Ásia Reportagem na Coreia do Norte: Na fronteira com a "escuridão"

Reportagem na Coreia do Norte: Na fronteira com a "escuridão"

Na cidade chinesa de Dandong, é possível vislumbrar do outro lado do rio a Coreia do Norte - um dos países mais isolados do mundo, mas que ameaça travar uma guerra apocalíptica com os Estados Unidos.
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Lusa 06 de novembro de 2017 às 14:10

Sob a direcção de Kim Jong-un, Pyongyang efectuou três testes nucleares na região de Punggye-ri, a apenas 100 quilómetros da fronteira com a China, causando apreensão entre os residentes de Dandong.

 

Nesta cidade com 800.000 habitantes, o que se passou em Chernobyl, palco do maior desastre nuclear da História, é hoje tema frequente de conversa.

 

"Aqui, todos sabem o que aconteceu em Chernobyl" diz à agência Lusa um reformado que durante anos trabalhou junto à fronteira com a Coreia do Norte e que se identifica como Liu.

 

"O acesso continua interdito num raio de dezenas de quilómetros", acrescenta, referindo-se à zona de exclusão em redor da antiga usina nuclear soviética.

 

Pang, uma dona de casa que vive na margem do rio Yalu, fronteira natural entre os dois países, concorda: "Dandong tornou-se uma cidade muito perigosa".

 

"Por vezes, quando bebo água, questiono-me senão estará contaminada", descreve.

 

Em Setembro passado, o regime de Kim Jong-un realizou o sexto e mais poderoso teste nuclear até à data, no que revelou ter sido a detonação de uma arma termonuclear para ser colocada num míssil balístico intercontinental.

 

Em reacção, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou, perante a Assembleia Geral da ONU, "destruir totalmente" o país.

 

Porém, para os residentes de Dandong, que ouviram falar ou sentiram os efeitos da devastadora Guerra da Coreia (1950-53), um novo conflito não é possível. E referem um argumento consensual entre analistas: os custos seriam demasiado altos.

 

"Kim Jong-un é intransigente porque o pode ser", diz Bo, enquanto observa Sinuiju, a cidade norte-coreana na outra margem do Yalu. "Deste lado, estamos confiantes de que não haverá guerra", afirma.

 

"Os Estados Unidos não se atreverão a atacar", acrescenta. "Caso o fizessem, a economia sul-coreana regrediria cinquenta anos".

 

Seul, onde vivem mais de 10 milhões de pessoas, está ao alcance da artilharia convencional e misseis norte-coreanos, dispostos em grande número ao longo da fronteira entre os dois países.

 

Nos anos 1950, China e Coreia do Norte lutaram juntas contra os Estados Unidos. Nos manuais escolares chineses, a "Guerra da Coreia" é designada "Guerra para Resistir à Agressão Imperialista Americana e Ajudar a Coreia".

 

No entanto, no final da década de 1970, o Partido Comunista Chinês desistiu de "aprofundar a luta de classes" e escolheu o desenvolvimento económico como "tarefa central".

 

Em teoria, os dois países continuam a ser aliados ideológicos, oficialmente governados sob a égide da doutrina marxista-leninista. Na prática, as paisagens de Dandong e Sinuiju não deixam dúvidas quanto à diferença nos rumos adoptados por Pequim e Pyongyang.

 

Nas margens chinesas do rio Yaolu, ruas movimentadas e torres com dezenas de andares contrastam com as construções rasas e ausência de trânsito do lado oposto.

 

Uma repórter da agência Lusa teve a oportunidade de viajar pela Coreia do Norte durante três dias. Entrevistas não foram permitidas e durante toda a viagem a jornalista foi acompanhada por dois guias turísticos.

 

As poucas interacções que conseguiu ter com os locais não variaram dos relatos de outros visitantes: os norte-coreanos afirmam que lutarão até à morte pela liderança de Kim Jong-un e contra os "imperialistas norte-americanos".

 

Na Internet norte-coreana, é apenas possível aceder a sites do Governo, enquanto as poucas notícias internacionais na imprensa local são sobre a China.

 

Mas talvez a melhor forma de entender o mistério que envolve o país seja ouvir quem vive na fronteira.

 

"Não há luz do outro lado do rio", diz Pang, que costuma passear com o marido junto à margem do Yaolu depois do jantar. "É a escuridão total".

 

Por João Pimenta e Wei Wang (texto) e Wei Wang (vídeo)




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Anónimo Há 2 semanas

Em organizações públicas e privadas do mundo mais desenvolvido, no âmbito da gestão das organizações faz-se gestão de recursos humanos (GRH). Sem GRH, nem criação de valor ocorre nem elevação dos rendimentos de colaboradores não excedentários se dá, uma vez que os excedentários, por definição, limitam-se a extrair valor. Economias com GRH enriquecem e desenvolvem-se de forma sustentável. Ser excedentário não significa por si só que se seja criminoso ou mesmo incompetente. Ser excedentário é como estar na condição de desempregado mas a ser suportado por uma organização que emprega o desempregado. O desempregado e o excedentário são apenas uma oferta sem procura, e isso não é crime, crime é não fazer GRH. O desempregado, sem procura no mercado laboral onde oferece trabalho. O excedentário, sem procura numa dada organização empregadora que tem que o suportar prejudicando a persecução da sua missão, visão e propósito. Ambos são um problema do Estado de Bem-Estar Social e não do empregador.

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