Europa Próximo ministro das Finanças alemão não será anti-Schäuble

Próximo ministro das Finanças alemão não será anti-Schäuble

O autarca da cidade de Hamburgo é o nome escolhido para liderar as Finanças da maior economia europeia. Olaf Scholz é visto por alguns como uma espécie de anti-Schäuble, porém o político social-democrata tem muitas semelhanças ao popular ex-ministro alemão das Finanças.
Próximo ministro das Finanças alemão não será anti-Schäuble
EPA

Tudo indica que Olaf Scholz seja o próximo ministro das Finanças da Alemanha – assim os militantes do SPD validem o acordo alcançado entre sociais-democratas e o bloco conservador liderado por Angela Merkel –, o que coloca no segundo posto mais relevante do governo germânico alguém que defende o reforço da integração da União Europeia, e da eurozona em particular. 

 

Aos 59 anos de idade, Scholz deverá regressar a funções executivas depois de ter sido ministro do Trabalho entre 2007 e 2009, a segunda metade do primeiro mandato de Merkel na chancelaria, em coligação com o SPD. Após 12 anos como chanceler, Merkel terá pela segunda vez um ministro das Finanças não-membro da CDU, isto depois de Peer Steinbrueck (SPD) ter tutelado a pasta entre 2005 e 2009.

É difícil definir o provável próximo ministro das Finanças alemão com base numa maior ou menor proximidade face ao ex-ministro e antecessor Wolfgang Schäuble. Scholz é considerado um ortodoxo e liberal no seio do SPD, desde logo porque não esteve entre as vozes que se levantaram contra as políticas de austeridade preconizadas por Schäuble, actual presidente do Bundestag. Por outro lado, é visto como excessivamente europeísta e progressista pelo campo conservador (CDU/CSU). A capacidade negocial é uma das características apontadas de forma mais consensual.

A atestar o europeísmo deste político, com escassa experiência nos palcos europeus, estão as declarações feitas no final de 2017 por Scholz, que proclamou a necessidade de Berlim acompanhar as radicais e audazes propostas do presidente francês Emmanuel Macron para a refundação da Europa.

 

"A União Europeia não é apenas uma união aduaneira. Deve desenvolver políticas conjuntas na área dos assuntos externos e da segurança, da imigração, das finanças e da economia. E estas políticas devem ser diferentes daquelas praticadas pela chanceler [Merkel], que deixa muitas coisas por dizer e que fecha acordos à porta fechada em Bruxelas a meio da noite", criticou Olaf Scholz numa entrevista ao jornal Die Welt, publicada em Dezembro.

O jurista detalhou ainda que a Alemanha precisa de ser "mais audaz" e tem de "afirmar claramente o que [está] a planear fazer no plano das políticas europeias". Com Schulz a chefiar a diplomacia germânica, ficará mais fácil seguir este caminho. 

 

Antecipa-se que Scholz não contrarie o conservadorismo orçamental promovido pelo seu antecessor, no entanto há subtilezas relevantes a considerar. Em primeiro lugar porque se espera deste membro do SPD uma posição mais conciliatória relativamente aos chamados periféricos do euro, tais como a Grécia ou Portugal.


O especialista em políticas europeias do The Wall Street Journal, Marcus Walker, define-o como "um centrista pragmático" que "mais provavelmente irá partilhar, do que desafiar, a política cautelosa de Merkel sobre a Europa". No mesmo sentido, a Economist vê em Scholz um perfil moderado próximo ao de Merkel e distante da aspereza de Schäuble, embora a agência Reuters note que, em determinados momentos, o político social-democrata tem, tal como o seu antecessor, uma "língua afiada".

Em resumo, Scholz fica a meio caminho entre o federalismo de Martin Schulz e o europeísmo menos utópico de Angela Merkel. 

No plano interno, recentemente defendeu um novo aumento do salário mínimo, o que poderá levar a ala mais ortodoxa dos conservadores a temer que o "défice zero" de Schäuble possa ser colocado em causa. Contudo, o aumento da despesa pode ser compensado com maior captação de receita, já que Scholz propõe aumentar a carga fiscal sobre os rendimentos mais elevados.

Candidato a chanceler na calha?

Scholz é um dos vice-presidentes do SPD e, assumindo a determinante pasta das Finanças, ganha força como potencial candidato do partido nas próximas eleições federais. O que também se deve ao facto de, historicamente, este cargo ser muito popular na Alemanha, o que, por exemplo, ajudou a granjear enorme popularidade a Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças de Merkel durante oito anos. O seu peso no governo poderá ser reforçado se for nomeado vice-chanceler, hipótese tida como forte pela imprensa alemã.

 

Tendo conquistado a câmara de Hamburgo em 2011 com maioria absoluta, em 2015 garantiu a reeleição e desde então governou em coligação com os Verdes. E apesar de ser a escolha de um SPD ainda liderado por Martin Schulz – que abandonará a liderança do partido depois de assumir os Negócios Estrangeiros -, Olaf Scholz destacou-se entre os mais ferozes críticos da prestação do antigo presidente do Parlamento Europeu que, em Setembro, obteve o pior resultado dos sociais-democratas em eleições federais, pouco acima dos 20%.

 

As críticas dirigidas a Schulz, e a exigência na definição de um rumo claro para o partido, foram vistas enquanto Scholz a posicionar-se como potencial sucessor do antigo livreiro. Uma das suas preocupações centrais diz respeito ao atraso alemão na digitalização da sua economia. Scholz evidencia também grande preocupação com o crescimento do populismo e da extrema-direita que, em 2017, entrou no Bundestag pela primeira vez no pós-Guerra.

 
Scholz é definido como um advogado experiente. Experiência que tem também na área financeira. Depois de em 2013 ter sido o principal responsável do SPD nos temas financeiros durante as conversações para a grande coligação com Merkel, em 2014 delineou, juntamente com Schäuble, uma profunda reforma às contas dos Estados-federados.

Se tiver capacidade para se afirmar como inequívoco peso-pesado do governo de Merkel, Scholz poderá aspirar ser o social-democrata candidato à sucessão da chanceler. Mas para isso acontecer terá também de inverter o já longo ciclo de perda eleitoral do SPD.




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