Economia Morreu Henrique Medina Carreira

Morreu Henrique Medina Carreira

Henrique Medina Carreira passou duas vezes pelo Governo mas ficou conhecido pelas suas análises sobre a situação económica do país, primeiro na SIC e depois na TVI. Diziam que era pessimista. Ele considerava-se incómodo.
Morreu Henrique Medina Carreira
Miguel Baltazar/Negócios
Celso Filipe 03 de julho de 2017 às 21:19

Henrique Medina Carreira morreu esta segunda-feira, 3 de Julho, aos 85 anos, vítima de doença prolongada. Nascido em Bissau, capital da Guiné, a 14 de Dezembro de 1931, filho de António Barbosa Carreira, historiador, e de Carmen Medina Carreira.

Este advogado e consultor fiscal tornou-se uma personalidade conhecida do grande público pela sua presença assídua na televisão, onde comentava assuntos da actualidade económica.


Nos últimos anos era a referência do programa "Olhos nos Olhos" emitido pela TVI 24. Casou duas vezes e deixa uma filha, Paula, do primeiro casamento.

Medina Carreira passou duas vezes pelo Governo. A primeira logo em 1975, no VI Governo provisório, cujo primeiro-ministro era Pinheiro de Azevedo. Ocupou o cargo de subsecretário de Estado do Orçamento, sendo ministro Francisco Salgado Zenha.

Entre Junho de 1976 e Janeiro de 1978, Medina Carreira voltou o Governo, neste caso o primeiro constitucional para liderar a pasta das Finanças. O Executivo era chefiado por Mário Soares.


"O Governo foi talvez o sítio em que conheci gente mais sofisticada e mais hipócrita. As pessoas raramente dizem o que pensam", afirmou Medina Carreira numa entrevista concedida à revista Sábado em Outubro de 2016.


Nessa entrevista revelou ainda que perdeu dinheiro quando foi para o Governo, mas não se queixava disso. "Não tenho extravagâncias, tenho sapatos com 25 anos e moro perto de um centro comercial onde há um italiano que é a minha 'cantina'. Há dias estive no Porto e levaram-me a uma pousada bestial, daquelas onde se escolhe e quando o prato chega nem sabe bem o que é". 

Foi militante do PS, partido do qual saiu precisamente em 1978, por discordar da política económica que havia sido adoptada. Em 2006 apoiou a candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República.

Em termos académicos, Henrique Medina Carreira passou pelo Instituto Militar dos Pupilos do Exército, de onde saiu com um bacharelato em Engenharia Mecânica. A seguir entrou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa onde se licenciou em Direito, em 1962.

Também estudou Economia no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, mas não concluiu o curso.

Enquanto comentador de assuntos económicos, Medina Carreira manteve sempre um discurso crítico relativamente à evolução das finanças públicas e ao aumento do endividamento e da despesa pública. Em Janeiro deste ano, numa emissão de "Olhos nos Olhos" fez mais uma das suas demolidoras críticas aos políticos nacionais: "Portugal é uma caso de falência democrática", afirmou.

Um trombone chato,  um tipo doce

Ao Expresso, numa entrevista publicada em 2009, rejeitou o rótulo de pessimista que muitos lhe atribuíram, a tal ponto que se transformou numa imagem de marca.

"Não sou pessimista. Chamam-me assim porque, para me responderem, tinham de ir trabalhar, estudar os números, raciocinar. Limitam-se a chamarem-me pessimista e dão repercussão a essa ideia. É a coisa mais estúpida deste mundo e é a fórmula cómoda de tentar anular o meu pensamento. Enquanto não vir gente capaz de tomar conta deste país, sou incómodo. Quando olho para os partidos, para estes dirigentes, não posso ser outra coisa. Os factos mostram que somos a pior economia da Europa e dos países mais endividados. Até hoje, não consegui arranjar uma pessoa para discutir comigo num programa na televisão", afirmou.

Na mesma conversa, quis também desmistificar a sua imagem de homem duro. "Tenho este trombone assim chato, mas no fundo sou um tipo muito doce, muito afectivo, muito terno... Choro menos que Jorge Sampaio, mas choro com mais facilidade do que gostaria", explicou ao Expresso.

Profissionalmente, a sua carreira fez-se na advocacia, consultoria de empresas e ensino universitário, tendo dado aulas no Instituto Superior de Gestão, Instituto Universitário de Lisboa e Instituto de Estudos Superiores Financeiros e Fiscais.

Publicou vários livros, o último dos quais em 2012, "Olhos nos olhos: uma reflexão abrangente, realista e construtiva sobre o futuro dos portugueses", escrito em parceria com Judite de Sousa, com quem começou por fazer o programa televisivo "Olhos nos Olhos".




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mais votado Anónimo 04.07.2017

Um grande defensor da equidade e da sustentabilidade que conduzem à prosperidade e ao desenvolvimento. Um grande amigo da Economia Portuguesa e do Estado Social. Ele só queria, e tudo fez para, que Portugal fosse um pedacinho do melhor da Escandinávia no Sul da Europa.

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Anónimo 05.07.2017

Homem de H , GRANDE. Hoje já há pouca "cepa" desta. Sempre OLHOS NOS OLHOS. Hoje não há quem olhe "olhos nos olhos", sobretudo gente da política. Esteve certo, está certo, e, continuará certo, enquanto esta praga da política, não souber, interiorizar, que só se pode distribuir , depois de criar.

IS 04.07.2017

Uma perda lamentável de pessoa pragmática, lúcida, acutilante e incómoda até ao fim.

Anónimo 04.07.2017

Talvez por não ser economista, curso que frequentou mas abandonou sem concluir porque era um homem de verdade e não um homem de vaidade, tinha um discernimento e uma fluidez no raciocínio e na argumentação sobre os temas económicos que eram sólidos, coerentes e infalíveis.

Anónimo 04.07.2017

So quem anda distraído neste mundo è que diz que ele era um visionário , foi bem explicito nos programas políticos dos partidos de oposição aos sucessivos governos que caminhávamos para o caos . Talvez as ideias que tinha sobre a falencia do estado viessem do PCP . Nao lhe reconheço obra nenhuma.

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