Economia Merkel pede resposta europeia ao corte de impostos de Trump

Merkel pede resposta europeia ao corte de impostos de Trump

Em Davos, a chanceler alemã alertou que os países da União Europeia devem "responder com reformas" fiscais às mudanças americanas. E avisou o Reino Unido que o mercado único pressupõe a livre de circulação de pessoas.
António Larguesa 24 de janeiro de 2018 às 15:25

Angela Merkel alertou esta quarta-feira, 24 de Janeiro, que os países europeus vão ter de lidar com um ambiente fiscal mais competitivo, a propósito da reforma fiscal recentemente aprovada nos Estados Unidos, lembrando os esforços que estão a ser feitos pela Alemanha e pela França para criar um regime comum em relação aos impostos que são pagos pelas empresas.

 

Durante uma intervenção no segundo dia do Fórum Económico Mundial, em que a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, destacou Portugal como "excelente exemplo", a chanceler alemã sustentou, citada pela Reuters, que a Europa não deve ficar a lamentar-se quando outros países mexem nos impostos que cobram, devendo antes "responder com reformas" nos seus próprios regimes fiscais.

 

Aquela que é considerada a maior reforma fiscal das últimas décadas nos Estados Unidos, com um custo orçamental na ordem dos 1,2 biliões de euros, baixa de 35% para 21% a taxa de imposto sobre os lucros (o equivalente ao nosso IRC) e elimina a "alternative minimum tax", uma espécie de travão que obrigava as empresas a terem uma tributação mínima de 20%. O sector financeiro e o imobiliário são apontados como os maiores beneficiários no curto prazo.

 

As alterações nas regras e nos estímulos fiscais que Donald Trump conseguiu fazer passar no Senado terão efeitos na maior economia do mundo, mas também nos seus parceiros comerciais, em especial no Canadá e México, durante este período. Isso mesmo foi estimado há dois dias pelo FMI, que no "World Economic Outlook Update" escreveu que esta reforma fiscal contribui para cerca de metade da revisão em alta, para 3,9%, do crescimento global em 2018 e 2019.

 

Em Davos, onde falou na véspera da chegada do líder norte-americano, Angela Merkel assinalou que, em termos de política externa, a União Europeia "deve tomar o destino nas suas próprias mãos". E ao mesmo tempo que disse "lamentar muito" a saída do Reino Unido (Brexit), fez questão de avisar que a pertença ao mercado único pressupõe as suas próprias liberdades, incluindo de movimento dos cidadãos. Precisamente um dos pontos-críticos para os britânicos nas negociações com Bruxelas.

Numa sessão plenária em que referiu que a decisão do Brexit deu à União Europeia a "coragem para seguir em frente" com o projecto europeu e que o mercado único digital deve ser uma prioridade, a líder germânica assinalou ainda a importância do multilateralismo na cena internacional, dramatizando que o mundo parece não ter aprendido as lições da história, numa altura em que se assinala o centenário do fim da I Guerra Mundial.

 

"Aprendemos as lições da história? Realmente não", resumiu Merkel, sublinhando que o multiculturalismo que reconstruiu a Europa e ergueu as instituições internacionais depois da II Guerra Mundial está agora sob ameaça. E deixou um aviso sério sobre as consequências das crescentes políticas isolacionistas. "Fecharmo-nos e isolarmo-nos não conduzirá a um bom futuro. O proteccionismo não é a resposta", concluiu Merkel, que está neste momento a negociar a formação de um governo de coligação com o SPD, liderado por Martin Schulz.




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