação com as instituições, uma menor confiança nos deputados é "compensada" por maior confiança no sistema jurídico.

 

Ainda neste período entre 2004 e 2016, os subgrupos de segurança e de ambiente melhoraram 31%. A saúde 26%. O único índice que está num nível pior do que em 2004 diz respeito às "relações sociais e bem-estar subjectivo".




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mais votado Anónimo Há 1 semana

Digam lá qual a "labor force participation rate". Nos EUA está em níveis mínimos só comparáveis aos da década de 1970. Se analisarmos por género, o indicador está no nível mínimo absoluto para o género masculino desde pelo menos o registo oficial referente a 1948. Em Portugal será diferente?

comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Os salários ou o custo do trabalho em Portugal são mais reduzidos do que noutras economias mais ricas e desenvolvidas do que a portuguesa, mas o que se passa é que aí as empresas gozam de economias de escala que as empresas portuguesas só atingiriam se se internacionalizassem. E o que é facto é que muito raramente isso acontece porque sindicatos e esquerda não deixam que se reúnam as condições para que tal aconteça. Por outro lado, e não menos importante, há que salientar que o sector empresarial dessas economias mais ricas e desenvolvidas tem uma muito maior alocação de capital com grande incorporação de tecnologia de ponta, económica e eficiente, que poupa enormemente em factor trabalho. Uma coisa é ter 200 assalariados a ganhar 1000 outra é ter 50 a ganhar 2000 para produzir o dobro do que se consegue produzir empregando os primeiros.

Anónimo Há 1 semana

As esquerdas unidas quando não matam pelo fogo, matam pelo ferro.

Anónimo Há 1 semana

O geringoceiro é assassino por natureza. Está na sua essência.

Anónimo Há 1 semana

Digam lá qual a "labor force participation rate". Nos EUA está em níveis mínimos só comparáveis aos da década de 1970. Se analisarmos por género, o indicador está no nível mínimo absoluto para o género masculino desde pelo menos o registo oficial referente a 1948. Em Portugal será diferente?

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