Moody"s: "Estamos a olhar com muita atenção" para a banca portuguesa
21 Dezembro 2010, 15:43 por Eva Gaspar | egaspar@negocios.pt
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Numa curta entrevista telefónica, Kathrin Muehlbronner, analista senior da Moody’s em Londres, explica ao Negócios as razões que levaram a agência de "rating" a ameaçar desclassificar a dívida pública portuguesa.
O que é que há de novo que justifique esta perspectiva de revisão em baixa do “rating” da República portuguesa?

Em relação ao crescimento económico, as incertezas que temos não são, de facto, novas, embora tenhamos de ficar mais atentos à evolução das exportações, que tem sido muito favorável e a grande responsável pelo crescimento português, para antecipar se esta é uma dinâmica sustentável no futuro.

O que há de novo é que temos de voltar a olhar outra vez para Portugal – e não só – por causa do sistema bancário. O sistema bancário português está arredado do mercado e se for necessário reforçar os rácios de capital, através de injecções de verbas públicas, para que os bancos possam voltar a aceder ao mercado, teremos naturalmente de ter este possível desenvolvimento em conta nas métricas das finanças públicas portuguesas. Esta é uma área para a qual estamos a olhar com muita atenção.

Por outro lado, os custos de financiamento do Estado português permanecem elevados e se esta tendência persistir teremos também de avaliar o seu impacto.

No vosso relatório, consideram que o recurso de Portugal à ajuda europeia e do FMI até poderia ser positiva, mas logo avisam que, num prazo mais dilatado, poderia ser contraproducente. Se tivesse de dar uma única recomendação ao Governo português qual seria?

Aceder ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) ‘per se’, se for para fornecer liquidez no curto prazo, é positivo, porque assim se garantiria que o Estado teria recursos que talvez lhe possam vir a ser negados pelos mercados financeiros.

Mas seria preciso assegurar que seria uma ajuda temporária e de mera liquidez e, nesse caso, não haveria grandes implicações em termos de “rating”. Agora se se tratar de uma ajuda de natureza mais estrutural, as implicações no “rating” poderiam perdurar durante anos e dificultar o regresso de Portugal ao mercado.

As agências de “rating” têm sido recorrentemente acusadas de estarem a actuar de forma pró-cíclica. No caso da Irlanda, a Moody’s desceu o “rating” em cinco níveis depois desta ter obtido uma “rede de segurança” europeia. Faz sentido?

Conhecemos essas críticas, mas não concordamos com elas. No caso da Irlanda, a ajuda externa foi acompanhada da assumpção, por parte do Governo, de passivos que estavam nos balanços dos bancos e que vão afectar claramente as métricas das finanças públicas.

Outra acusação frequente é a de que são mais benévolas com os países anglo-saxónicos, retirando agora a grande excepção da Irlanda. O Reino Unido, por exemplo, anunciou hoje mais um défice orçamental recorde, bem acima de qualquer expectativa dos analistas, e mantém notação máxima. Porquê?

Vamos também olhar para os números do Reino Unido. Nenhum “rating” é imutável ou seguro. Se a situação mudar, o “rating” também mudará.

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