O mundo ao contrário
09 Setembro 2010, 11:33 por Luís Pais Antunes | lpa@plmj.pt
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Tudo corre mal pelas nossas terras, ao que parece. Ele é a despesa pública que cresce, quando todos juraríamos que tinha havido um compromisso em sentido contrário.
Ele é o desemprego que assusta e vai aumentando a olhos vistos, enquanto se discute se há décimas a mais ou décimas a menos e quais as estatísticas mais fiáveis. Ele são os partidos que não se entendem sobre os planos, os orçamentos, a revisão constitucional, as deduções fiscais, as portagens que eram para ser, mas que não se sabe se serão ou não...

Ele é a justiça - ou, sobretudo, a falta dela -, as controvérsias da Casa Pia e esse sentimento difuso de que as coisas dos tribunais nunca têm propriamente um fim ou, quando muito, só o têm quando a prescrição bate à porta. Ele é o futebol nacional e as inenarráveis peripécias que este final de Verão nos trouxe, em que

Era bom que conseguíssemos sair desta espiral. Duvido que isso possa ser feito com leis, discursos e anúncios grandiosos (por mais elaborados e eloquentes que sejam).
a intervenção de cada protagonista teima em trazer-nos à memória o universo dos filmes de Ed Wood e o seu lendário Plano 9 do Espaço Sideral. A lista seria interminável, como facilmente se poderá comprovar ao folhear um jornal ou ao ouvir as notícias na rádio ou na televisão que, dia após dia, nos empurram para um exercício de autoflagelação.

Há, claro, os incorrigíveis optimistas, com o Governo (ou parte dele, já que alguns dos seus membros terão entretanto cessado as respectivas funções sem que disso tenha sido dado pública conta) à cabeça. Ainda hoje (ontem) tivemos um exemplo claro desse optimismo quando o Ministro da Economia veio afirmar que a retoma estava a superar as expectativas porque houve uma revisão em alta do crescimento do nosso PIB no segundo trimestre (o facto de se tratar de 0,1% e de estarmos a crescer significativamente menos que a grande maioria dos nossos parceiros é obviamente um pequeno pormenor sem importância...).

Do outro lado, um número crescente de pessimistas de serviço vê nos mais pequenos sinais o pré-anúncio de que já nada há a fazer, condenados que estamos a um estado de empobrecimento galopante contra o qual nunca conseguiremos reagir e que acabará por nos roubar os empregos, as reformas, as férias, a educação e saúde públicas, e até as vitórias da selecção. Era bom que conseguíssemos sair desta espiral. Duvido que isso possa ser feito com leis, discursos e anúncios grandiosos (por mais elaborados e eloquentes que sejam). Mas nunca o conseguiremos fazer se não mudarmos de vida. Quando digo "mudarmos de vida", quero dizer isso mesmo: mudar a sério. Pararmos de viver num mundo de ilusões. Pararmos de nos endividar sempre à espera que amanhã as coisas corram melhor.

Pararmos de gastar o dinheiro que não temos e a riqueza que não produzimos. Pararmos de prometer tudo a todos e de tudo querermos: emprego estável, saúde e educação tendencial e alegadamente gratuitas, aumentos salariais, progressões nas carreiras e por aí adiante.

Já seria um bom primeiro passo se conseguíssemos falar verdade e conviver com a realidade. Quando ouço as diatribes à volta da futura revisão constitucional, imagino-me envolvido numa daquelas sessões dos jogos florais dos tempos da minha adolescência.

Enquanto se discutem as vantagens do princípio constitucional da segurança no emprego e a superioridade do conceito de justa causa face ao "motivo atendível", a realidade fecha portas a milhares de empresas e despede dezenas de milhares de trabalhadores, indiferente às escolhas terminológicas do legislador. Enquanto nos vamos entretendo com o desenho das paredes do serviço nacional de saúde e do sistema educativo, os respectivos tectos ameaçam ruir sob o peso das facturas por pagar...

Há pouco tempo, um amigo queixava-se-me de que não percebia o que se passava no mercado de trabalho. Todos os dias, lia notícias sobre empresas que fechavam e sobre o aumento galopante do desemprego. Mas andava desesperado a tentar, sem sucesso, encontrar um electricista para resolver um problema urgente que tinha em casa.

Para já não falar na surpresa que teve quando ligou para a oficina por causa de uma avaria no seu automóvel e lhe disseram que só estavam a fazer marcações a partir de 25 de Setembro! Parece que o mundo teima em girar ao contrário e só nos quer dar trabalho quando o que a gente queria era sossego...

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