Paulo Portas: Um observador com “instinto de matador”
02 Julho 2013, 17:20 por Celso Filipe | cfilipe@negocios.pt
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Paulo Portas tem um “instinto de matador”. Esta característica foi-lhe atribuída por José António Saraiva, director do semanário “Sol”, num perfil do então novo ministro dos Negócios Estrangeiros que o Negócios publicou a 24 de Junho de 2011.

O pedido de demissão que apresentou esta terça-feira, por não concordar com a escolha de Maria Luís Albuquerque para substituir Vítor Gaspar como ministro das Finanças, consolida este atributo. Leia o perfil, escrito nessa data, que à luz dos acontecimentos recentes, surge mais actual que nunca.

 

Paulo Portas debutou na JSD e depois fez um trajecto como jornalista até se candidatar a deputado pelo CDS/PP. O presidente dos centristas é um amante de cinema e tem Corto Maltese como um dos seus heróis.

 

Tem um "instinto matador" e é "extremamente calculista". Estas duas classificações de Paulo Portas são atribuídas por José António Saraiva, que foi seu concorrente, quando o primeiro era director de "O Independente" e o segundo - agora à frente do semanário "Sol" - liderava o "Expresso".

A rivalidade começou em 1988 e foi-se sedimentando com ataques frequentes de "O Independente" ao "Expresso". "A sensação que se tinha é que havia alguma falta de carácter do outro lado", comenta José António Saraiva.

Como o mundo dá muitas voltas, Paulo Portas, já líder do CDS/PP, acabou por se tornar colaborador do "Sol", quando este foi para as bancas em Setembro de 2006. Uma relação que durou até o semanário publicar a primeira história sobre a compra de submarinos, feita por Portas, enquanto ministro da Defesa do governo de Durão Barroso.

Este relacionamento de sobressaltos não aprisiona a observação de José António Saraiva. "Admiti que quando chegasse à política iria ter sucesso". Porque, acrescenta, tem o tal "instinto matador".

Manuel Falcão, que foi subdirector de "O Independente", verbaliza esta qualidade de Paulo Portas em três momentos. "É extraordinariamente observador, muitíssimo informado e muito criativo". Uma criatividade que lhe permite "fazer coisas novas, com base na realidade e na informação", sublinha o colunista do Negócios.

Um boné para cada ocasião
Essa capacidade que lhe permite ver além do óbvio transportou-a para a política. O "Paulinho das feiras", o defensor da "lavoura", o líder que defende uma mão mais pesada da justiça para os criminosos resulta dessa argúcia, a de saber os temas que "pegam" junto do eleitorado. Atento aos detalhes, nesta última campanha, usou vários bonés de acordo com a ocasião. Nos Açores, um dos arquipélago, nas feiras, outro, e assim por diante. Eis como se processou a entrada na política, contada pelo próprio, ao "Público". "A partir de certa altura, nos anos 90, quando o Manuel Monteiro se tornou presidente do CDS, deixei-me namorar pela ideia de dar o passo para a política; e depois passei eu a namorá-la, que é o que acontece quando nos deixamos namorar. É um 'flirt', um processo não inteiramente consciente que a gente vai deixando progredir e que, depois, toma conta da nossa margem de manobra".

Paulo de Sacadura Cabral Portas, nascido a 12 de Setembro de 1962, iniciou-se na política aos 13 anos, na Juventude Social Democrata. Em 1979 filia-se no PSD, partido que abandona em 1982. Seis anos mais tarde funda "O Independente" e em 1995 lança, em definitivo, a sua carreira política, sendo eleito deputado do CDS/PP pelo distrito de Aveiro.

A sua chegada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros é o corolário de uma estratégia pensada ao pormenor. E a aliança com Pedro Passos Coelho pode ser duradoura, assim corra bem a governação. "Enquanto for do seu interesse é de uma correcção total e de uma lealdade extrema", avalia José António Saraiva, reportando-se ao relacionamento de Portas com Durão Barroso. Certo, é que tem os pés firmes na terra. "Nunca tive utopias. O que faz de mim um conservador e não um revolucionário. Nunca quis um modelo de ser humano perfeito, nunca quis mudar o homem ou a natureza humana. Isso é próprio de um regime totalitário. Hoje, porventura dou mais valor às instituições", afirmou numa entrevista ao "Expresso" em Junho de 2009.

Na página de Paulo Portas no Facebook, Carla Antunes Rosário pedia-lhe que, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, seja uma "espécie de Scolari na mobilização do povo português". O patriotismo é uma causa que lhe fica bem.

 

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