Mundo Tillerson quer que a Rússia repense apoio ao "parceiro não confiável" Assad

Tillerson quer que a Rússia repense apoio ao "parceiro não confiável" Assad

Antes de partir para Moscovo, o secretário de Estado dos EUA lamentou que a Rússia tenha optado por se manter fiel a Assad, um "parceiro não confiável", e pede que o Kremlin repense o apoio ao presidente sírio. Já a Rússia mostra preocupação face a eventual ataque americano contra a Coreia do Norte.
Tillerson quer que a Rússia repense apoio ao "parceiro não confiável" Assad
Reuters
David Santiago 11 de abril de 2017 às 13:41

À preocupação americana a Rússia responde com outra preocupação. Os Estados Unidos estão apreensivos com a situação na Síria e mostram-se cada vez mais empenhados em retirar do poder o presidente sírio, Bashar al-Assad. Já a Rússia mantém o apoio ao aliado Assad e mostra-se "realmente preocupada" com as intenções de Washington em relação à Coreia do Norte.

 

É este o panorama que enquadra a chegada, esta terça-feira, 11 de Abril, do secretário de Estado americano, Rex Tillerson (na foto), à Rússia, na primeira cimeira bilateral entre altos responsáveis dos dois países desde a tomada de posse de Donald Trump como presidente em Janeiro último.

 

Ainda em Itália, onde hoje terminou um encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros do G7, Tillerson lamentou que a Rússia mantenha o apoio a Assad, que classifica como um "parceiro não confiável", e garantiu que essa aliança "não vai servir os interesses russos no longo termo".

 

O chefe da diplomacia americana sugeriu ainda que Moscovo poderá "desempenhar um papel importante" na resolução da crise síria se deixar cair Assad, cujo regime "está a chegar ao fim" e em que a questão passa por "saber como acaba". Nesse sentido, Tillerson considera que a forma como decorrer a necessária "transição" de regime será crucial para o futuro do país.

 

O antigo CEO da Exxon Mobil reiterou ainda as críticas já feitas numa entrevista televisiva transmitida no passado domingo, considerando que o continuado recurso do exército sírio a armamento químico demonstra que Moscovo "falhou na sua responsabilidade de assegurar o cumprimento do acordo de 2013".

 

Acordo esse que previa a destruição do arsenal químico do regime sírio e que se seguiu à crise desencadeada nesse Verão pelo uso sistemático de agentes químicos pelo exército leal a Assad, que ignorou mesmo a "linha vermelha" traçada pelo então presidente americano, Barack Obama.

 

No encontro do G7 que decorreu na localidade de Lucca, na Toscânia, os ministros dos Estrangeiros não chegaram a acordo para o estabelecimento de sanções adicionais contra a Rússia e a Síria.

 

"Não houve consenso", admitiu no final o ministro dos Estrangeiros italiano, Angelino Alfano. Na segunda-feira, Reino Unido e Canadá tinham sinalizado a possibilidade de um reforço das sanções impostas a Moscovo na sequência da anexação da Crimeia e das acções russas no Leste da Ucrânia se o Kremlin continuasse a suportar o regime de Assad.

 

Os Estados Unidos consideram ter sido o exército sírio a levar a cabo um ataque com armas químicas no norte do país e que causou dezenas de mortes. Em resposta, Washington retaliou com o disparo, a partir de contratorpedeiros ao largo do Mediterrâneo, de uma salva de 59 mísseis de cruzeiro contra a base aérea de Al-Shayrat, de onde terão partido os aviões responsáveis pelo bombardeamento.

 

Apesar de poucos dias antes desse ataque a Casa Branca ter confirmado que retirar Assad do poder deixara de ser uma prioridade da sua política externa, o recurso a armas químicas mudou tudo. Tal como pretendido durante a era Obama, Washington quer promover uma "mudança de regime" na Síria porque "não há nenhuma solução política com Assad no poder", sustentou esta segunda-feira Nikki Haley, embaixadora americana nas Nações Unidas.

 

Rússia responde com a Coreia do Norte


A Rússia, que juntamente ao Irão e ao libanês Hezbollah apoia o combate do exército sírio, mantém intacta a aliança a Assad. E aos avisos vindos de Washington, o Kremlin respondeu esta terça-feira com a demonstração de apreensão relativamente à Coreia do Norte, temendo que os Estados Unidos ajam unilateralmente contra o regime norte-coreano.


Demonstrando preocupação quanto à política americana para a Líbia, Síria e Iémen, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, disse que a Rússia está "preocupada com aquilo que Washington tem em mente para a Coreia do Norte depois de ter sinalizado a possibilidade de uma cenário militar unilateral".

 

Em comunicado divulgado antes da cimeira que hoje começa com o seu homólogo, Lavrov afirmou ser fundamental agir no "âmbito de obrigações colectivas", o que é uma chamada de atenção ao ataque americano à base síria, uma decisão que não passou pela ONU, nem pelo Conselho de Segurança da organização e nem sequer pelo Congresso americano.

 

No passado sábado, o dia seguinte ao final da cimeira entre os presidentes dos EUA e da China, Donald Trump e Xi Jinping, respectivamente, Washington deslocou um porta-aviões para a península norte-coreana, decisão justifica pelo "comportamento provocatório" das autoridades lideradas por Kim Jon-un. Já esta terça-feira, Trump disse, via Twitter, que Pyongyang "está à procura de problemas".

 

Se a nomeação de Rex Tillerson para a diplomacia americana foi inicialmente entendida como mais um sinal de proximidade da administração liderada por Trump a Moscovo e ao presidente russo, Vladimir Putin, as últimas semanas mostram um esfriar das relações, em especial devido aos mais recentes desenvolvimentos na Síria.

 

O Kremlin considerou o ataque americano como "ilegal" e avisou que novas acções poderiam merecer outra resposta no terreno, onde a Rússia combate, desde Setembro de 2015, com recurso à força aérea os inimigos de Assad: grupos rebeldes considerados moderados e também grupos terroristas como o Daesh.


Contudo a Casa Branca também já avisou que um novo ataque químico do regime de Assad merecerá uma resposta "proporcional" do exército americano. A conversa entre Tillerson e Lavrov acontece numa fase de tensão entre Washington e Moscovo que poucos acreditavam ser possível há escassas duas semanas.




A sua opinião3
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
EUA querem lá um fantoche dos corta cabeças. Há 2 semanas

Já Salazar fazia o mesmo arrebentava umas bombas ,e a seguir vinha a PIDE.assim é a história das químicas,quem foi que as tinha?È isso que preciso saber, os falcões estão se nas tintas para as criancinhas quer é o petróleo.

TRETAS Há 2 semanas

É mais fácil e mais barato descarregar as armas a ficarem obsoletas em cima dum aeroporto, avisando antes os utilizadores "inimigos", fingindo que são contra russos, assads e daeshes, do que destruí-las em segurança em território próprio!Uma espectacular manobra de propaganda para consumo interno.

Beatriz Oliveira Há 2 semanas

Tillerson chega a Moscovo como dono do mercado. Lavrov pode responder-lhe que sim, é uma ideia a pensar, que vai consultar aliados e amigos e que pois claro, é uma hipotese e somos todos amigos. Vai uma abração.

pub
pub
pub
pub