Finanças Públicas Mortágua: "O sistema financeiro funciona como se a crise não tivesse existido"

Mortágua: "O sistema financeiro funciona como se a crise não tivesse existido"

Em entrevista ao Público, a deputada bloquista diz que "não é aceitável" que tempo de carreiras congeladas seja ignorado e vê Centeno com um discurso de direita, alinhado com o do Presidente, de quem espera que comece a abrir caminho à ideia de bloco central.
Mortágua: "O sistema financeiro funciona como se a crise não tivesse existido"
Bruno Simão/Negócios
Negócios 23 de novembro de 2017 às 09:37

Deputada do Bloco de Esquerda lamenta, em entrevista ao Público, que no sistema financeiro já se tenha regressado à forma de funcionamento prévio à crise, mas quer que o mesmo se passe com os modelos de remuneração no Estado e com as leis laborais no país. Vê Centeno e Marcelo alinhados num discurso de direita, que pelo menos no caso do Presidente visa abrir caminho à ideia de bloco central.   

 

Mariana Mortágua ataca o ministro das Finanças não só por, no processo de descongelamento, resistir em reconhecer os anos de serviço dos funcionários no nível de carreira em que são colocados, mas também pelo discurso, que diz alinhado com uma lógica de direita, próxima da de Marcelo Rebelo de Sousa.

"Lamento que a expressão que o ministro usou tenha sido 'saber merecer'" as progressões, "porque acho que ela faz parte de uma retórica que a direita usou para justificar a austeridade — que é a retórica do país acima das suas possibilidades. (…) E é uma ideia perigosa, que nos diz que quando a crise vem a culpa é dos trabalhadores e não de um sistema económico e financeiro que é demasiado instável", diz Mariana Mortágua na entrevista.

Para a deputada esta posição tem o mesmo "subtexto" que a veiculada pela direita e pelo Presidente da República, quando disse que não podemos viver na ilusão de regressar aos tempos antes da crise: "é o discurso de que não é possível voltar aos níveis de direitos que tínhamos antes da crise (sejam eles salariais, de funcionários públicos, código laboral e por aí em diante). E que esta reposição de direitos não pode ser feita como se a crise não tivesse acontecido, não pode ser feita demasiado depressa, nem de forma demasiado violenta, porque ela pode trazer uma nova crise".

A deputada discorda "em absoluto" com esta teoria e visão da crise, pois nessas é preciso regressar ao enquadramento prévio à crise. Onde é preciso regredir é no sistema financeiro onde, na sua avaliação, nada mudou com a crise: "Quando dizemos que não é possível voltar a antes da crise, olhamos por exemplo para o sistema financeiro, que é um dos grandes responsáveis pela crise de 2007 — e aí, infelizmente, verificamos que o sistema financeiro funciona como se a crise não tivesse existido".


Mais à frente na entrevista, Mortágua enquadra as posições do presidente numa ideia de Bloco Central que Marcelo Rebelo de Sousa quererá provavelmente promover a médio prazo: "penso que a ideia que preside à acção do Presidente é a ideia de um Bloco Central. Penso que é essa a ideia de estabilidade que quer promover e a ideia de validar um certo discurso que, do ponto de vista retórico, não se distancia muito — embora numa versão mais 
light— da retórica da direita sobre a crise, sobre a reposição dos direitos, rendimentos", diz, considerando que "é expectável que essa aproximação venha a ser cada vez mais evidente no futuro".

Sobre as reivindicações do professores quando à contagem do tempo de serviço para o reposicionamento nas respectivas carreiras considera-as "legítimas" e nem quer acreditar que esse tempo seja ignorado.


"No caso específico das carreiras, o que foi reivindicado pelos professores e pelos trabalhadores da AP é simplesmente poder ser reposicionado de acordo com os anos que trabalharam. É uma reivindicação legítima - e tem que ter reflexos no âmbito desta legislatura", diz, relembrando que não estão a reivindicar retroactivos, e acrescentando que "não quero acreditar (…) que ao descongelar carreiras todos os anos de serviço fossem pura e simplesmente ignorados. Isto não pode ser aceitável, nunca foi feito", diz. 




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mais votado Anónimo Há 2 semanas

O que é facto é que as causas dessas crises são mais do que evidentes e têm culpados e nomes que poucos gostam de nomear por motivos eleitoralistas e clientelares numa óptica caciquista. Quando é preciso que entidades internacionais obriguem as organizações do nosso país a fazer uma correcta gestão de recursos humanos que leve a reestruturações com adequado e natural recurso aos despedimentos que estavam por fazer há uma série de anos, percebemos as causas da crise portuguesa. Vejam-se os casos da administração pública, da Meo e da CGD, por exemplo, entre tantos e tantos outros.

comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

As reformas pararam e o despesismo com salários injustificáveis e futuras pensões disparou, iniciando a contagem decrescente para o próximo resgate à República Portuguesa. O engano ou ilusão que se viveu entre 2005 e 2010 está a ser minuciosamente replicado pelo novo governo socialista. Não tenhamos dúvidas disto. Portugal julga-se imune à quarta revolução industrial e mais uma vez opta por não participar nela ou não se adaptar a ela julgando ser possível viver como economia de elevado rendimento usando o paradigma do funcionalismo público excedentário alavancado pelo crédito bancário subsidiado e tendo uma fé inabalável no turismo. Esta rapariga, Marxista por afinidade partidária e neoludita por conveniência, é e será sempre parte integrante do problema e não da solução.

Anónimo Há 2 semanas

A dívida pública tem andado a bater recordes. Mas o pior é que a banca de retalho subsidiada pelo Estado (nós) está mesmo à espera disso para aumentar a carteira de clientes e elevar o "produto bancário". A banca de retalho tradicional, juntamente com a Frente Comum e demais sindicatos, é uma das maiores amigas do excedentarismo, da falta de transparência e demais fontes de despesismo. Não brinquem mais com o fogo que esta pandilha é perigosa e totalmente irresponsável.

Anónimo Há 2 semanas

O que é facto é que as causas dessas crises são mais do que evidentes e têm culpados e nomes que poucos gostam de nomear por motivos eleitoralistas e clientelares numa óptica caciquista. Quando é preciso que entidades internacionais obriguem as organizações do nosso país a fazer uma correcta gestão de recursos humanos que leve a reestruturações com adequado e natural recurso aos despedimentos que estavam por fazer há uma série de anos, percebemos as causas da crise portuguesa. Vejam-se os casos da administração pública, da Meo e da CGD, por exemplo, entre tantos e tantos outros.

Que hipócrita sem vergonha... Há 2 semanas

Então a filha do terrorista e ladrão do banco da Figueira da Foz, quando teve oportunidade nem deixou que os Tugas soubessem quem eram os ladrões que "roubaram" a CGD, votando contra. Vem agora armada em "virtuosa" mas o ADN não engana, passa de pai para filha...

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