Economia O tempo de João Pinto e Castro

O tempo de João Pinto e Castro

"Os trabalhos de Sísifo". "Memorando para a salvação do capitalismo". Projecto inacabado para o "Presente e Futuro da economia portuguesa". É apenas uma ínfima parte do que nos deixa João Pinto e Castro
O tempo de João Pinto e Castro
Helena Garrido 16 de junho de 2013 às 22:00

Professor universitário, economista, empresário, colunista do Negócios e activo, jovial e incisivo participante nas redes sociais, João Pinto e Castro deixou-nos a todos sem as suas reflexões, análises e argumentos na madrugada de 14 de Junho de 2013, vítima de doença prolongada. Ia fazer 63 anos dia 8 de Agosto.

" Os trabalhos de Sísifo" é um dos seus últimos trabalhos, pode ler-se no livro "Troika ano II" coordenado por Eduardo Paz Ferreira. Tinha sido recentemente eleito para o Conselho Consultivo da Faculdade de Direito de Lisboa. Ali, como nos textos que escrevia para o Negócios, nos seus blogues e no Twitter, quem o lia compreenderá como Portugal fica mais pobre sem os seus contributos.

Crítico da política de austeridade enquanto estratégia para resolver o problema que se desencadeou com a crise financeira de 2007, em "Os trabalhos de Sísifo" João Pinto e Castro disse-nos que "como Sísifo, estamos eternamente condenados a empurrar montanha acima um fardo insuportavelmente pesado, para chegarmos ao cume, resvalarmos de volta ao ponto de partida e recomeçarmos o mesmo percurso". E conclui dizendo-nos que "do modo como as coisas se apresentam, não parece haver lugar para nós dentro do euro".

Preparava-se para participar num projecto sobre a economia portuguesa com Emanuel Santos e outros economistas. "Presente e Futuro da economia portuguesa" assim se iria chamar o livro – poderá ainda existir? Entregou aquela que era a sua perspectiva para o projecto e, nesse documento, não publicado, defende que a definição do futuro da economia portuguesa tem de começar pelo seu posicionamento geoestratégico. A partir daí, considera, é preciso infra-estruturar o território ligando-o ao mundo, qualificar as pessoas, e um enquadramento institucional que promova uma cooperação mais saudável.

É ainda neste documento de posição sobre o futuro da economia portuguesa que considera existir "uma certa probabilidade de que a obsessão com a contracção dos custos salariais tenha efeitos perversos sobre o padrão de especialização" que estávamos a conquistar, levando o país "tendencialmente de volta a uma estrutura produtiva caracterizada por baixo valor acrescentado, baixa tecnologia, baixa produtividade e baixos salários".

A simultânea sofisticação e simplicidade das análises e reflexões que nos oferecia sobre a actual situação do país e sobre o futuro revelavam um profundo conhecimento da realidade, que aliava a uma vasta e completa cultura científica e geral. Eram várias as áreas do saber que usava para nos fazer pensar. Como naquele artigo de 17 de Dezembro de 2012 que, com o título "Ai aguenta, aguenta", vai buscar a experiência de Stanley Milgram, então professor de psicologia na universidade de Yale. Tudo a propósito da frase "ninguém gosta de tomar decisões que provocam sofrimento noutras pessoas", João Pinto e Castro revela-nos que Milgram, impressionado com a tese da "banalidade do mal" de Hannah Arendt, demonstrou que "Pessoas normais, que se limitam a fazer o seu trabalho, podem tornar-se agentes de um processo terrivelmente destrutivo".

É o mundo grande de João Pinto e Castro que fez dele também e inesperadamente um dos mais activos economistas das redes sociais. Alimentava desde 2003 o seu blogue pessoal "bl-g- -xst-" mas também o "Sangue, Suor e Lágrimas" e o "Provador de Venenos" – onde colocava os textos do Negócios -, além de participar no "Jugular". Todas as noites sabíamos que podíamos contar com "@joaopcastro" para falarmos sobre a actualidade em 140 caracteres.

"Eu ainda gostaria de dizer alguma coisa relativamente ao que tem sido dito aqui". É a última frase escrita por João Pinto e Castro no Twitter. Ficamos sem saber o que queria dizer ainda João. Entre conversas sobre Friedman para "@joaogalamba" e "@serras", a austeridade e o Benfica, que diz o portista que era "Tempo de reconhecer: Benfica é como austeridade: não funciona".

Doutorado em Marketing com a tese "Relationship Marketing and Consumer Behavior in Fast-Moving Consumer Goods", nasceu no Porto e licenciou-se em Economia. "Uma mente brilhante". Diz dele nas redes sociais Eduardo Paz Ferreira.

 




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