Um ano depois, a geração à rasca deu lugar ao Portugal à rasca
12 Março 2012, 01:09 por Bruno Simões | brunosimoes@negocios.pt
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Há um ano, centenas de milhares de portugueses manifestaram-se nas ruas contra o fim da precariedade, por um futuro melhor. Hoje, está quase tudo pior, lamentam os organizadores. Ainda assim, as pessoas descobriram que têm voz, estão mais conscientes e atentas à política, dizem.
Não é fácil perceber o que mudou para melhor desde que, a 12 de Março, o País assistiu a uma das maiores manifestações de que há memória, sem qualquer estrutura partidária ou sindical por detrás. Na altura, os ingredientes que confeccionaram o protesto foram vários, como recorda Alexandre Sousa Carvalho, um dos organizadores do protesto: a canção “Parva que Sou”, dos Deolinda, verbalizava a insatisfação de uma geração de licenciados que não conseguia encontrar estabilidade laboral; a Primavera Árabe continuava a derrubar ditadores no Norte de África e Médio Oriente. E o Governo Sócrates vivia uma fase de muita contestação. A soma destas partes foi igual a 300 mil pessoas na rua em Lisboa e no Porto.

Hoje, a Primavera Árabe procura derrubar mais um líder – desta feita na Síria. Por cá, o Governo mudou, e até trouxe um “bónus”: a troika, pedida por José Sócrates a 6 de Abril, para resolver o problema de financiamento do País. “Um ano depois temos um Portugal à rasca. As medidas que estão a ser tomadas não têm em conta as pessoas, e estão a colocar-nos em recessão. Não há estabilidade profissional, o desemprego continua a aumentar”, lamenta Paula Gil, uma das organizadoras (são quatro) do 12 de Março – que deu origem ao Movimento 12 de Março (M12M). A descrição é facilmente entendível, numa altura em que o próprio Presidente da República se queixa da sua reforma.

Alexandre Sousa Carvalho lamenta que a precariedade não tenha sido “tratada”. “Uma das nossas acções, em conjunto com outros movimentos, foi uma iniciativa laboral cidadã, um projecto-Lei para o qual recolhemos 36 mil assinaturas, e que agora está na Assembleia da República. Reunimo-nos com a bancada do PSD para discutir a proposta, e disseram-nos que não a tinham lido, apesar de ela apenas ocupar uma folha A4”, conta um dos membros do movimento. “Além disso, as crises política e económica estão mais graves e o desemprego em níveis que já não víamos há 20 anos”, observa.

Os “D. Sebastiões” da Sociedade Civil

Uma das mais recentes sugestões do M12M passa por “tomar de assalto” o poder local nas próximas eleições autárquicas – em Outubro de 2013. Será para mostrar que estes políticos não servem? “Não, apenas queremos que as pessoas se envolvam”, explica Paula Gil. “Urgimos à sociedade civil que esteja presente na democracia. Os movimentos cívicos são uma forma importante de o fazer, que complementa os partidos”, completa Sousa Carvalho. Além do mais, “o poder local é aquele que está mais próximo das pessoas, o que mais facilmente identifica as suas necessidades”.

“Sempre dissemos que os partidos e os sindicatos são essenciais e indispensáveis”, atesta Alexandre Sousa Carvalho. “Não dizemos que a culpa desta situação é apenas dos partidos; ela cabe a todos: a nós, aos partidos, aos sucessivos Governos”, assinala. Mas atenção: quando o Governo diz que os portugueses vivem acima das suas possibilidades, tem grandes responsabilidades nisso: “Quando se usa esse argumento, ignora-se que o modelo de desenvolvimento do País foi feito com base no crédito, em todos os segmentos”.

Nos últimos 366 dias (não esquecer que 2012 é ano bissexto), o M12M lançou uma auditoria cidadã à dívida, associou-se à manifestação mundial de 15 de Outubro, tentou eliminar dos Censos a pergunta 32 (que sugeria os recibos verdes a assumir-se como contratados a prazo), entregou no Parlamento a iniciativa laboral cidadã, que pretende “reforçar aspectos específicos do Código Laboral” que eliminem a precariedade. Apesar de nada ter mudado, “uma das grandes vitórias foi a precariedade ser tema da agenda pública. E, a seguir ao 12 de Março, assistimos a uma série de movimentações de associativismo cidadão”, congratula-se Alexandra Sousa Carvalho. A repercussão do movimento na comunicação social foi tal que, sempre que algo acontece na sociedade civil, os média procuram o M12M, “como se fôssemos os D. Sebastiões da sociedade civil”, brinca.

Uma sociedade mais viva e desperta

Há muitos motivos para estar satisfeito com o pós-12 de Março. “A partir da manifestação sentimos um aumento na vivacidade da sociedade civil, que começou a envolver-se em debates e a estar mais consciente. Foi um despertar para a política nacional, o que mostrou que as pessoas gostam de participar em iniciativas concretas”, resume Paula Gil. Por seu turno, Sousa Carvalho acredita que “as pessoas perceberam o poder que têm, que a democracia somos nós que a fazemos, são as pessoas que decidem”.

O M12M, que Alexandre Sousa Carvalho se recusa a catalogar como sendo de esquerda ou de direita (apesar de “os eus membros serem quase todos de esquerda”), vai continuar a “desmontar certos discursos e a perceber por que certas decisões são tomadas”. O objectivo deste “grupo de amigos, completamente horizontal, que funciona em rede” vai continuar a ser “ajudar as pessoas a encontrar respostas”. Como por exemplo para a austeridade: será uma inevitabilidade? “Não. Isso é quase como uma profecia auto-realizável, porque o Governo sempre disse que era este o caminho que queria seguir”.

Para hoje, o M12M sugere que cada pessoa coloque uma ideia para o País na sua janela, estampada numa t-shirt ou vertida num cartaz. Uma forma de mostrar que as pessoas estão "unidas e confiantes". Algo que faz o contraponto com, por exemplo, o incitamento do Governo à emigração. “Essa sugestão revela um desrespeito total pelas pessoas e o assumir da incompetência do Estado na resolução dos problemas dos jovens”, critica Alexandre Sousa Carvalho.

Recorde tudo o que aconteceu a 12 de Março com os links em baixo:
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