Mundo Tillerson adopta posição de força contra a Rússia antes de viajar para Moscovo

Tillerson adopta posição de força contra a Rússia antes de viajar para Moscovo

O chefe da diplomacia norte-americana considera que a actuação da Rússia em relação à Síria é "incompetente". Tillerson admite que interferência russa nas presidenciais americanas "mina qualquer esperança de melhoria nas relações" bilaterais.
Tillerson adopta posição de força contra a Rússia antes de viajar para Moscovo
Reuters
David Santiago 10 de abril de 2017 às 13:43

As notícias que davam conta de que a administração Trump iria actuar no sentido do estabelecimento de relações bilaterais privilegiadas com a Rússia poderão ter sido prematuras. A pouco mais de 24 horas de viajar para a Rússia, o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, estabeleceu uma linha dura de actuação face a Moscovo.

 

Na antecâmara do primeiro encontro diplomático de alto nível entre Moscovo e Washington desde a tomada de posse do novo presidente americano, Donald Trump, Tillerson acusou a Rússia de ou ser "cúmplice ou incompetente" por permitir que a Síria mantivesse armamento químico, isto à revelia do acordo através do qual a ONU supervisionaria a destruição desse tipo de arsenal.  

 

O agora chefe da diplomacia americana e antigo CEO da Exxon Mobil, também conhecido pelas ligações a Moscovo, tendo chegado a ser agraciado com a mais alta distinção atribuída pela Rússia a cidadãos estrangeiros, criticou ainda a interferência russa nas presidenciais americanas, recorrendo a métodos já utilizados noutros actos eleitorais na Europa.

 

Numa entrevista emitida este domingo à noite pela ABC, Rex Tillerson frisou desconfianças várias relativamente à actuação externa russa, demonstrando que afinal a nova administração americana não terá relações especiais com Moscovo. Tillerson contrariou as posições oficiais de Trump acerca da intervenção russa nas eleições americanas de Novembro, aproximando-se das conclusões já apresentadas pelos principais serviços de informações norte-americanos. O próprio secretário de Estado tinha anunciado na semana passada que deixara de ser uma prioridade para Washington a saída do presidente sírio, Bashar al-Assad, do poder. 

 

A interferência russa "mina qualquer esperança de melhoria de relações", considerou o secretário de Estado americano na entrevista deste domingo, acrescentando que "é muito evidente que eles [a Rússia] estão a adoptar tácticas similares nos processos eleitorais da Europa", que terá eleições ainda este ano em França e na Alemanha.

 

A posição assumida por Tillerson deixa Trump cada vez mais isolado na anunciada intenção de estabelecer relações especialmente amigáveis com Moscovo e adensa a nebulosa sobre os resultados que sairão da visita oficial à Rússia. O que acontece no seguimento do progressivo deteriorar das relações bilaterais verificado nos mandatos presidenciais de Barack Obama.

 

Concluída a cimeira preparatória do G7 que decorrerá em Itália no próximo mês - a ideia dos ministros dos Estrangeiros passa por colocar pressão sobre a Rússia para que se distancie do regime de Assad -, Tillerson parte para Moscovo onde ficará durante dois dias, desconhecendo-se ainda se terá algum encontro com o presidente russo, Vladimir Putin. Para já tem somente confirmada uma reunião com o seu homólogo russo, Sergey Lavrov, mas, mesmo assim, mostra optimismo em relação ao encontro.

 

"Tenho esperança que possamos manter conversações construtivas com o Governo russo", disse Tillerson que espera que a Rússia "apoie um processo que leve à estabilização da Síria".

 

O bombardeamento que resfriou as relações EUA-Rússia


Na semana passada, um bombardeamento com agentes químicos (gás sarin), provocou perto de 100 mortes em
Khan Sheikhun, província de Idlib, região do norte sírio e uma zona controlada por grupos da oposição ao regime liderado por Assad. O ataque químico foi rapidamente atribuído às forças leais ao presidente Assad, que reiteraram a garantia de não envolvimento no dito bombardeamento.

