Política Rita Tavares: “Costa era o socialista em melhores condições para fazer a geringonça”

Rita Tavares: “Costa era o socialista em melhores condições para fazer a geringonça”

Um ano depois das eleições legislativas de 2015 Portugal é governado, pela primeira vez na sua história, por um Governo que tem o apoio parlamentar dos partidos mais à esquerda. As jornalistas Rita Tavares e Márcia Galrão contam em livro como é que isso se tornou possível.
Rita Tavares: “Costa era o socialista em melhores condições para fazer a geringonça”
Miguel Baltazar
Bruno Simões 03 de Outubro de 2016 às 21:15

A geringonça, termo por que é conhecida a solução parlamentar que suporta o Governo de António Costa, demorou 54 dias a ser acertada entre o PS, o Bloco de Esquerda e o PCP. É precisamente sobre esses quase dois meses de negociações intensas que versa o livro "Como Costa montou a geringonça em 54 dias", das jornalistas Rita Tavares, do Observador, e de Márcia Galrão, da Visão. O Negócios falou com Rita Tavares, que confirma que já havia contactos entre Costa e o PCP antes das eleições, e o considera o socialista mais preparado para negociar à esquerda.

 

As coisas foram acertadas antecipadamente entre o PS e os partidos à sua esquerda? Já tudo se encaminhava para que acontecesse a geringonça?

A informação que conseguimos recolher ao longo deste trabalho todo foi que sim, que já havia algum trabalho preparatório, entre o PS, mais concentrado em António Costa, e o PCP, mas tudo muito a um nível informal. Havia contactos exploratórios para perceber se havia essa abertura, se os resultados das eleições fossem os que foram ou qualquer coisa perto disso. Havia vários cenários em cima da mesa, [discutiu-se se] Costa podia estender a mão, com alguma segurança, não ficando ali pendurado. Tanto assim foi que nos dias seguintes [às eleições] se percebe que isto só podia estar articulado, de alguma maneira. Tinha que haver alguma conversa dentro do PCP para, dois dias depois, aparecer com aquele discurso no final de uma eleição…

Em que fala logo em viabilizar um Governo PS.

Sim. Não estávamos habituados àquele tipo de discurso no final de uma reunião entre PCP e PS. Já vimos imensas e as reuniões nunca acabavam assim. Depois de um apelo lançado por António Costa no domingo, na terça há uma reunião em que Costa sai de lá todo contente e Jerónimo faz um discurso que deixa meio país colado à cadeira, incluindo o país socialista, que não acreditava que aquilo eram negociações a valer – e eram. Toda a gente questionou na altura como é que aquilo podia acontecer em tão curto espaço de tempo. O PCP tem lógicas de decisão um bocadinho mais prolongadas no tempo que isto. Até nos foi confirmado por algumas pessoas do PS, e em "on" por Domingos Abrantes do PCP, que falou abertamente em conversas informais antes de 4 de Outubro, e até referiu o debate entre Jerónimo e Costa – em que parecia que havia pacto de não-agressão entre eles: antes desse debate eles falaram e Costa percebeu que havia abertura do PCP como nunca tinha havido. O resultado eleitoral fez o resto: deixou o PCP numa situação difícil perante o BE, que o ultrapassou, e Costa, pior que aquilo só se direita tivesse maioria absoluta.

Quando se olha para a geringonça tenta-se sempre perceber se Costa é o único político português que conseguia fazer uma coisa destas. Conseguiram chegar a essa conclusão?

Eu não consigo fazer afirmações tão definitivas na política. Era seguramente o socialista que estava com melhores condições para fazer uma coisa destas, acho que sim. Pelo historial familiar – ele tem uma ligação ao PCP e o PCP é muito cioso dessa relação de confiança, é um dado importante para eles. Também é importante o passado político dele, que nunca foi muito hostil para os comunistas, e até esteve em negociações na câmara de Lisboa em 1989. O livro conta vários pormenores: um encontro de Costa com Francisco Louçã por causa das legislativas de 1991, por exemplo, para tentar mostrar que Costa tinha melhores condições do que outro socialista. E há uma declaração do PCP, de Domingos Abrantes, em que ele assume que sem Costa provavelmente aquilo não aconteceria. Já tinha dito isso antes numa entrevista ao Observador. Mas quando falou connosco deu um dado importante: o dado que eles precisavam de saber da noite eleitoral era se Costa ficava ou não! Logo aí vês que ele tinha condições muito favoráveis.

Alguma vez esteve em cima da mesa que Jerónimo e Catarina fossem para o Governo?

