Mundo Refugiado em Londres renova mercado de transferência de dinheiro

Refugiado em Londres renova mercado de transferência de dinheiro

Refugiado, economista, delator, empreendedor – Ismail Ahmed viveu vários papéis na sua odisseia da Somália devastada pela guerra até à fronteira da tecnologia financeira de Londres.
Refugiado em Londres renova mercado de transferência de dinheiro
Bloomberg
Bloomberg 13 de maio de 2017 às 12:00

Mas há um evento que se destaca: em Fevereiro de 2010, Ismail Ahmed usou um pagamento de 200.000 dólares (183 mil euros) das Nações Unidas para fundar a empresa de transferência online de dinheiro WorldRemit. Desde então, a empresa reuniu mais de 145 milhões de dólares e actualmente transfere dinheiro para 142 países.

 

Nesta semana, a WorldRemit tenciona ligar o seu serviço à Android Pay, a carteira digital propriedade do Google, a unidade da Alphabet. Isto facilitará que os seus 2,4 milhões de clientes transfiram dinheiro só com alguns cliques e aproximará Ahmed de se transformar numa força modernizadora pela forma como 444 mil milhões de dólares em remessas são enviados, por ano, a economias em desenvolvimento.

 

"O que estamos a observar é uma convergência de pagamentos, aplicações de mensagens, telefone e remessas", diz Ahmed, de 57 anos, num escritório agitado à sombra da Abadia de Westminster em Londres. "Nós queremos estar na passagem do informal para o formal, do dinheiro vivo para a não utilização de dinheiro em espécie."

 

Décadas de experiência

Ahmed, de sorriso rápido e transbordado de planos, comporta-se com a firmeza de um homem que lutou muito para chegar a este momento. Ele e os seus mais de 300 funcionários encabeçam uma iniciativa para transformar um sector que quase não mudou com o passar das décadas. As pessoas ainda fazem fila nas agências de Western Union para mandar fundos para parentes distantes, pagam comissões altas para que os bancos façam isso ou confiam o dinheiro que pouparam com muito esforço a redes do mercado negro. Mesmo assim, o dinheiro demora horas ou até mesmo dias em chegar.

 

Ahmed cresceu em Somalilândia, no norte da Somália, e entrou no negócio de transferir dinheiro muito antes da chegada do telemóvel. Na década de 1980, o seu irmão e os seus primos juntaram-se a milhares de outros homens que trabalhavam nos estados petrolíferos do Golfo Pérsico. Eles entregavam os seus salários a agentes de transferência de dinheiro, que compravam materiais de construção para exportar para Hargeisa, a cidade natal de Ahmed. Após a venda dos bens, os agentes distribuíam o arrecadado entre a família de Ahmed. Demorava três meses, mas funcionava.

 

Então, em 1991, a guerra civil convulsionou a Somália. Aviões bombardearam Hargeisa, e Ahmed e a família fugiram para o vizinho Djibuti. Ele chegou ao Reino Unido, onde estudou economia na University of London. Ahmed tinha dois ou três empregos ao mesmo tempo. Ele voltava para casa tão cansado após colher morangos nos subúrbios de Londres que ia para a cama dormir vestido. Ele visitava agentes de transferência de dinheiro na cidade a cada duas semanas.

 

"Facto da vida"

Após terminar o doutoramento, Ahmed pesquisou sobre o negócio das remessas em Somalilândia. Em 2005, arranjou o emprego com que sonhou na ONU em Nairóbi, ajudando empresas de transferência de dinheiro a cumprir normas de financiamento do contra-terrorismo promulgadas após os atentados de 11 de Setembro. Pouco depois, conta Ahmed, descobriu que um funcionário sénior outorgava contratos de consultoria a uma empresa da qual ele era sócio. Então Ahmed tornou-se delator.

 

A ONU não reagiu às acusações dele, mas o comité de ética da organização decidiu que ele tinha sido vítima de represálias e ordenou o pagamento de uma liquidação, segundo registos do caso. Ahmed soube exactamente o que fazer com o dinheiro.

 

"A migração é um facto da vida", diz. "E nós não acreditamos que isso vá mudar, com ou sem Brexit, com ou sem Trump."


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