Educação Estão os tablets a comprometer os hábitos de leitura das nossas crianças?

Estão os tablets a comprometer os hábitos de leitura das nossas crianças?

A preocupação não é nova, mas o facto é que não existe uma resposta fechada para esta pergunta e são várias as faces da questão. Há quem considere que o problema está na tecnologia em si, outros apontam para uma integração que potencie renovados hábitos de leitura e há quem saliente nesta equação a importância do factor humano.
Estão os tablets a comprometer os hábitos de leitura das nossas crianças?
Inês F. Alves 29 de agosto de 2015 às 16:00

"A popularidade dos tablets entre as crianças é um tópico controverso. Estão estes dispositivos a distrair as crianças de actividades mais tradicionais, que alguns consideram promover maior bem-estar, como a leitura?" Esta é a pergunta de partida para o artigo de Stuart Dredge publicado esta semana, a 24 de Agosto, no The Guardian.

Complexa, é sobretudo uma pergunta que divide investigadores e cuja resposta se multiplica numa série de estudos e comparativos onde não existe consenso, deixando os pais à deriva. Sem apresentar uma resposta fixa, o que este artigo faz sobretudo é apontar caminhos e, no fim, "tudo se resume às pessoas".

Segundo a entidade reguladora das telecomunicações do Reino Unido, a OfCom, em 2010 apenas 7% das crianças entre os 5 e os 15 anos tinha acesso a um tablet. Já em 2014, este número chegou aos 71%.

Tentando responder à pergunta se de facto a massificação destes dispositivos afectou os hábitos de leitura das crianças, Dredge apresenta alguns dados que dão conta a ausência de consenso em torno deste tema.

Segundo National Literacy Trust, 41,4% das crianças e adolescentes britânicos com idades compreendidas entre os 8 e os 18 anos lia fora da sala de aula, muito acima dos 29,1% em 2010, altura em que foi lançado o primeiro iPad da Apple.

Já o relatório da Publisher Scholastic, aponta para o facto de que o número de crianças norte-americanas que lê por prazer entre 5 a 7 dias por semana, e com idades compreendidas entre os 6 e os 17 anos, caiu de 37% em 2010 para 31% em 2014.

Quando se passa dos números para quem actua no terreno, percebem-se as muitas faces desta questão.

Joanna de Guia, criadora do Story Habit - empresa que se dedica a promover a leitura nas crianças através da realização de eventos e acções de formação -, mostra-se preocupada com o grau de distracção que pode ser introduzidos por um dispositivo que junta num só lugar aplicações, jogos, vídeos, entre muitas outras fontes de entretenimento.

Se as crianças "não estão a receber uma gratificação instantânea do livro que estão a ler, podem simplesmente jogar um jogo em vez disso. Então o que acontece à história?", questiona, salientando que, contrariamente à leitura, o "grau de concentração exigido em qualquer dispositivo digital é muito curto".

Quando a questão passa não por escolher o tablet ou um livro, mas antes em ler livros neste tipo de dispositivos, Irene Picton da National Literacy Trust considera que "precisamos de pesquisa" e de "uma pesquisa mais abrangente".

Na mesma linha, David Kleeman, vice-presidente da Dubit, empresa que analisa tendências mundiais, aponta que "quase tudo o que se lê hoje em dia sobre e-reading [leitura em plataformas digitais] é preliminar ou de escala reduzida".

Picton vai mais longe e salienta que "muitas vezes nos esquecemos que os livros são tecnologia também, e uma que teve vários séculos para evoluir". A investigadora recorda "a desconfiança com que Sócrates recebeu a escrita". "Ele pensava que as pessoas não se lembrariam das coisas se as estivessem a ler em vez de as ouvir.

Agora estamos preocupados de não nos recordarmos das coisas porque estão escritas num ecrã e não em papel", disse.

Para Picton, as plataformas digitais pode constituir uma oportunidade de "manter a leitura relevante" e diz que não ter uma "mente aberta" pode levar-nos a "ignorar essa oportunidade".

Todavia, é preciso saber trabalhar bem a transição do papel para o digital. "Com um ecrã que compete pela atenção a criança e oferece múltiplas hipóteses [de entretenimento] – vídeos, aplicações, jogos, livros, e redes sociais – é muito fácil ser seduzido pelas possibilidades: introduzir coisas desnecessárias que não suportam ou melhoram a história, mas antes distraem", alerta David Kleeman.

No mesmo sentido, Asi Sharabi, fundador da Lost  My Name, uma empresa que faz livros personalizados para crianças, considera que "conseguir que os miúdos fiquem agarrados pela narrativa é algo que os livros fazem muito bem" e que isso não está a ser conseguido pelos dispositivos porque "os miúdos vão sempre olhar para o que podem fazer a seguir no ecrã para despoletar alguma interactividade", diz.

Gareth Williams, investigador da Universidade de Nottingham Trent, leva a discussão para outro patamar, mais humano e menos no âmbito da tecnologia. "Pensamos nos livros como algo muito solitário, uma actividade individual, mas para as crianças mais pequenas – aquelas que ainda não sabem ler – os livros são em grande medida uma actividade social, quer sejam lidos no âmbito de um grupo ou pelos pais", diz.

"Uma coisa em que o iPad como dispositivo, como objecto cultural, nunca foi muito bom é nestas experiências de leitura partilhada. Ao contrário dos livros, onde não há outra opção senão sentar e ler com os filhos nos primeiros anos", salienta Asi Sharabi, acrescentado que estes dispositivos são muitas vezes usados como "uma ama moderna", permitindo aos pais ganhar tempo para fazer outras coisas. Depois, o sentimento de culpa faz com que se "criem limites quando a tempo de uso dos ecrãs ou do tablet", o que faz com que, "quando os miúdos têm meia hora ou uma hora com o iPad, optem por fazer as coisas de que mais gostam".

Um dos entrevistados por Stuart Dredge que não se quis identificar levanta a questão: "Talvez o problema não seja com os miúdos e os ecrãs, mas com os pais e os ecrãs (…) As crianças olham para nós como modelo, então, como podemos esperar que amem ler, se nós não conseguimos afastar do Facebook ou do WhatsApp por 10 minutos para ler com eles?".

Assim sendo, pergunta Gareth Williams, "podem estes aspectos sociais de interactividade acontecer com dispositivos tal como acontecem com livros? Na verdade, tudo se resume às pessoas".




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surpreso1 Há 2 semanas

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