Economia Portugueses procuram no Brasil o que Portugal não lhes dá

Portugueses procuram no Brasil o que Portugal não lhes dá

O mercado laboral do Brasil vê vantagens na nova vaga de emigração de portugueses, com boas qualificações, e, apesar de as autorizações de trabalho em 2011 não ultrapassarem as 1600, o número foi o dobro face ao ano anterior.
Lusa 25 de março de 2012 às 11:20
Ao todo, foram concedidas 1.599 autorizações no ano passado (1.292 provisórias e 307 permanentes), face a 798 em 2010, que já havia sido o ano de maior emissão deste documento para portugueses, atraídos cenário de crescimento económico no Brasil, oposto ao cenário que se vive em Portugal.

Segundo a Câmara Portuguesa Comércio no Brasil, os portugueses recém-chegados ao Brasil têm um padrão comum: são licenciados, têm entre 25 e 40 anos, e trabalham em áreas como arquitectura, engenharia, tecnologia, administração, gestão e gastronomia, além dos estudantes de programas de mestrado.

A principal vantagem destes novos emigrantes é a formação. "Os europeus no geral que migram para o Brasil por conta da crise económica têm mais estudo e conhecimento técnico e profissional do que os brasileiros, e, por isso, conseguem colocar-se no mercado de trabalho", diz Grover Calderón, presidente da Associação Nacional de Estrangeiros e Imigrantes no Brasil.

Por outro lado, sectores industriais em crescimento abriram muitas vagas técnicas, que requerem menos qualificações, afirma Márcio Guerra, gerente-executivo adjunto de estudos e prospectiva do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).

"Muitas vezes, os migrantes têm qualificação melhor do que a vaga requer. Mas, dependendo da situação em que se encontram seus países, o salário pode valer a pena", diz.

Os sectores da indústria mais promissores para novos trabalhadores sem qualificação específica são os vocacionados para consumo, construção civil, alimentação, confecção e automóvel, diz Guerra.

Já os trabalhadores com mais estudos, afirma o gerente do SENAI, serão mais necessários no sector do petróleo e nos estados do Norte e Nordeste do país, que possuem menos mão de obra qualificada disponível e vão receber mais investimentos nos próximos anos.

O aumento da emigração de portugueses, e de europeus em geral, no mercado brasileiro também foi notada por movimentos sindicais do país. Não há, entretanto, medo de uma competição predatória.

"No Brasil, fala-se de uma grande carência de engenheiros. Se vierem 50, 100 ou 200 profissionais liberais portugueses, não vão atender à demanda, nem causar transtorno no mercado", diz Francisco Antonio Feijó, Presidente da Confederação Nacional das Profissões Liberais.

Segundo Feijó, entretanto, pode ser negativo se o Brasil deixar de qualificar a sua mão de obra técnica para importá-la de fora. Já João Antônio Felício, secretário de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT) realça que a presença de estrangeiros pode enriquecer a formação do brasileiro.

"Brasil sempre mandou trabalhadores para fora, que depois trouxeram conhecimento ao Brasil. Agora são os europeus que chegam com a nova informação para a troca de experiências", afirma Felício.



Emigrantes portugueses viajam sem data de regresso

Aproveitar a oportunidade enquanto dura e seguir as tendências do mercado de trabalho são os objectivo dos emigrantes portugueses que chegam ao Brasil sem data marcada para voltar à terra natal.

Os motivos para a indefinição, no entanto, são diferentes: há portugueses que decidiram estabelecer-se no Brasil, existem os que querem voltar logo que for possível e ainda os que deixam a decisão para mais tarde.

"Vou estar aqui tanto tempo quanto queira e faça sentido. Mudamos tanto que, invariavelmente, esses prazos e metas não se cumprem", afirma o engenheiro e gerente de negócios de uma empresa de marketing digital, Ricardo Croner Bastos, 32 anos.

Bastos desembarcou no Brasil em Junho de 2011, após um ano sabático em que fez um MBA em Setúbal. Antes disso, trabalhou e estudou na Alemanha e na Inglaterra. "Quando estava em Portugal, na minha casa, pensei em ficar. Mas a crise instalada no país espanta essa vontade", conta.

O arquitecto Marcos Abreu, 28 anos, saiu do Porto e chegou ao Brasil há cerca de um mês, mas já traça uma meta temporal para o seu regresso. "Penso em ficar uns dois, três anos, até a situação em Portugal melhorar", conta.

Ao mesmo tempo, Abreu realça que tem um "desafio novo" em São Paulo, pois vai assumir a coordenação de projectos, e os rumos profissionais podem tornar uma ideia definida em algo incerto: "Só o futuro me dirá", completa.

