Mundo Qatar: da presença "discreta" em Portugal ao cerco diplomático no Médio Oriente

Qatar: da presença "discreta" em Portugal ao cerco diplomático no Médio Oriente

O corte de relações diplomáticas de vários vizinhos do Qatar, por alegado apoio ao terrorismo, acontece a um mês da visita do emir do Qatar a Portugal. Há menos de um mês, António Costa levava àquele país um Portugal de "mente aberta" ao investimento.
Qatar: da presença "discreta" em Portugal ao cerco diplomático no Médio Oriente
Twitter do primeiro-ministro
Paulo Zacarias Gomes 05 de junho de 2017 às 12:55

O Qatar, que esta segunda-feira, 5 de Junho, está no centro de uma polémica diplomática regional por alegados apoios ao terrorismo, era há cerca de um mês notícia por razões mais positivas, relacionadas com o potencial de relacionamento económico com Portugal.

Na altura, a 8 de Maio, aproveitando a visita do primeiro-ministro, António Costa, aquele país, a Lusa elencava o interesse económico "discreto" do emirado em Portugal, que passava por presenças no capital de grandes empresas ou investimentos de monta no país.

Desde logo, o Qatar Investment Authority – o fundo soberano do Qatar - tem uma posição de 2,27% na EDP, comprada em Agosto de 2011, na altura um investimento avaliado em 159,4 milhões de euros. As relações com Portugal intensificaram-se a partir desse ano. Em Dezembro, Paulo Portas – então ministro dos Negócios Estrangeiros - esteve no país e, no ano seguinte, dirigentes do fundo soberano vieram a Portugal para reuniões com investidores da banca e da área turística.

O sector hoteleiro, em particular, é um dos que contará também com dinheiro de investidores oriundos daquele Estado. A marca W, da Marriott, vai chegar ao Algarve com a sua terceira unidade na Europa, um hotel a inaugurar em Albufeira em 2018 e que é desenvolvido em parceria com o grupo Nozul Hotels, a subsidiária do Jaidah Group, sedida no Qatar.

Na Vinci, a empresa francesa que gere os aeroportos portugueses através da ANA-Aeroportos, a Qatari Holding LLC – por sua vez nas mãos da Qatar Investment Authority - detém uma participação de 4%. Ainda na área dos transportes aéreos, Lisboa é apontada como um dos novos destinos para a companhia aérea de bandeira do Qatar, a Qatar Airways, com início de voos previsto para 2018, a partir da capital Doha. Sete anos depois de ter manifestado essa intenção, na altura em que também se falou do interesse na compra de 40% TAP, nunca efectivado


Portugal "de mente aberta"

António Costa, que na sua deslocação ao país foi recebido pelo emir do Qatar, acrescentava na altura que Portugal estava de "mente aberta" e esperava por sugestões das autoridades e agentes económicos sobre outras áreas de possível cooperação.

Os números da relação comercial, deixados ao Gulf Times por António Tanger, embaixador em Doha, mostravam as exportações de Portugal para o Qatar a aumentar de 13,9 para 17,8 milhões de euros entre 2011 e 2015. Já o primeiro-ministro dava o retrato mais actualizado: no ano passado, as vendas tinham crescido 61%, sobretudo à conta das saídas de minerais não metálicos, têxteis e mobiliário. E nos primeiros dois meses deste ano, mais 30%.

Uma das áreas em que Costa apontou a possibilidade de trabalho conjunto foi a da dívida pública, admitindo que poderia passar pelo Qatar a diversificação dos credores para obter melhores condições de mercado. "Estamos aqui [no Qatar] a trabalhar com investidores do mundo árabe nessa perspectiva", afirmou na altura, citado pela Lusa. 

Esta questão, a da dívida, tinha marcado também a visita de um outro primeiro-ministro socialista ao país em Janeiro de 2011. Mas José Sócrates, numa altura em que Portugal enfrentava a pressão dos mercados- com os juros a superar 7% -, negou categoricamente que estivesse no Qatar a vender obrigações portuguesas, contrapondo com a vontade de atrair investimento. 

