Europa O dia em que a Catalunha proclamou a independência e perdeu a autonomia

O dia em que a Catalunha proclamou a independência e perdeu a autonomia

Ao fim de quase um mês de indefinição após os resultados do referendo de 1 de Outubro, o parlamento catalão declarou a independência e o governo de Madrid activou o artigo 155.º. Tudo no mesmo dia - o 27-O.
O dia em que a Catalunha proclamou a independência e perdeu a autonomia
Reuters
David Santiago 27 de outubro de 2017 às 22:51

Após dias de avanços e recuos, de notícias confirmadas e por confirmar, esta sexta-feira dia 27 de Outubro confirmou o há muito esperado e não menos temido "choque de comboios".

As autoridades governamentais da Espanha e da Catalunha (Generalitat) embateram de frente. O parlamento catalão proclamou unilateralmente a independência e Madrid respondeu pondo em marcha o mecanismo constitucional que lhe permite suspender a autonomia catalã.

Na quinta-feira, dada a ausência de garantias do governo de Rajoy em como suspenderia o artigo 155.º se Carles Puigdemont convocasse eleições autonómicas antecipadas, o dirigente catalão desistiu do único caminho que poderia travar aquele normativo constitucional. O que tornou quase inevitável a radicalização, por sua vez instigada pelos partidos independentistas que já chamavam "traidor" a Puigdemont por este não prosseguir o mandato conferido pelo referendo de 1 de Outubro (1-O).

Puigdemont tinha de optar entre dois cenários: recuar e marcar eleições, implodindo um bloco independentista (PDeCAT, ERC e CUP) que exige a via da desobediência; ou declarar a independência e sofrer as consequências do discricionário artigo 155.

Em todo o caso, os responsáveis pelas acções desafiadoras de Madrid e desrespeitadoras da Constituição enfrentariam consequências penais, com acusações de crimes de rebelião e sedição à cabeça.

Ao optar pela segunda via, Puigdemont e o respectivo governo vêem-se agora afastados do poder e a Catalunha terá eleições no final do ano. Oportunidade que o campo soberanista poderá aproveitar para tentar fazer deste acto eleitoral um plebiscito à independência. 

Foi o que aconteceu nas eleições de 2015 (27-S), que garantiram uma maioria absoluta parlamentar aos partidos independentistas, embora essa vitória não se tenha traduzido numa maioria absoluta dos votos, o que fragilizou a pretendida legitimação da secessão nas urnas. Apesar de o boicote às eleições convocadas por Madrid ser uma possibilidade em cima da mesa, embora arriscada porque enfraqueceria a ala soberanista representada no próximo parlament.

 

Sem maioria, a coligação Juntos pelo Sim (PDeCAT, na altura Convergência Democrática da Catalunha, e Esquerda Republicana da Catalunha) passou a depender do apoio dos 10 deputados da CUP, tornando-se em certa medida refém da via de ruptura defendida por este partido anti-sistema, herdeiro do histórico anarquismo catalão.

A CUP acredita que a reacção de Madrid poderá alimentar uma vaga de fundo independentista na Catalunha, hoje com uma sociedade que as sondagens mostram estar partida ao meio entre quem quer uma república independente e quem quer continuar no reino de Espanha.

O desfecho do processo independentista é assim impossível de prever, podendo as eleições autonómicas de 21-D (21 de Dezembro, marcadas esta sexta-feira por Madrid) reforçá-lo ou enfraquecê-lo. Talvez mais do que nunca, o futuro da Catalunha vai também jogar-se nas ruas, com manifestações pró e anti independência.

Sendo certo que o eventual recurso de Madrid à repressão policial favorecerá aqueles que defendem a independência e já utilizam os "Jordis" (líderes da ANC e Òmnium Cultural, detidos acusados de sedição) como mártires da causa soberanista. Havendo ainda margem para adensar da carga dramática com as prováveis acusações aos governantes e parlamentares envolvidos nas decisões que violaram a Constituição. As imagens vão contar muito.

Mas mesmo com tanta incerteza não parece arriscado dizer que o histórico independentismo catalão não vai cruzar os braços. Pelo seu lado, os partidos do arco constitucional (PP, PSOE e Cidadãos) deverão apostar na acordada disponibilidade para uma reforma constitucional "federalizante".

Todavia, será preciso saber de que bloco - independentista ou unionista - sairá o próximo interlocutor que Rajoy encontrará na Generalitat a partir de Janeiro. E perceber se então haverá finalmente vontade recíproca para dialogar e deixar os imobilismos de lado.




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i 29.10.2017

A ser verdade a oferta de asilo a traidores, só podem estar doidos. Por muito menos, o Putinho já os tinha liquidado a todos. Gerónimo e esganiçada: o que aconteceu na Catalunha, só foi possível, porque em Espanha há democracia, não aquela que vocês defendem, mas verdadeira democracia.

Cesaltino 28.10.2017

Há aqui alguém nestes comentários que vê escravatura na Catalunha! Pois bem, se lá há escravatura, há escravatura no mundo inteiro, dito democrático, porque nos outros, isso não é possível, ou então, já lá está a ver um estado tipo Venezuela, que até a bandeira se lhe assemelha. Enfim ...

Anónimo 28.10.2017

A Abecásia declarou que vai reconhecer a República da Catalunha!

Anónimo 28.10.2017

O futuro será o respeito pelos povos decidirem o seu futuro. Do Atlântico aos Urais a Europa será a Europa dos povos, e não a escravidão dos povos por parte de qualquer ditador, seja Rajoy o Rei ou outro. As economias continuarão avançar a todo o vapor.

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