Já empresário Miguel Gonçalves Português de Assis, 33 anos, quer fincar raízes no país americano. Sócio do irmão numa empresa que organiza eventos internacionais, mudou-se para São Paulo em Julho do ano passado, com a mulher, para abrir uma nova sede do negócio.

Sem pensar em voltar para Portugal, Assis diz esperar ter filhos brasileiros. "O Brasil é um país que agora sorri para pessoas empreendedoras, mas elas têm de trabalhar bastante", afirma.

Para ajudar os compatriotas a enfrentar a falta de informação e a burocracia brasileiras, criou o grupo "Nova Geração de Patrícios" no Facebook, sem fins lucrativos, que conta com trocas de experiências entre portugueses. A página, que começou com 20 membros, conta hoje com mais de 1.350 pessoas.

"É preciso ter dinheiro para trabalhar em São Paulo"


O alto custo de vida, que inclui o preço do aluguer de casas, da alimentação e dos transportes, impede que os emigrantes se aventurem em São Paulo sem dinheiro, afirma a estudante portuguesa de administração Rita Saldanha.

"É tudo muito caro, não dá para esperar por muito tempo", conta a estudante de mestrado de 23 anos. Após sete meses no país, ela foi seleccionada para ser estagiária numa multinacional e decidiu ficar. "O Brasil está a pagar melhor do que Portugal", afirma.

Outras dificuldades citadas por emigrantes portugueses no Brasil foram a burocracia, e a consequente demora na obtenção de documentos, e, claro, a distância da família.

"Aqui não é minha terra, não é meu país. Tenho de me adaptar e custa. Custa muito estar longe dos meus filhos, mas vou ficar o tempo que for preciso", diz o gestor de formação de pessoal de uma empresa do sector automóvel Gonçalo Souza, 45 anos, há oito meses no Brasil. Os filhos, de 17 e 20 anos, ficaram em Portugal.

O país também não é um novo "eldorado". O arquitecto Hugo, 35 anos, que pediu para não ter o apelido divulgado, desembarcou no Rio de Janeiro em Agosto do ano passado. Após dois meses, não conseguiu um emprego fixo na cidade, e teve de mudar-se para São Paulo.

Na capital paulista, encontrou uma ocupação e, ainda sem autorização de trabalho, começou a prestar serviço para um escritório. "Agora estou à espera do visto de trabalho, mas vou ter de sair do país para depois voltar a entrar", conta.

Apesar das dificuldades, a estabilidade económica e as oportunidades de negócio de um país emergentes pesam na balança da opção Brasil, segundo Julia von Maltzan Pacheco, coordenadora de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).

"Antes, o Brasil não era considerado uma opção por ser visto como um país instável económica e politicamente. Mas isso mudou", diz.

Para conseguir um trabalho com mais facilidades, os emigrantes desenvolvem suas técnicas. Estudante de administração, João Regra, 23 anos, chegou ao Brasil em busca de uma dupla titulação de mestrado. Pretende, com dois anos de curso, ter dois diplomas: um português e um brasileiro.

"Depois não haverá problema para me colocar no mercado, seja no Brasil ou em Portugal. Espero que o diploma local me ajude", disse Regra.

Francisco Antonio Feijó, Presidente da Confederação Nacional das Profissões Liberais, afirma que, em áreas como arquitectura, engenharia e direito, uma qualificação local é indispensável.

Já o arquitecto Marcos Abreu, 28 anos, optou por enviar currículos e portfólios a mais de vinte empresas antes de chegar ao Brasil, o que ocorreu há cerca de um mês. "Consegui um emprego numa semana", assinala.

Em Lisboa, a empresa para a qual trabalhava havia dois anos quis transformar o seu contrato em "freelancer" no fim do ano passado. Ele não aceitou. "O mercado em Portugal nitidamente parou. Mas deu-me uma formação que contou a meu favor", afirma.



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Anónimo 26.03.2012

Vocês são tão esquistos que tenho um vizinho
português, claro! Que se gaba em dizer que não ajuda os sobrinhos a vir trabalhar aqui no Brasil... Cruz credo...Fora daqui!

Anónimo 26.03.2012

Aqui no Brasil nãaaaaaaaaaaaoooooooooo. Por favor, fiquem aí. Vai dar tudo certo em portugal, vocês vão sair da crise. Aguardem e fiquem por aí.

Anónimo 26.03.2012

alentejano inveja mata, hein! Aqui vocês também não são bem-vindos.

Anónimo 26.03.2012

Esqueceste-te dos mafiosos, ladrões e travestis (viados)

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