Marcelo recebe homólogo em Julho


Já o Presidente da República, em Maio passado, considerou positiva a diversificação de credores e aventou a hipótese de haver já árabes a comprarem dívida pública portuguesa. É o mesmo Marcelo Rebelo de Sousa que deverá dentro de um mês - 4 e 5 de Julho - receber o emir Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani (na foto, com Costa) na programada visita de Estado a Portugal.

Esta segunda-feira, recordando essa deslocação, o Gulf Times refere que há pelo menos seis memorandos de entendimento em preparação para serem assinados aquando da deslocação, em áreas como a saúde onde há empresas do Qatar interessadas em investir, e que há várias companhias à espera dessa assinatura.

Entre as empresas e insígnias portuguesas que nos últimos anos desenvolveram ou ainda têm actividade no país estão o grupo Painhas, a MSF Engenharia, o grupo Casais, além das marcas de vestuário Zippy ou Giovanni Galli.

O Negócios contactou o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o gabinete do primeiro-ministro e a Presidência da República para avaliar qual a relação de Portugal com o Qatar depois da tensão diplomática na região – nomeadamente quais as possíveis consequências para a visita de Estado do emir a Portugal em Julho – mas até ao momento não foi possível obter resposta.

"Apoio ao terrorismo" leva a cerco diplomático do Qatar

Pelo menos cinco países – Arábia Saudita, Bahrain, Egipto, Emirados Árabes Unidos e Iémen – anunciaram esta segunda-feira o corte de relações diplomáticas com o Qatar por alegado apoio a organizações terroristas como o ISIS ou a al-Qaeda.

O corte de relações incluiu o fecho de portos e de fronteiras com a Arábia Saudita e a suspensão indefinida de ligações aéreas, além da interrupção de fluxos financeiros.

O Qatar afirmou "não haver uma justificação legítima" para o corte de relações, enquanto os membros dos Emirados Árabes Unidos deram 14 dias aos cidadãos do Qatar para deixarem o território. 

A quebra de laços diplomáticos ocorre semanas depois da visita de Donald Trump à Arábia Saudita, em que o presidente norte-americano pediu aos seus aliados na região para combaterem o extremismo religioso.

(Notícia actualizada às 13:20 com mais informação)




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mais votado Anónimo 05.06.2017

Os europeus, Portugal incluído, são vítimas da Sharia, anti-liberal e inerentemente anti-mercado, dos direitos adquiridos. A mesma que defende o direito ao trabalho dê por onde der e os empregos e generosos benefícios sociais garantidos para a vida toda e sempre a subir, o keynesianismo despesista do tipo que ordena a abertura de buracos nas ruas só para depois os ter que tapar logo de seguida e assim ver o PIB anual crescer por virtude de um efeito multiplicador quase bíblico que acaba sem pão ou sem peixe alguns para a multidão e o esquema em pirâmide da Segurança Social estatal cuja base se estreita a cada ano que passa e desemboca na imigração "open door", sem critérios de selectividade orientados para as reais necessidades ditadas pelas forças de mercado a cada momento. Nos condomínios fechados para as elites cada vez mais enclausuradas, como One Hyde Park, muitos deles financiados por Estados islâmicos, tudo está tranquilo...

comentários mais recentes
Água Ráz 06.06.2017

Os árabes bons foram sugados pelos ingleses e amaricanos ,,sacaram-lhe as massas petroliferas enquanto foi tempo e como o pitrol baixou está aí a revolta dos monhés .O Costa vingativo e geringonço e também monhé ,já que não conseguimos tirar proveito dos bons ficamos com os maus :Cata-os Costa

Anónimo 05.06.2017

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/qatar-a-casa-da-maior-base-militar-norte-americana-no-medio-oriente_n1006223

Sózinhos e obscurantistas é que seria bom, sobretu 05.06.2017

para os que anseiam voltar ao passado. Para esses o progresso é um contratempo, visto toldar-lhe os projetos de prepotência que preconizam para o País. Eles anseiam por um povo submetido a meia dúzia de barões que necessitam limpar o ego. Condescendentes prometem sopa e pão e palavras de conforto.

Anónimo 05.06.2017

Os terroristas são financiados, preparados e idealizados com grandes somas de dinheiro.

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