Chegou a ser falado cá fora mas nunca chegou a estar escrito em lado nenhum, nem a ser assumido. Jerónimo faz essa declaração numa fase de deixar tudo em aberto. Mas o PCP não iria porque a lógica do acordo do PCP é de colaboração, não é de coligação. Eles têm frisado sempre isto, que é um acordo com o PS.

E que não é um governo de esquerda.

Sim, na cabeça deles isso estava muito definido. E se fossem para o Governo tinham de fazer um congresso extraordinário para mudar as teses, porque as teses não confirmavam isso. Era complicado do ponto de vista interno. Também me explicaram que nem sequer era uma coisa que pudesse ser feita do pé para a mão, não tinham mandato para isso. No caso do BE, não tivemos informação de que a coisa tivesse sido colocada. Não esteve em cima da mesa formalmente mas foi alvo de debate dentro do Bloco. Houve uma facção que veio logo afirmar que não queria ir para o Governo. A líder do Bloco, Catarina Martins, até veio fazer uma declaração em que diz "quem manda sou eu". Se queria ir para o Governo, ninguém nos revelou isso. Se foi colocado em cima da mesa de maneira formal, isso não foi.

Qual foi a última barreira a ser removida para os acordos serem uma realidade?

Quando se olha para isto a esta distância, não consigo escolher um momento e dizer "aqui viu-se a luz". Acho que a primeira conferência de Jerónimo de Sousa, na terça-feira, foi muito importante. Até descrevemos as reacções dos socialistas que não estavam mesmo à espera daquilo. O único que estaria com maior esperança era António Costa. Pessoas como Fernando Medina e outras que estavam nessas reuniões não acreditavam que aquilo fosse possível. Esse momento foi muito importante. Nas reuniões técnicas quem foi mais importante foi o Bloco: eram mais descomplexados a negociar por áreas, por medidas, falavam com mais tranquilidade. O PCP tinha mais resistência. E houve um momento final, em que o Comité Central ou aprovava aquele texto de acordo ou não. Porque já tinha havido ali um impasse antes, o BE e o PS estavam preparados para assinar, e quando enviaram [o texto] ao PCP, disseram que não assinavam porque não estavam confortáveis com o texto. Tentamos ter esse documento, conseguimos a descrição do documento por quem o viu e desenhou mas não o vimos. Tivemos a descrição mas não o vimos. É o documento que foi rejeitado.

Conseguiram perceber o que é que era desconfortável para o PCP?

Tinha a ver muito com a questão da formulação de legislatura, e com o compromisso que tinha a ver com a aprovação de Orçamento do Estado. Eles queriam apenas que [o acordo] ficasse mais para curto prazo, garantindo apenas o primeiro OE, de 2016. Mas a parte da legislatura já foi muito difícil. António Costa fez finca-pé: "tem que estar lá que é para a legislatura, senão o Presidente não me nomeia, isso tem que estar no acordo, escrito". O PCP esteve até à última a hesitar, foi uma conversa que durou uns tempos, sobre a melhor formulação para escrever aquilo no acordo. Naquele dia à noite em que o comité central se reúne, Jerónimo sai e diz "é um acordo com a perspectiva de uma legislatura", e Costa dá um salto de alegria no Rato porque aquilo era o que faltava para desbloquear totalmente a coisa. Portanto, teve estes três momentos: o momento inicial de Jerónimo, o desbloqueio do Bloco nas reuniões técnicas, que foi bom para aquilo fluir mais rapidamente, e o terceiro grande momento foi o do PCP, que estava um bocado enguiçado para assinar os acordos, sobre como o fazer, e sobretudo por causa da questão da legislatura.


Notícia alterada às 19:00 de 4 de Outubro. Corrigidas as datas das reuniões de Costa com o PCP na câmara de Lisboa e com Louçã.




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mais votado Anónimo 04.10.2016


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Anónimo 07.10.2016


O VERDADEIRO SOCIALISTA

Um verdadeiro socialista defende a igualdade (critérios iguais) e a justiça para todos os cidadãos.

Ao contrário de muitos portugueses que se dizem socialistas (incluindo os do governo), mas que apenas defendem os interesses particulares de alguns grupos privilegiados…

Em detrimento dos restantes cidadãos (a maioria dos portugueses) que são cada vez mais sacrificados para sustentar os privilégios, as mordomias, as regalias e as benesses desses grupos (FP & CGA).

Anónimo 05.10.2016

óh rita tavares deixa a carreira de escritora e passa a dedicar o teu tempo a comeres m*rda às colheres

Anónimo 04.10.2016


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Anónimo 04.10.2016


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