 

Contudo, a resposta não se fez esperar e, menos de três dias depois, os Estados Unidos realizaram um ataque circunscrito à base aérea de onde terão partido os aviões responsáveis pelo ataque na província de Idlib, naquela que foi a primeira acção militar directa efectuada pelo exército norte-americano em cerca de seis anos de conflito. Esta decisão contrariou a doutrina várias vezes proclamada por Trump de não envolvimento no conflito sírio. 

 

Esta acção acção unilateral, decidida por Trump e pelo Pentágono sem que tivesse sido requisitada a aprovação do Congresso ou o apoio das Nações Unidas, foi fortemente criticada por Moscovo que de imediato avisou para a degradação das relações com os Estados Unidos depois deste ataque "ilegal" contra um "Estado soberano".  

 

A Rússia "falhou à sua responsabilidade" de remover o armamento químico sírio no âmbito alcançado de 2013 depois da crise que nesse Verão levou o presidente Barack Obama a traçar uma "linha vermelha" em relação à actuação de Assad, que mesmo assim executaria novo bombardeamento com agentes químicos sem que Washington respondesse.

 

A Síria é de há muito um aliado fundamental de Moscovo no Médio Oriente, país em que a Rússia detém uma importante base naval. Moscovo apoia o regime ditatorial vigente na Síria desde o pai de Assad e é contra o afastamento do actual presidente sírio, que o Kremlin considera "legitimamente eleito".  

 

Já os Estados Unidos da era Obama eram contra a manutenção de Assad no poder, o que explica que os Estados Unidos financiassem com treino e equipamento militar os grupos da oposição considerados moderados que combatem o regime sírio (e em simultâneo grupos terroristas como o Estado Islâmico). Contudo, Trump defendeu ao longo dos últimos meses a permanência de Assad como única forma de manter equilíbrio no país e na região depois de concluído o conflito. Mas as coisas estão a mudar.

 

A embaixadora americana junto da ONU, Nikki Haley, defendeu na organização que "não existe qualquer opção de chegar a uma solução política com Assad à frente do regime".

 

Só que a acção russa – que passou a intervir directamente na guerra Síria em Setembro de 2015 com recurso a meios aéreos e com o pretexto de combater os grupos terroristas com presença no país – tem sido essencial para os avanços territoriais conseguidos pelas forças leiais ao regime do alauita (ramo do islão xiita) Assad, que no terreno tem contado ainda com o apoio do xiita Irão e do libanês Hezbollah. 




A sua opinião3
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Anónimo Há 2 semanas

Uma no Cravo outra na Ferradura.
Mas ainda existe gente que acredita nestes gajos ? uma verdadeira perda de tempo.

comentários mais recentes
Os falcões das guerras querem vender armas. Há 2 semanas

Os falcões só querem guerra .Os povos querem ajuda,mas ajuda que lhes dão são carregamentos de armas,para cortar cabeças,depois aparecem os betinhos que matam criancinhas,eles estão se nas tintas para as criancinhas,querem é os bens desses povos que é o petróleo.e diamantes.

ramalho Há 2 semanas

oh oh oh estes cowboys, nem com a desgraça das torres aprenderam. Não há ética nem moral, isto é tudo conversa para manter a indústria de armamento. Se as fábricas produzem milhões em armas e não as utilizam... todos se levantam contra a utilização de armas químicas (e bem). Mas quem as fabrica? Russia, EUA, França e Inglaterra? Nem pensar. Esses são países que respeitam os povos árabes e africanos. Idiotas, não veem que não precisam? Não fizeram um atentado ao Reagan? Para quê? Não podiam ter esperado? Afinal, que perigo causa agora o ex presidente e ex actor? E este Trump, e Putin, também vão sofrer atentados, espere-se mais 30 anos e alguém vai ver.

Anónimo Há 2 semanas

Uma no Cravo outra na Ferradura.
Mas ainda existe gente que acredita nestes gajos ? uma verdadeira perda de tempo.

pub
pub
pub
pub