Economia "O objectivo último é criar independência e acabar com a subsídio-dependência"

"O objectivo último é criar independência e acabar com a subsídio-dependência"

A Associação dos Albergues Nocturnos do Porto produz cogumelos para as indústrias alimentar, farmacêutica e cosmética. Até já pensa exportar para ajudar a financiar um trabalho que "não é fácil, não é barato, mas é possível".
"O objectivo último é criar independência e acabar com a subsídio-dependência"
António Larguesa 30 de novembro de 2012 às 11:00

Ainda José Sócrates tentava a todo o custo evitar o pedido de assistência financeira a Portugal e já Miguel Neves subscrevia na prática a celebrizada tese: "o mundo mudou". Com 60% a 70% do orçamento anual de meio milhão de euros assegurado por verbas da Segurança Social, que sofrerão "um previsível abanão", e o restante financiado pelas quotas de cada vez menos associados e por donativos cada vez menores, a Associação dos Albergues Nocturnos do Porto arrancou há dois anos com uma "política activa de procura de fontes alternativas de financiamento" para as 2.500 dormidas e 17 mil refeições mensais asseguradas pela instituição fundada em 1881 por iniciativa de D. Luís I.

Começou por rentabilizar os terrenos agrícolas junto ao albergue de Campanhã (o mais pequeno dos dois na Invicta e que acolhem 82 pessoas), onde os utentes ocupam o tempo numa horta biológica que "alimenta" o refeitório da instituição. No início de 2012 começou a explorar outra propriedade de dois hectares, doada em Penafiel, tornando-se a associação "auto-suficiente nos produtos hortícolas".

E foi também ali que começou a cultivar os "cogumelos solidários" que chegarão ao mercado em meados de 2013. Miguel Neves fala num "projecto gerido numa óptica empresarial" e em que as oito toneladas anuais de cogumelos ambicionadas a prazo entrarão "numa linha de concorrência de mercado, pura, para ganhar quota de mercado". Seja no ramo alimentar, farmacêutico ou de cosméticos.

Dentro de três anos, com a alavanca das economias de escala, arrancará a segunda fase do projecto: aumento da produção e diversificação das espécies de cogumelos destinadas "quase em exclusivo" ao mercado externo. "Aí poderemos falar de uma empresa exportadora e contribuir também para a sustentabilidade económica do País", resumiu o responsável. A associação está interessada também em "criar oportunidades de integração" para quem passou antes pela instituição, com a criação imediata de um posto de trabalho permanente e quatro sazonais. "Sinto algum orgulho pelo nosso quadro de pessoal, com 39 pessoas, ser constituído por mais de 10% de ex-utentes", acrescentou.

Dedicada desde sempre a apoiar os desfavorecidos com alojamento, alimentação, vestuário e higiene, tem desde 1998 uma equipa de reabilitação e reinserção – com técnicos de serviço social, psicólogos, psiquiatras, médico, terapeutas ocupacionais e monitores – para "ultrapassar as tradicionais respostas assistenciais". É preciso "ir mais além", advertiu, pois "o objectivo último é criar independência e acabar com a subsídio-dependência". O que implica que a própria sociedade "flexibilize um bocadinho as medidas de integração social para se adequar às características destas pessoas em exclusão social".

Este trabalho "não é fácil, não é barato, mas é possível", frisou o psicólogo de formação, 41 anos. Tal como não serão de baixo custo as obras de requalificação e ampliação do albergue no centro do Porto, para acrescentar 20% à lotação que já estava no máximo antes da crise. É que entrando numa espiral de decadência pautada por sucessivas rupturas sociais, familiares, profissionais – e com problemas de saúde associados –, estando "este ‘cocktail’ perfeito, qualquer um de nós pode tornar-se um sem-abrigo".

 

 

Bilhete de Identidade

O quê?

A Associação dos Albergues Nocturnos do Porto foi fundada em 1881 para apoiar situações de emergência social. Desde 1998 tem uma equipa técnica para reabilitar e reinserir os utentes na sociedade.

Onde?

Dois serviços de acolhimento nocturno no Porto para 82 utentes, refeitório, lavandaria e serviços ocupacionais.

Como se financia?

60% a 70% das verbas chegam da Segurança Social; o restante de quotas e donativos. As explorações agrícolas visam dar maior autonomia financeira a prazo face à previsível quebra no financiamento tradicional.




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